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Dia 5, Sessão 2, Encontro “Guerra contra la Humanidad”

Dia 5, sessão 2
Semillero “Guerra contra la Humanidad”
(Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio)

24 de julho de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

A última sessão do Semillero “Guerra contra la Humanidad” (Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio) centrou-se nas diferenças.

Assim se encerrou este extraordinário espaço de reflexão e pensamento crítico, com a força, a potência, a contundência e a feroz ternura de mulheres e outroas que, por meio de seus múltiplos olhares, nos convidaram a enxergar, com corações indignados, a violência de um sistema-mundo que se impõe como único, mas também, com amor e esperança, a multiplicidade das realidades humanas que compõem um mundo de inúmeras e deslumbrantes cores.

Que melhor forma de concluir este semillero, que nos ofereceu uma oportunidade única de compreender não apenas a tragédia que hoje acomete a humanidade e o planeta, neste momento de tanta escuridão, mas também as muitas luzes de esperança que nascem do empenho em criar e proteger a vida a partir de tantos e tão diversos lugares e corações: outros mundos que já existem e que nos permitem continuar, caminhando esperançando em meio à tempestade.


Titze Malambé – “Radiografía do corpo em resistência”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

A pele como território e trincheira: guerra, dissidências e corpos descartáveis

Os corpos dissidentes no México não são sujeitos de proteção do Estado, mas territórios de guerra. É o que expõe Titze Malambé ao analisar como a violência contra as dissidências sexo-gênero, as trabalhadoras sexuais e as pessoas trans não constitui um fenômeno isolado da criminalidade comum, mas faz parte de uma estratégia sistemática de militarização, controle e extermínio que caracteriza a atual fase do capitalismo no México.

Com clareza, Malambé afirma: o Estado não protege esses corpos, ele os persegue. A polícia, que deveria garantir segurança, transforma-se em algoz. O sistema de justiça, que deveria investigar os transfeminicídios, os naturaliza e os esquece. O capitalismo, que empurra mulheres pobres, pessoas trans e dissidências para a prostituição, depois as criminaliza por venderem o próprio corpo como último recurso de sobrevivência.

Essa lógica não é nova, mas se aprofundou. Durante o chamado governo da Quarta Transformação, enquanto o governo proclama estar “ao lado dos pobres”, a militarização se intensifica, o crime organizado continua operando sem limites e os corpos dissidentes seguem tombando. Travestis assassinadas em Ecatepec, trabalhadoras sexuais desaparecidas em Iztapalapa e pessoas trans espancadas pela polícia não são exceções. São parte de uma política de Estado.

Malambé conectou os pontos que as autoridades insistem em manter separados: a repressão policial contra as trabalhadoras sexuais, o proxenetismo que atua impunemente, o paramilitarismo que faz desaparecer corpos considerados incômodos e os transfeminicídios executados sob o manto da impunidade. Tudo isso funciona como um único mecanismo de aniquilação territorial.

A pele, afirmou, é território. E esse território está sob ocupação.

Diante dessa realidade, a resposta não pode ser pedir mais proteção a um Estado que mata. Não se pode confiar nas instituições que perpetuam a violência. A saída, sustenta Titze Malambé, é aquela que já vem sendo construída pelas próprias trabalhadoras sexuais, pelas ativistas trans e pelas dissidências: a organização a partir da base, a autonomia, a autodefesa e a construção de redes de cuidado coletivo que o Estado jamais oferecerá.

O chamado final foi direto: dirigido a jornalistas, ativistas, pesquisadores, artistas e a todos aqueles que se dizem comprometidos com o pensamento crítico. Acompanhar essas lutas não é um ato de caridade. É reconhecer que a defesa dos corpos dissidentes é, antes de tudo, a defesa da própria vida contra uma máquina de morte que continua em operação.


Vica Rule – “Potência travesti contra o realismo capitalista: propaganda por uma militância em defesa da vida”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

A guerra contra a humanidade também persegue as pessoas trans

A violência contra as pessoas trans no México não é um fato isolado nem uma discussão recente. Ela faz parte de uma guerra permanente contra a vida, sustentada pela impunidade, pelo ódio e pela expropriação.

A partir de sua própria trajetória como sobrevivente de tortura, sequestro e agressões motivadas por sua identidade, Vica Rule afirmou que o sistema capitalista tem buscado despolitizar as lutas da diversidade sexual, enquanto os crimes de ódio continuam a crescer. Lembrou que os transfeminicídios e travesticídios ocorrem há décadas no México e denunciou que muitas dessas violências permanecem invisibilizadas ou são encobertas pelas autoridades.

A memória é uma forma de resistência, insistiu a ativista. Ela recordou a história das primeiras marchas do orgulho como espaços de protesto — e não de celebração comercial — e convocou à desconstrução dos discursos da extrema direita, que transformaram as pessoas trans em alvo de uma nova ofensiva política.

Sua mensagem foi concluída com um chamado para romper com a resignação, exigir justiça para as vítimas da transfobia e manter viva a rebeldia ao lado das demais lutas do povo. “Não podemos renunciar à resistência”, afirmou, porque a defesa da diversidade também faz parte da defesa da humanidade.


Brenda Nava Galindo – “Habitar a fuga, criar outros mundos: o quilombismo como memória, território e resistência antirracista diante do colonialismo”.

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

O racismo não é apenas discriminação ou preconceito; é uma estrutura histórica de dominação.

Esse foi o ponto de partida da análise de Brenda Nava Galindo. O racismo é uma criação histórica europeia que possibilitou tanto a expansão do colonialismo quanto a acumulação primitiva do capitalismo, por meio de uma classificação hierárquica da humanidade.

“O racismo é uma tecnologia de poder que organiza e hierarquiza quem merece viver com dignidade, quem pode ter acesso a direitos e quem é reduzido a uma condição de inferioridade.”

A raça, que biologicamente não existe, foi criada como categoria pelos colonizadores europeus para justificar a apropriação de territórios e riquezas, bem como a escravização e o extermínio dos povos originários, africanos e afrodescendentes. Essa classificação colocou o europeu — concebido como “branco” — no topo da humanidade, identificada com a “civilização”, enquanto indígenas e africanos foram reduzidos à condição de selvagens, primitivos, irracionais e, evidentemente, inferiores. Na prática, a hierarquia imposta pelo racismo define quem é considerado plenamente humano e quem é privado desse reconhecimento.

Essa concepção hierárquica da humanidade chegou às Américas com a conquista e a colonização europeias, mas não desapareceu com as independências. Ela permaneceu enraizada no imaginário coletivo e continua sendo imposta pela distribuição desigual não apenas do poder, da riqueza e do trabalho, mas também do conhecimento — isto é, pela definição de quais saberes e formas de compreender o mundo são considerados legítimos e quais são desqualificados; de quem é reconhecido como produtor de conhecimento e quem é reduzido à condição de mero “objeto de estudo”. Brenda Nava comparou esse extrativismo epistêmico — a apropriação dos conhecimentos dos povos considerados “inferiores” pelas elites culturais hegemônicas — ao extrativismo de minérios e hidrocarbonetos. Diante disso, a proposta não é rejeitar a ciência nem os conhecimentos de matriz europeia, mas desarticular o monopólio da verdade: promover “um profundo processo de questionamento radical das hierarquias do saber, do poder e do ser herdadas da modernidade colonial e, a partir daí, construir horizontes alter-nativos”.

A ativista também apresentou uma crítica contundente ao que denominou “feminismo branco hegemônico”. Esclareceu que não se refere a todo feminismo surgido na Europa nem a toda feminista branca, mas àquele feminismo que toma a experiência da mulher branca como padrão universal e ignora as profundas diferenças que marcam a vida das mulheres racializadas. Ao fazê-lo, esse feminismo invisibiliza as violências de gênero atravessadas pelo despojo territorial, pela militarização, pelo extrativismo, pelo empobrecimento e pelo racismo.

Por fim, Brenda Nava apresentou o trabalho anticolonial e antirracista do coletivo AFROntera Cimarrona, do qual faz parte. Explicou que o nome do coletivo inspira-se no quilombismo (cimarronaje): a fuga de pessoas escravizadas e a fundação de comunidades autônomas nas quais, em contraposição ao apagamento promovido pela colonialidade, florescia a memória de suas origens, de suas línguas, de suas práticas religiosas e de suas próprias formas de organização social. O quilombismo constituiu, assim, um exemplo vivo da possibilidade de construir outras sociedades, fundamentadas nos saberes e nas formas de compreender o mundo dos povos historicamente inferiorizados pela colonialidade. Em muitos aspectos, concluiu, essa experiência guarda importantes afinidades com o zapatismo.


Argelia Guerrero – “‘Dança para mulheres’… que lutam”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

No 8 de março de 2018, em meio à escuridão, mais de duas mil velas foram acesas nas mãos de mulheres zapatistas, que simbolicamente as entregaram às milhares de mulheres de todo o mundo reunidas no primeiro Encontro Internacional de Mulheres que Lutam. “Essa luz é para você”, disseram. “Quando sentir que a luta — ou seja, a vida — está muito dura, acenda-a novamente em seu coração.” “E não fique com ela”, acrescentaram: leve-a às assassinadas, às desaparecidas, às presas, às estupradas, às violentadas de tantas formas, para que essa pequena luz ilumine o futuro.

Neste último dia do Semillero, a dançarina, pesquisadora e ativista Argelia Guerrero nos trouxe essa pequena luz na forma de um ramalhete de mulheres que lutam, ao ritmo dos sete movimentos e do aleluia que compõem o Stabat Mater, de Pergolesi, a música da peça que ela definiu como “uma das mais belas danças criadas pela bailarina e coreógrafa mexicana Gloria Contreras”: Dança para mulheres — à qual acrescentou: que lutam. Uma obra, explicou, dedicada às mães.

Às mães buscadoras, em sua luta incansável por encontrar seus filhos e filhas desaparecidos, carregando a dor indizível da ausência e da incerteza, enquanto enfrentam não apenas a inação e a incompetência do Estado, mas também a criminalização, a perseguição e a desqualificação dirigidas contra elas próprias — expressão evidente da cumplicidade do Estado mexicano com o crime organizado.

Às mulheres trabalhadoras, cuja luta nasce da exploração laboral e de classe, enfrentando as condições precárias impostas pelo capitalismo e defendendo os direitos do trabalho.

Às mães de vítimas de feminicídio e às mulheres sobreviventes da violência machista, que enfrentam a impunidade, a revitimização e o esquecimento — sendo, muitas vezes, elas próprias também assassinadas —, preservando a memória de suas filhas e exigindo justiça.

Às mulheres indígenas, que defendem seus povos, culturas, línguas e territórios, e cuja resistência inspira espaços como a Rotatória das Mulheres que Lutam, onde mulheres mazatecas, otomís, triquis, mazahuas e de outros povos têm se reunido para compartilhar suas histórias e transformar a dor coletiva em verdadeiros “jardins da memória”.

Às defensoras dos territórios, compreendendo o território não apenas como terra, mas também como corpo, memória, identidade, comunidade e espaço de vida.

Às mulheres jovens, que transformam sua rebeldia em organização política e social diante do capitalismo, do patriarcado e de outras formas de opressão.

Às mulheres artistas, que utilizam a música, a dança, o cinema, a fotografia, o bordado e tantas outras formas de expressão para dar visibilidade às lutas, construir memória e fortalecer a resistência coletiva.

O aleluia que encerra a obra, afirmou Argelia Guerrero, simboliza justamente aquela pequena luz que as zapatistas nos entregaram há oito anos. Uma luz guardada coletivamente, que tremula junto às desaparecidas, às assassinadas, às presas, às estupradas, às espancadas e às mulheres assediadas.

“A luta nunca mais foi a mesma desde aquela noite em que as companheiras nos iluminaram com sua luz. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas, naquela noite, nos sentimos menos sozinhas.”


“Como mulheres que somos”

Mulheres e outroas zapatistas encerraram o Semillero “Guerra contra a Humanidade” e convocaram a semear o comum diante de um sistema que busca fazer desaparecer a vida.

Não foi um discurso de despedida. Foi uma conversa de mulher para mulher, de outroa para outroa, de povo para povo, da dor para a esperança.

As mulheres e outroas — bases de apoio, uma miliciana, uma coordenadora de artes e duas integrantes da Comissão Permanente do Governo Autônomo — transformaram a palavra em um abraço coletivo e em um chamado urgente à organização para defender a vida. Representando a voz de milhares de mulheres zapatistas e outroas, Marijose, Mia, Yuli, Remedios, Fernanda, Mareli e Erica compartilharam sua palavra. (Textos completos e áudios abaixo.)

Marijose, recordou a história de exploração suportada por suas avós, bisavós e tataravós. Essa história de exploração e violência, afirmou, continua atingindo sobretudo as mulheres indígenas, pobres e trabalhadoras. “O sistema capitalista busca nos dividir por gênero, raça, religião ou identidade, quando a resposta só pode ser construída em comum.”

A partir de sua experiência como mulher trans zapatista, Mía compartilhou que foi no comum que encontrou autonomia, respeito, liberdade e uma família. “A dor de vocês é a nossa dor; a raiva de vocês é a nossa raiva”, afirmou, dirigindo-se a todas as dissidências que sofreram e seguem sofrendo as diversas violências do sistema. O inimigo não são as diferenças entre os povos, mas um sistema que alimenta a discriminação e a expropriação.

As vozes de Yuli, Remedios, Fernanda, Mareli y Erica foram tecendo uma mesma mensagem. Manifestaram sua solidariedade às mães buscadoras: “Sentimos sua dor e sua raiva, e reconhecemos a luta de mães, pais, irmãos e irmãs, homens e mulheres.” Falaram sobre a juventude recrutada pelo crime organizado, sobre a violência contra mulheres e meninas, sobre o saqueio dos territórios e da Mãe Terra. Mas, acima de tudo, falaram da organização como o único caminho possível:

O capitalismo é cruel, desumano e criminoso. Nasceu para o mal e pelo mal morrerá.

Esclareceram que não convocam à guerra, mas à construção da justiça, da liberdade e da democracia desde baixo, sem esperar que a mudança venha daqueles que governam em benefício de seus próprios interesses.

A mensagem foi clara e expressa com a convicção de quem a semeou na terra que defende: “Há apenas um caminho, e esse caminho é o comum.”

Com essa certeza, as mulheres zapatistas encerraram o Semillero voltando seu olhar para o futuro.

Nós, mulheres zapatistas, por sermos mulheres, acreditamos nessa transformação. Em Chiapas, em algum lugar do mundo, o comum já nasceu.

Marijose, outroa zapatista | Texto completo | Baixe o áudio

Mia, outroa zapatista | Texto completo | Baixe o áudio

Yuli, Comisión Permanente del Gobierno Común | Texto completo | Baixe o áudio

Remedios, Comisión Permanente del Gobierno Común | Texto completo | Baixe o áudio

Fernanda, jovem coordenadora de arte | Texto completo | Baixe o áudio

Mareli, miliciana | Texto completo | Baixe o áudio

Erica, base de apoio | Texto completo | Baixe o áudio

Fotos: Radio Pozol

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Dia 5, sessão 1, do Encontro “Guerra contra a Humanidade”(As populações e a natureza e a natureza sob cerco)

Dia 5, sessão 1, do
Semillero “Guerra contra la Humanidad”
(Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio)

24 de julio de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

Neste quinto dia do Seminário “Guerra contra a Humanidade” (As populações e a natureza sob cerco), com o objetivo de facilitar o retorno das pessoas que vieram de outras regiões, decidiu-se alterar a programação e antecipar para a segunda sessão do dia as apresentações sobre as diferenças, que estavam previstas para o sexto e último dia.

Apresentamos aqui a primeira sessão, na qual se discutiu, de um lado, a exclusão, a extração e a expropriação, bem como as formas de resistência que surgem nas cidades; e, de outro, o ecofeminismo e suas ações diante tanto das violências de gênero quanto das agressões contra a Mãe Terra e os territórios.

Antes do início das apresentações, o Subcomandante Moisés fez um esclarecimento sobre o Encontro de Resistências e Rebeldias, o Encontro de Artes e a comemoração do aniversário do levante zapatista, que, conforme anunciado no início do Seminário, serão realizados durante todo o mês de dezembro na Cidade do México. Explicou que a logística e os demais aspectos organizacionais ainda estão sendo definidos e que, no momento oportuno, serão compartilhados mais detalhes. Ressaltou, porém, que o que não está em discussão é que os zapatistas estarão presentes e que os encontros acontecerão na Cidade do México, conforme anunciado.

A seguir, apresentamos um resumo das duas palestras da primeira sessão deste último dia do Seminário, juntamente com os áudios e os links para os textos completos.


Vicente Moctezuma Mendoza – “Extração, expropriação, exclusão e resistências na cidade”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

A cidade como campo de guerra, onde o capital reorganiza o território, concentra a riqueza e expulsa quem a habita.

O pesquisador Vicente Moctezuma Mendoza descreveu uma guerra silenciosa, porém permanente, na qual o mercado imobiliário, os megaprojetos urbanos, a especulação financeira e diversas formas de violência reconfiguram os territórios em benefício de poucos, ao mesmo tempo em que deslocam aqueles que historicamente os habitaram.

A segregação socioespacial, explicou, não é um acidente nem uma consequência natural das desigualdades econômicas. É o resultado de um modelo que concentra riqueza, serviços, infraestrutura e investimentos em áreas privilegiadas, enquanto empurra os setores populares para periferias cada vez mais distantes, inseguras e precarizadas. O acesso à moradia, à água, ao transporte, à cultura e até mesmo ao tempo para conviver com a família passa a ser determinado pela capacidade de pagamento.

Nessa guerra da expropriação, a gentrificação aparece como uma forma de colonização urbana. Bairros inteiros são transformados para atrair investimentos, turismo e moradores de maior poder aquisitivo, provocando o deslocamento de comunidades que, durante gerações, construíram ali suas redes de solidariedade, sua memória e sua vida cotidiana. Ao mesmo tempo, o pesquisador denunciou a existência de despejos violentos, fraudes imobiliárias, cobrança de extorsão por grupos criminosos, extorsões e mecanismos de controle territorial, dos quais participam tanto o Estado quanto o crime organizado, transformando a moradia e o trabalho em fontes permanentes de extração de riqueza.

No entanto, destacou que, diante da cidade projetada para atender aos interesses capitalistas, também emerge a cidade das resistências: povos originários, comerciantes, coletivos de bairro, cooperativas e organizações populares que continuam defendendo seus bairros, seus espaços de trabalho e seu direito ao território.

Porque, como já foi afirmado, a cidade não é apenas uma mercadoria: ela é também um espaço de comunidade, de memória e de luta.


Iracema Gavilán – “Mandatos de gênero e extrativismos: ações a partir do ecofeminismo”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

A guerra contra os territórios também é travada contra o corpo das mulheres.

Os megaprojetos extrativistas não saqueiam apenas montanhas, florestas e rios. Eles também aprofundam as violências contra as mulheres, fortalecem o patriarcado e transformam os territórios em cenários de expropriação. Esse foi o eixo da reflexão da pesquisadora e ativista Iracema Gavilán, que propôs compreender o extrativismo como uma guerra que avança tanto sobre a natureza quanto sobre a vida.

A partir de sua experiência no acompanhamento da defesa do território sagrado de Wirikuta, Gavilán explicou que o modelo extrativista do século XXI vai muito além da mineração: inclui megaprojetos de energia, agroindústria e tecnologia que, sob o discurso do desenvolvimento e da transição energética, continuam deslocando comunidades e mercantilizando a vida.

Iracema Gavilán sustentou que o patriarcado e o capitalismo fazem parte do mesmo sistema de dominação. Enquanto um explora a natureza, o outro atribui às mulheres a sobrecarga do trabalho de cuidado, intensifica as violências, a criminalização e os impactos sobre a saúde das pessoas que vivem nos territórios afetados.

No entanto, diante dessa realidade, destacou também as múltiplas formas de resistência construídas por mulheres defensoras dos territórios, que organizam comunidades, promovem instrumentos jurídicos e colocam o corpo como o primeiro território que deve ser cuidado para sustentar a luta. Ela afirma que a defesa do território começa pelo reconhecimento do corpo como o primeiro espaço de resistência, pois é nele que habita nosso espírito.

“Corpo–Terra–Território é o nosso primeiro espaço de luta.”

Recordando o Dia Mundial contra a Mineração, Iracema Gavilán convida à reflexão de que resistir significa cuidar da vida em todas as suas formas, construir alianças e seguir caminhando diante de um modelo que ameaça tanto a natureza quanto aqueles e aquelas que a defendem.

“A resposta não é nos resignarmos”, afirmou. “Não temos tempo para ficar parados, mas sim para continuar caminhando e avançando, cada um e cada uma a partir de suas possibilidades, para defender a vida e os territórios.”

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Dia 4 – Encontro “Guerra contra a Humanidade” (As populações e a natureza sob cerco)

Dia 4 do Semillero “Guerra contra la Humanidad”
(Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio)

23 de julho de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

Neste quarto dia do Semillero “Guerra contra a Humanidade” (As populações e a natureza sob cerco), o Capitão Marcos informou que, até o dia anterior, havia 686 participantes de 28 geografias, além de mais de 200 zapatistas.

Ao longo da jornada, foram compartilhadas reflexões profundas e contundentes sobre migração, as diversas formas da guerra, a busca por pessoas desaparecidas e as corporações criminosas, tudo isso inserido na luta pela vida e na construção de alternativas.

A seguir, apresentamos um resumo das exposições, bem como os áudios e os links para os textos completos.


Bruno Miranda – “Olhares críticos sobre as migrações e as fronteiras”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

As fronteiras não impedem a migração; elas produzem a ilegalidade.

Neste quarto dia do Semillero “Guerra contra a Humanidade”, o pesquisador Bruno Miranda propôs compreender o fenômeno migratório por outro ângulo: não foram as migrações que deram origem às fronteiras, mas sim as fronteiras e os Estados que produziram a figura do migrante. Nessa perspectiva, migrar deixa de ser um fato natural e passa a ser uma condição política construída pelo Estado e pelo capitalismo.

Durante sua apresentação “Olhares críticos sobre as migrações e as fronteiras”, Miranda propôs desnaturalizar tanto a migração quanto as fronteiras. Explicou que a mobilidade humana sempre existiu, mas a categoria de “migrante” surge com os Estados nacionais, capazes de definir quem pertence a um território e quem dele é excluído. Assim, as fronteiras não apenas delimitam países: elas classificam pessoas, autorizam determinadas mobilidades e criminalizam outras.

Segundo o pesquisador, as migrações foram fundamentais para a construção do capitalismo moderno. Cidades, ferrovias, agricultura e industrialização nas Américas foram erguidas pelo trabalho de milhões de migrantes. Entretanto, essa mesma força de trabalho indispensável à economia é posteriormente ilegalizada por políticas que transformam em “ilegais” pessoas antes aceitas quando o mercado precisava delas.

Nesse contexto, explicou que a chamada crise migratória funciona muitas vezes como um discurso político que justifica o endurecimento das políticas de controle. Sob essa lógica, fortalece-se a securitização das fronteiras: muros, vigilância militar, drones, sistemas biométricos e uma crescente cooperação entre instituições policiais e migratórias que tratam a mobilidade humana como ameaça à segurança nacional.

Miranda afirmou que essas políticas não buscam impedir totalmente a migração, mas administrá-la por meio de estratégias de dissuasão, obrigando as pessoas a percorrer rotas cada vez mais perigosas ou permanecer meses — e até anos — aguardando uma decisão migratória. Esse modelo também alimenta uma crescente indústria migratória, na qual centros privados de detenção obtêm lucros milionários com o encarceramento de migrantes.

Para quem consegue atravessar a fronteira, a violência não termina. Segundo Miranda, opera-se uma inclusão diferencial: os migrantes são incorporados ao mercado de trabalho porque sua mão de obra é necessária, mas continuam excluídos do pleno acesso a direitos e à cidadania. A fronteira deixa, assim, de ser apenas uma linha geográfica para tornar-se um mecanismo cotidiano de vigilância, medo e incerteza — o que ele definiu como internalização das fronteiras.

A isso somam-se práticas como o perfilamento racial, que considera suspeitas determinadas pessoas por sua aparência, e as deportações externalizadas, por meio das quais governos transferem migrantes para terceiros países, ampliando o controle migratório muito além de suas próprias fronteiras.

Longe de apresentar os migrantes apenas como vítimas, Bruno Miranda destacou que eles também constroem formas coletivas de resistência. As caravanas migrantes, afirmou, representam estratégias de cuidado mútuo, organização e defesa diante de uma ordem fronteiriça que busca administrar indivíduos, mas encontra na ação coletiva uma disputa permanente pelo direito de buscar uma vida digna.

Miranda nos convida, assim, a compreender a migração a partir de uma perspectiva crítica: reconhecer que, por trás de cada fronteira, existem decisões políticas, interesses econômicos e relações de poder que continuam determinando quem pode circular livremente e quem precisa arriscar a própria vida para fazê-lo. Mas também entender que a migração revela a resistência daqueles que insistem em buscar um lugar digno em um mundo marcado pelo despojo e pela exclusão.


David Barrios – “O fim das guerras e as lutas pelo futuro”

Texto completo aqui.

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As guerras de hoje buscam controlar a vida e os territórios.

David Barrios afirmou que a militarização já não responde apenas a conflitos entre Estados, mas constitui uma estratégia para reorganizar territórios, apropriar-se dos bens naturais e disciplinar as populações. Diante desse cenário, defendeu o fortalecimento da organização comunitária e da defesa da Mãe Terra.

Em sua apresentação “O fim das guerras e as lutas pelo futuro”, explicou que as guerras contemporâneas deixaram de ser apenas confrontos militares para tornar-se uma ofensiva permanente destinada a controlar territórios, garantir o acesso aos bens naturais e reorganizar a vida dos povos em benefício do capital.

Barrios destacou que a militarização atual ultrapassa o âmbito estritamente militar, manifestando-se por meio da expansão de bases, operações de segurança, políticas de controle territorial, criminalização de populações e fortalecimento dos mecanismos de vigilância, que acompanham os processos de despojo em diferentes regiões do mundo.

Segundo ele, as disputas geopolíticas entre grandes potências também refletem uma crescente competição por minerais estratégicos, água, energia e outros recursos essenciais tanto para o desenvolvimento tecnológico quanto para a indústria militar. Nesse contexto, os territórios habitados pelos povos tornam-se espaços permanentes de disputa.

O pesquisador advertiu ainda que a chamada “guerra às drogas” serviu, em diversos países da América Latina, como justificativa para aprofundar processos de militarização e controle social. Em sua avaliação, essas estratégias não reduziram a violência, mas favoreceram a fragmentação dos territórios e a expansão de grupos armados que disputam recursos, rotas comerciais e atividades econômicas muito além do tráfico de drogas.

Também chamou atenção para o crescimento contínuo dos gastos militares em escala global, o desenvolvimento de novas tecnologias de guerra — como inteligência artificial e drones — e a ampliação da presença militar dos Estados Unidos em diversas regiões do continente, fatores que apontam para conflitos cada vez mais prolongados e complexos.

Apesar desse panorama, Barrios rejeitou a ideia de que o futuro esteja condenado à guerra. Destacou que as resistências construídas por povos, comunidades e movimentos sociais continuam demonstrando que existem alternativas ao despojo e à militarização.

“A luta pela Mãe Terra é também a luta pelo futuro”, afirmou, defendendo o fortalecimento da organização coletiva, da autonomia e da defesa da vida como resposta a uma época marcada pela violência e pela disputa pelos territórios.


Andrea Horcasitas Martínez – “Diante do horror: a busca e a promessa do reencontro”

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A pesquisadora e ativista Andrea Horcasitas Martínez refletiu sobre o desaparecimento de pessoas no México como uma das expressões mais cruéis da guerra contra a humanidade. Agradeceu ao movimento zapatista por abrir um espaço de diálogo e destacou que sua análise nasce do aprendizado compartilhado com as famílias buscadoras. Sua exposição organizou-se em três eixos: o diagnóstico da crise, a disputa em torno dos números e a esperança construída pela busca coletiva.

Afirmou que o desaparecimento forçado não é um fenômeno novo nem exclusivo do México, mas que, desde o início da chamada guerra às drogas, o país atingiu níveis de violência sem precedentes na América Latina. Mais de 135 mil pessoas desaparecidas, milhares de valas clandestinas e dezenas de milhares de corpos sem identificação revelam uma crise que vai muito além das estatísticas.

Segundo a autora, o desaparecimento tornou-se uma tecnologia de guerra vinculada ao despojo territorial, ao deslocamento forçado, ao recrutamento compulsório e à acumulação de riqueza por meio da violência. As valas clandestinas transformaram a relação das comunidades com seus territórios, pois deixaram de existir apenas em locais remotos e passaram a aparecer também em cidades, escolas, parques e espaços cotidianos.

Na segunda parte de sua fala, denunciou o que chama de “guerra contra os números”: o esforço do Estado para minimizar a dimensão da tragédia por meio da manipulação estatística e de discursos que desumanizam as vítimas. Criticou a redução do problema a percentuais e categorias administrativas enquanto persistem a impunidade, a criminalização das pessoas desaparecidas e a ausência de investigações eficazes.

Por fim, contrapôs a essa política de esquecimento a resistência das famílias buscadoras. São mães, pais, irmãs, irmãos e filhos que, diante da ausência de respostas oficiais, organizam buscas, escavam a terra e constroem redes de solidariedade para encontrar seus entes queridos e todas as pessoas desaparecidas. A busca deixa de ser um ato individual e transforma-se em uma causa coletiva baseada na memória, na dignidade e na defesa da vida. Para Andrea Horcasitas, a esperança não consiste em negar o horror, mas na capacidade das famílias de transformar a dor em organização, solidariedade e resistência.


Raúl Romero – “Corporações criminosas e as lutas pela Vida”

Texto completo aqui.

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Em sua apresentação “Corporações criminosas e as lutas pela vida”, Raúl Romero argumentou que a violência vivida no México não pode ser compreendida apenas como um problema de narcotráfico ou de insegurança, mas como expressão de um capitalismo criminoso que utiliza a guerra, o despojo e a violência para favorecer processos de acumulação de riqueza.

A partir de sua experiência junto a organizações sociais, famílias buscadoras e vítimas da violência, afirmou que a guerra iniciada em 2006 fortaleceu as organizações criminosas em vez de enfraquecê-las, deixando como saldo mais de 135 mil pessoas desaparecidas, centenas de milhares de assassinatos e deslocamentos forçados.

Romero sustenta que o crime organizado integra uma estrutura transnacional formada por atores legais e ilegais — banqueiros, empresários, políticos, forças de segurança, fabricantes de armas e grupos criminosos. Essas redes, que denomina corporações criminosas, funcionam como empresas globais diversificadas, atuando no tráfico de pessoas, armas e recursos naturais, lavagem de dinheiro, crimes financeiros e cibernéticos, entre outras atividades.

O autor apresenta ainda o conceito de estatalidade criminosa, segundo o qual o Estado mexicano não fracassou, mas foi reconfigurado para responder às necessidades do capitalismo criminoso e do capitalismo extrativista. Nesse contexto, a fronteira entre o legal e o ilegal torna-se difusa quando instituições e governos colaboram com essas redes, garantindo impunidade e facilitando o despojo territorial associado aos megaprojetos. Para Romero, a militarização não representa uma solução; ao contrário, conviveu e alimentou a expansão do crime organizado.

Como contraponto, destacou as lutas pela vida, protagonizadas por povos indígenas e camponeses que defendem seus territórios, famílias buscadoras, organizações de direitos humanos, caravanas migrantes, coletivos juvenis e diversas iniciativas comunitárias que colocam a vida, a solidariedade e o bem comum no centro de sua ação política.

Segundo Romero, essas resistências representam uma alternativa ética e política ao capitalismo criminoso, apostando na organização coletiva, na memória, na arte, na cultura e na defesa dos territórios como caminhos para construir um mundo em que a vida prevaleça sobre a lógica do despojo, da acumulação e da morte.


Subcomandante Insurgente Moisés – Mensagem às famílias buscadoras

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

Falando em nome do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena do EZLN, o Subcomandante Insurgente Moisés dirigiu uma mensagem às famílias buscadoras, expressando a solidariedade zapatista e reconhecendo sua luta como exemplo de dignidade, resistência e esperança.

Afirmou que os zapatistas se identificam com sua experiência porque, como povos originários, também foram historicamente invisibilizados e excluídos pelo sistema capitalista. Por isso, consideram as pessoas desaparecidas parte de sua própria família e compartilham a dor de quem as procura.

Anunciou que o EZLN decidiu aproximar-se das famílias buscadoras, reunir-se com elas na Cidade do México e, sobretudo, escutá-las, reconhecendo o valor de sua experiência e de sua luta.

Enquanto persistirem os desaparecimentos, a violência e a injustiça, afirmou, o México continuará distante do país que desejam construir. Somente por meio da organização coletiva, da luta e do trabalho conjunto será possível construir um país verdadeiramente justo e digno.

Por fim, fez um chamado aos povos do campo e da cidade para que se unam e se organizem, lembrando que ninguém resolverá esses problemas em seu lugar. A responsabilidade de transformar o presente cabe à sociedade civil organizada; somente assim será possível deixar um futuro melhor para as próximas gerações.


Capitán Insurgente Marcos

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

Ao encerrar o quarto dia do Semillero, o Capitão Marcos agradeceu às pessoas participantes por suas contribuições e refletiu sobre o impacto das exposições no público zapatista. Longe de apenas confirmar conhecimentos prévios, afirmou que as apresentações revelaram aspectos da realidade que ele próprio desconhecia e que enriquecem a análise zapatista sobre a crise atual.

Destacou a importância de articular diferentes formas de conhecimento — a experiência das comunidades, o trabalho científico, a pesquisa e a prática política — compreendendo que todas podem conduzir a conclusões comuns por caminhos distintos.

Também agradeceu o esforço das e dos palestrantes, que custearam suas próprias viagens e compartilharam generosamente seus conhecimentos com um público formado por ouvintes zapatistas, militantes, integrantes de organizações da sociedade civil, ativistas, pessoas solidárias e muitos outros.

Segundo o Capitão, as intervenções realizadas até o momento constituem um verdadeiro semillero de ideias e aprendizagens para o zapatismo. Concluiu agradecendo tanto aos que já participaram quanto aos que ainda participariam, expressando o desejo de que o encontro fortaleça a reflexão coletiva e que os aprendizados adquiridos sejam levados aos lugares de origem de cada participante, contribuindo para a construção de novas formas de organização e resistência.

Fotos: Alberto Vidal para RZ

Fotos: Radio Pozol

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Radio Zapatista

Dia 3 do Encontro “Guerra contra a Humanidade”

Dia 3 do Encontro “Guerra contra a Humanidade”
(As populações e a natureza sob cerco)

22 de julho de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

No auditório lotado do Cideci / Universidad de la Tierra Chiapas, reuniram-se, em 22 de julho de 2026, 645 pessoas de 27 regiões do mundo, além de mais de 200 “escutas” zapatistas, para o terceiro dia do Semillero Guerra contra la Humanidad (Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio).

Nesse grande espaço de pensamento crítico, foram compartilhadas reflexões profundas sobre a fase atual do capitalismo, assim como sobre o genocídio do povo palestino, mas também sobre sua resistência e dignidade.

Compartilhamos aqui um resumo das conferências, bem como os áudios e os links para os textos completos, que consideramos fundamentais para compreender o nosso mundo e, assim, construir coletivamente alternativas reais diante do desastre que nos assola.


Carlos Alberto Ríos Gordillo – “Rastrear a hidra de muitas cabeças. Pistas para uma contra-história rebelde”

Texto da fala completa aqui.

(Baixe o áudio aqui)

O historiador Carlos Alberto Ríos compartilha uma reflexão sobre o pensamento crítico diante da hidra capitalista, representada como uma “hidra de muitas cabeças”, que pode ser compreendida e enfrentada quando aprendemos a ler seus rastros, identificar suas transformações e reconhecer a forma como reproduz a exploração, o despojo, a repressão e a devastação da natureza.

Ríos retoma o seminário “O pensamento crítico diante da hidra capitalista”, realizado há mais de uma década, no qual o Exército Zapatista de Libertação Nacional comparou o capitalismo à hidra da mitologia: um monstro que se fortalece sempre que é atacado. No entanto, afirma que ele não é invencível, e que sua principal fraqueza pode ser descoberta por meio do pensamento crítico e da organização coletiva.

O historiador recorda um dos relatos da sabedoria do Velho Antônio, no conto “Os riachos quando descem”, que simboliza aqueles que “leem os rastros”: pessoas que não apenas observam os sinais, mas identificam o perigo na montanha, se escondem, antecipam-se e se preparam para o ataque. Mas, enfatiza, não basta identificar o adversário; é preciso compreender como ele reescreve a história para justificar a dominação e ocultar as causas profundas da desigualdade.

Segundo Ríos, é fundamental narrar a história a partir da perspectiva dos povos que resistem, e não da versão dos vencedores. Cada rastro do capitalismo — massacres, desaparecimentos, espoliações, crises ambientais ou megaprojetos — revela a lógica da acumulação de capital por trás dos conflitos contemporâneos.

O historiador reivindica a experiência da autonomia zapatista e a forma como os zapatistas aprenderam a ler o mundo, narrar sua história e revelar aquilo que se encontra ao redor dos rastros. A partir deles, sabem quem é o inimigo, de onde veio, como mudou, para onde vai e como enfrentá-lo.

Ríos interpreta as treze reivindicações históricas do EZLN — terra, moradia, trabalho, alimentação, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça, paz, informação e cultura — como uma alternativa concreta ao modelo capitalista. São, afirma, “palavras mágicas”, pois permitem imaginar um mundo voltado para a vida. Não são apenas definições de dicionário; como ensina “A história das palavras”, do Velho Antônio, elas precisam carregar coração.

Essas demandas tornam-se práticas cotidianas nas comunidades autônomas, onde a organização, o autogoverno e o princípio de “mandar obedecendo” demonstram que outras formas de vida são possíveis.

Ao mesmo tempo, alerta que o capitalismo não combate apenas militarmente as experiências rebeldes, mas também procura apropriar-se de seus aprendizados por meio de estratégias contrainsurgentes, programas assistencialistas e mecanismos de cooptação. Por isso, insiste: ler os rastros do inimigo não basta; a verdadeira defesa está na organização comunitária e na construção permanente de alternativas.

Conclui afirmando que “rastrear” não é apenas um método de interpretação da história, mas uma ferramenta política para desmascarar o poder e revelar possibilidades de transformação onde o sistema insiste em afirmar que não há alternativas. Nessa perspectiva, a contra-história zapatista convida a narrar o mundo “desde baixo e à esquerda”, reconhecendo na resistência cotidiana dos povos o lugar onde ainda é possível semear esperança diante da crise global.


Mateo Crossa Niell: Os novos rostos da exploração na guerra do capital contra a classe trabalhadora

Texto da fala completa aqui.

(Baixe o áudio aqui)

O pesquisador e doutor em Estudos Latino-Americanos pela UNAM, Mateo Crossa Niell, afirmou que o capitalismo atravessa uma nova etapa marcada pela acelerada concentração da riqueza e pela aliança entre o capital financeiro e as grandes corporações tecnológicas, processo que transforma as formas de exploração do trabalho e o papel dos Estados.

Durante sua conferência no Cideci/UniTierra Chiapas, explicou que, após a pandemia de COVID-19, a concentração do capital aumentou em velocidade sem precedentes. Destacou que o centro do poder econômico já não está apenas nos grandes empresários, mas em gestoras globais de ativos como BlackRock, Vanguard e State Street, cuja influência se estende a milhares de empresas estratégicas, incluindo as principais companhias de tecnologia.

Crossa afirmou que essa convergência entre finanças e tecnologia permite concentrar o controle sobre plataformas digitais, infraestrutura computacional e inteligência artificial. Segundo ele, essas ferramentas não estão voltadas para libertar o trabalho humano, mas para intensificar a exploração, fortalecer monopólios e ampliar os mecanismos de vigilância e controle.

Também argumentou que o ressurgimento dos discursos nacionalistas responde à necessidade do capital de voltar a utilizar o Estado-nação como instrumento para reorganizar a competição global, legitimar processos de militarização e proteger os interesses econômicos dominantes.

Na segunda parte da exposição, abordou as novas formas de exploração do trabalho. Contestou a ideia de que a inteligência artificial substituirá massivamente os trabalhadores e sustentou que, ao contrário, ela amplia e reorganiza a exploração do trabalho humano. Afirmou que a classe trabalhadora atual inclui não apenas operários industriais, mas também empregados do setor de serviços, entregadores por aplicativo, trabalhadores de plataformas digitais, desenvolvedores de software, profissionais da logística, migrantes e pessoas que realizam tarefas invisíveis para treinar sistemas de inteligência artificial.

Retomando o conceito de “infoproletariado”, explicou que milhões de pessoas trabalham sob vigilância permanente, ritmos intensificados e crescente precarização. Criticou os modelos de contratação por plataformas, que mantêm os trabalhadores disponíveis sem garantir renda mínima e excluem o tempo de espera da jornada de trabalho, transferindo os riscos empresariais para quem trabalha.

Destacou ainda a existência dos chamados ghost workers (“trabalhadores fantasmas”), pessoas que, de suas casas, rotulam imagens, textos e dados para treinar algoritmos, geralmente por meio de subcontratações internacionais, recebendo baixos salários e utilizando seus próprios recursos. Para ele, a inteligência artificial não elimina o trabalho humano, mas o torna invisível.

Como conclusão, Crossa Niell afirmou que a classe trabalhadora do século XXI é mais ampla, diversa e dispersa do que nunca, mas continua sendo a base do funcionamento do capitalismo. Diante das novas formas de exploração, defendeu o reconhecimento dessa nova composição do trabalho e o fortalecimento da organização coletiva como resposta aos desafios do capitalismo contemporâneo.


Subcomandante Insurgente Moisés

Texto completo aqui.

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O Subcomandante Insurgente Moisés afirmou que o problema central do capitalismo é a propriedade privada, origem da exploração, da desigualdade, da injustiça e da destruição da vida. Explicou que os zapatistas escutam atentamente as análises apresentadas no encontro para confirmar, a partir de diferentes realidades do mundo, que o sistema capitalista concentra cada vez mais o poder econômico, político e militar nas mãos de poucos proprietários.

Diante disso, afirmou que a principal pergunta já não é como funciona o sistema, mas o que fazer para transformá-lo. A resposta construída pelas comunidades zapatistas é o comum, uma forma coletiva de organizar a vida inspirada nas experiências de seus antepassados, que enfrentaram a exploração organizando-se comunitariamente.

Explicou que o comum não significa retirar os bens individuais, mas produzir coletivamente aquilo que beneficiará a todos: a terra, a saúde, a educação, o conhecimento e os frutos do trabalho. Insistiu que esse modelo nasce da prática, do aprendizado constante e da organização.

Também ressaltou que a transformação exige a participação de todas as gerações: os mais velhos contribuem com sua experiência e os mais jovens garantem a continuidade da luta. Defendeu ainda que a organização deve surgir em todos os espaços onde exista exploração — no campo, na cidade, nas escolas, nos hospitais, nas fábricas e entre os povos originários — fortalecendo-se sobretudo pela prática.

Criticou as políticas da chamada Quarta Transformação, considerando que aprofundaram a fragmentação das comunidades e favoreceram novas formas de espoliação. Por fim, advertiu que o capitalismo acelera a destruição da natureza e afirmou que ninguém libertará os povos se eles próprios não se organizarem. Concluiu que o capitalismo é um sistema desumano, cruel e criminoso, impossível de ser humanizado, defendendo a construção de alternativas coletivas desde baixo e em comum.


Capitão Insurgente Marcos – O amor e o desamor segundo o Exército Zapatista de Liberação Nacional

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

Para o EZLN, explicou poeticamente o Capitão Insurgente Marcos, o amor e o desamor são princípios éticos e políticos. O amor, afirmou, é uma semente que exige cuidado, perseverança e compromisso constante para florescer. O verdadeiro amor não busca a semelhança, mas nasce do reconhecimento e do respeito às diferenças, preservando um caminho comum sem que cada pessoa ou coletivo renuncie à sua própria identidade. Para o zapatismo, amar significa fazer com que aqueles que caminham juntos sejam sempre melhores, tanto individual quanto coletivamente.

Em contraste, o desamor está relacionado ao esquecimento, ao oportunismo, ao interesse passageiro e ao uso das pessoas ou das lutas para obter benefícios próprios. O EZLN distingue, assim, aqueles que permaneceram solidários ao longo do tempo daqueles que se aproximaram apenas por conveniência ou por modismo.

O EZLN também reconhece e agradece a todos que acompanham a luta zapatista há décadas: comunidades religiosas comprometidas, defensoras e defensores de direitos humanos, artistas, intelectuais, organizações sociais, jovens, pessoas mais velhas — ou “de juízo” — e movimentos do México e do mundo que compartilharam essa resistência sem deixar de ser quem são. Destaca, de maneira especial, as mães buscadoras, cuja luta representa um exemplo de dignidade e resistência.

Por fim, o EZLN estende esse amor solidário a todas as lutas históricas contra a opressão e, em particular, à Palestina, símbolo contemporâneo que concentra as contradições, as violências e as resistências diante do capitalismo, e cuja causa permanece como uma expressão viva da luta pela vida e pela dignidade.


Micaela Gramajo – “Proyecto Olivo”

Texto completo aquí.

(Descarga el audio aquí)

Micaela Gramajo apresentou uma reflexão sobre a história da Palestina, o sionismo e o papel da arte como ferramenta de memória, denúncia e solidariedade. Iniciou sua exposição com um percurso histórico que situou a Palestina como um território habitado, com vida política, social e cultural própria antes da criação do Estado de Israel. Explicou que a Declaração Balfour (1917), a imigração sionista promovida durante o mandato britânico, a Nakba de 1948, a ocupação de 1967 e o bloqueio de Gaza consolidaram um processo de colonização, expropriação e apartheid que, segundo ela, culmina no atual genocídio.

A autora definiu o sionismo como uma ideologia política colonial e ressaltou que ele não deve ser confundido com o judaísmo. Lembrou a existência de correntes históricas de judeus antissionistas, como o Bund, e criticou o uso da acusação de antissemitismo para desqualificar críticas ao Estado de Israel. A partir de sua própria história familiar — marcada pelo Holocausto e pelo exílio durante a ditadura argentina — relatou como chegou ao antissionismo e sua participação no coletivo Judíes por una Palestina Libre, que defende o fim do genocídio, o direito de retorno do povo palestino e a articulação das lutas por justiça.

Na segunda parte de sua intervenção, apresentou o processo de criação da obra Projeto Oliveira, uma peça teatral desenvolvida em conjunto com duas meninas mexicanas e o palestino Omar, cuja história familiar permitiu narrar a história da Palestina desde 1948 até os dias atuais. Destacou que a obra privilegia o testemunho e a presença das próprias crianças em cena, em vez da representação teatral tradicional, transformando o palco em um espaço de encontro, aprendizado e solidariedade.

Por fim, Gramajo refletiu sobre o adultocentrismo e propôs reconhecer crianças e jovens como sujeitos políticos, capazes de participar, decidir e transformar sua realidade. Defendeu a construção de formas de protagonismo compartilhado entre gerações e concluiu lembrando o impacto devastador da guerra sobre a infância palestina, reafirmando a necessidade de ouvir suas vozes e manter viva a solidariedade com a Palestina.


Ivan Prado – Palestina, palavra semente de esperança, raiz da humanidade

Texto completo aqui.

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Em uma emocionante intervenção, Iván Prado compartilhou uma reflexão política e pessoal sobre a Palestina a partir de sua experiência como integrante do Pallasos en Rebeldía, organização com a qual atua há mais de duas décadas em territórios palestinos. Por meio de relatos vividos em Gaza e na Cisjordânia, mostrou como a arte — especialmente o circo e o teatro — se transforma em uma forma de resistência diante da ocupação. Destacou a dignidade, a solidariedade e a capacidade de esperança do povo palestino, simbolizadas na história de um palhaço que continuou levando alegria aos pacientes de um hospital durante um apagão provocado pela falta de combustível. Para Prado, essas experiências demonstram que a vida e a solidariedade são mais fortes do que a destruição.

Prado sustenta que Israel constitui um projeto militar e colonial baseado na ocupação, no despojo e na destruição sistemática do território palestino, que define como uma forma de “necrocolonialismo”. Segundo ele, essa lógica busca não apenas controlar a terra, mas também apagar a memória, a cultura e as condições de vida do povo palestino. Ao mesmo tempo, afirma que o Estado israelense exerce forte influência internacional nos campos político, midiático e tecnológico.

Diante desse cenário, defende o fortalecimento da solidariedade internacional por meio de iniciativas como o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) e enfatiza a importância de distinguir entre judaísmo e sionismo, reconhecendo a existência de comunidades e movimentos judaicos antissionistas que rejeitam as políticas do Estado de Israel.

Prado conclui que a Palestina tornou-se um símbolo universal de resistência e esperança. Sua luta ultrapassa as fronteiras geográficas e representa a defesa da dignidade humana diante da injustiça. Hoje, afirma, a Palestina é uma “palavra-semente” que inspira a solidariedade internacional e a construção de um mundo mais justo, no qual a resistência e a vida prevaleçam sobre a violência e a opressão.

Fotos: Radio Pozol

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Radio Zapatista

Dia 2 do Encontro “Guerra contra a Humanidad”

Día 2 do Encontro “Guerra contra a Humanidade”
(As populalçoes e a natureza sob cerco)

21 de julho de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

O segundo dia do Seminário “Guerra contra a Humanidade” reuniu as reflexões da jornalista independente e professora do ITESO Alejandra Guillén González, com a apresentação “Desaparecimento e recrutamento forçado para a acumulação de capital. Fissuras de resistência diante da nova dominação”; do historiador e pesquisador Ilán Semo, que falou sobre “A queda da antiga ordem e as novas formas da guerra”; do etnólogo Mauricio González González, com a conferência “A guerra por outros meios: fracking em territórios insubmissos”; e do cientista político e mestre em meio ambiente Pablo Montaño, que apresentou a palestra “A palavra esperança diante da Guerra contra a Natureza”. O Capitão Insurgente Marcos leu o conto “O amor e o desamor segundo Sombra, o guerreiro” e, ao final do dia, dirigiu algumas perguntas aos dois últimos palestrantes.

São reflexões a partir de diferentes perspectivas que ajudam não apenas a compreender algumas das diversas formas pelas quais o Estado capitalista em geral — e o mexicano em particular — devasta territórios e sociedades, mas também a vislumbrar a esperança nas múltiplas formas de resistência e de construção de outras realidades desde baixo.

Apresentamos aqui um resumo das conferências e disponibilizamos aos leitores os áudios originais e suas transcrições completas.


Alejandra Guillén – “Desaparecimento e recrutamento forçado para a acumulação de capital. Fissuras de resistência diante da nova dominação”

Texto da fala completa aqui.

(Baixe o áudio aqui)

Alejandra Guillén analisou como os desaparecimentos e o recrutamento forçado fazem parte de uma estratégia de acumulação de capital ligada à expansão de corporações criminosas, em conluio com interesses econômicos e estatais. A partir do caso de Jorge, desaparecido em 2012 no estado de Jalisco, ela sustenta que, desde aqueles anos, começou a se consolidar um modelo de escravidão e recrutamento destinado à formação de exércitos para controlar territórios, proteger negócios legais e ilegais e facilitar a expropriação de recursos naturais.

A autora explica que essa violência não pode ser compreendida de forma isolada. O desaparecimento de pessoas, o deslocamento forçado, a devastação ambiental e o saque de florestas, minas e terras obedecem à mesma lógica. Em regiões como Jalisco, Michoacán e a Serra Madre Ocidental, a destruição de comunidades camponesas e indígenas foi acompanhada pelo avanço de megaprojetos, monoculturas e economias criminosas. O objetivo é esvaziar os territórios para exercer controle total sobre eles.

Guillén descreve o funcionamento do recrutamento forçado: por meio de enganos, falsas ofertas de emprego, detenções arbitrárias ou ameaças, milhares de jovens são levados para centros de treinamento, onde são submetidos a extrema violência para serem transformados em integrantes de grupos armados. Os que sobrevivem são enviados para diferentes estados, onde continuam as disputas territoriais. Essa engrenagem exige transformar as vítimas em algozes para garantir o domínio e a expansão do negócio criminoso.

Ela também destacou o papel fundamental das mães que buscam seus familiares desaparecidos, responsáveis por revelar a dimensão do fenômeno, documentar centros de recrutamento e obrigar o país a encarar uma realidade que permaneceu oculta durante anos. Graças ao trabalho dessas mulheres, tornaram-se conhecidos testemunhos e evidências que ajudam a compreender melhor a estrutura dessas redes.

Diante desse cenário, Guillén identifica espaços de resistência. Destaca comunidades como Ostula, Cherán e diversos povos wixaritari, onde a organização comunitária, a defesa do território, a vida espiritual e a relação com a natureza dificultaram o avanço dessas formas de dominação. Ela recupera ainda as vozes de professores e moradores indígenas que afirmam que a proteção do território e a relação com a Mãe Terra são inseparáveis do cuidado com a vida e com as novas gerações.

Guillén conclui que o desaparecimento de pessoas, a guerra contra as comunidades e a devastação ambiental fazem parte de um mesmo processo de espoliação. Diante disso, afirma que os ensinamentos das mães buscadoras e dos povos organizados mostram que ainda existem fissuras de resistência. O desafio é impedir que continuem o recrutamento e o desaparecimento de mais pessoas, fortalecer a defesa comunitária do território e evitar que a violência tenha a última palavra.


Ilán Semo – “A queda da antiga ordem e as novas formas da guerra”

Texto completo da fala aqui.

(Baixe o áudio aqui)

O historiador Ilán Semo iniciou sua fala celebrando a próxima chegada dos zapatistas à Cidade do México, em dezembro deste ano, mas observou que a capital perdeu grande parte de sua tradição de organização social e participação política. Descreveu uma cidade marcada pelo isolamento, pelo uso excessivo das telas, pela predominância do automóvel e pelo medo decorrente da violência, elementos que considera parte de uma estratégia de controle social.

Para desenvolver seu argumento, recorreu a uma antiga lenda persa na qual um pretendente escolhe um brasão de cobre em vez de ouro ou prata, porque ele representa o pertencimento a uma comunidade e a um território. A partir dessa história, explicou as ideias de Pufendorf e Clausewitz sobre a guerra: o objetivo principal não é apenas conquistar territórios, mas destruir o sentido de comunidade do adversário para, posteriormente, impor uma nova ordem ou hegemonia. Relacionou essa interpretação a diversos processos históricos, como a conquista da América, a Independência do México, o colonialismo europeu e as duas guerras mundiais.

Semo sustenta que as guerras contemporâneas mudaram profundamente. Já não buscam apenas derrotar militarmente o inimigo, mas fragmentar as sociedades mediante a destruição de seus vínculos comunitários. Como exemplos, menciona conflitos recentes na Palestina, Síria, Líbia e Ucrânia, onde predominam ataques aéreos, uso de drones, vigilância digital e a chamada “guerra cognitiva”, cujo objetivo é semear dúvidas, desinformação e desconfiança entre a população. Destaca também a importância da disputa pelas narrativas, pois quem controla o relato pode influenciar a percepção da realidade e fortalecer seu poder.

No âmbito internacional, interpreta conflitos como o do Irã a partir de uma perspectiva geopolítica e econômica, argumentando que estão ligados à defesa da hegemonia do dólar e ao surgimento de novos equilíbrios econômicos na Ásia. Também alerta para o crescente risco de um confronto entre grandes potências e para a possibilidade de uma escalada nuclear.

Por fim, aplica essa análise ao caso mexicano. Afirma que o narcotráfico tem sido utilizado como técnica de governo que gera medo, limita a vida comunitária e facilita o avanço de interesses econômicos e políticos. Concluiu ampliando sua reflexão para a crise ambiental e os maus-tratos aos animais, assinalando que a destruição da natureza e dos ecossistemas implica também a destruição das comunidades humanas. Por isso, defende a proteção do território, da vida e de todas as espécies como elementos indispensáveis para construir um futuro comum.


Capitán Insurgente Marcos – “O amor e o desamor segundo Sombra, o guerreiro”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

O Capitão Insurgente Marcos leu o conto “O amor e o desamor segundo Sombra, o guerreiro”, que, segundo explicou, é dirigido aos 200 ouvintes zapatistas sentados ao fundo do auditório, bem como a todas as bases de apoio que acompanhavam a transmissão nos diferentes caracóis.

Com humor, o conto reflete sobre a figura do guerreiro a partir da cosmovisão maia e zapatista. Por meio de um diálogo com um personagem que vive “entre as sombras”, recupera um ensinamento do Popol Vuh: os primeiros seres humanos eram capazes de compreender simultaneamente o todo e as partes, capacidade que os deuses limitaram, mas cuja lembrança permanece fragmentada na memória dos povos.

Segundo o narrador, as comunidades maias não foram derrotadas apenas pelos conquistadores, mas também pela divisão, pela inveja e pela adoção dos valores do opressor, como a ambição, a competição e o individualismo. Diante disso, a principal tarefa do guerreiro é reconstruir a memória coletiva, buscar os conhecimentos dispersos, aprender com outros povos e fortalecer o sentido de comunidade sem perder a própria identidade.

A terra, a água, a natureza e a memória não são mercadorias nem propriedade de ninguém, mas bens comuns que devem ser protegidos. Por isso, o verdadeiro inimigo não é uma pessoa em particular, mas o sistema que transforma a vida em objeto de exploração e destrói culturas, territórios e povos.

O guerreiro não se distingue pela força física, mas pela capacidade de estudar, questionar, aprender e olhar além do presente. Deve compreender tanto o passado quanto o futuro, reconhecer que precisa dos outros e construir alianças com aqueles que também lutam pela vida e pela justiça. Sua missão não é conquistar nem dominar, mas defender a liberdade, a dignidade e a Mãe Terra.

O conto conclui afirmando que o guerreiro é aquele capaz de imaginar um mundo que ainda não existe e trabalhar coletivamente para torná-lo realidade. A essa capacidade de sonhar um futuro diferente, os povos zapatistas chamam de lutar.


Mauricio González González – “A guerra por outros meios: fracking em territórios insubmissos”

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Mauricio González iniciou recordando sua participação na apresentação do relatório sobre os impactos psicossociais do caso Ayotzinapa e expressou sua indignação diante da recente recomendação da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, que, segundo ele, revitimiza as famílias e inocenta o Exército.

A partir disso, introduziu o tema central de sua exposição: o fracking como forma de guerra contra os territórios e as comunidades. Explicou que o fracking, ou fraturamento hidráulico, é uma técnica de extração de gás e petróleo por meio de perfurações profundas e da injeção de grandes volumes de água, areia e substâncias químicas. Com base em pesquisas científicas e testemunhos reunidos ao longo de mais de quinze anos, afirma que essa prática provoca contaminação da água e do ar, perda de biodiversidade, danos à agricultura, impactos sobre a saúde, conflitos sociais e deterioração dos modos de vida dos povos indígenas.

O impulso ao fracking responde ao esgotamento das jazidas convencionais de hidrocarbonetos e à dependência energética do México em relação ao gás importado dos Estados Unidos. Apesar das promessas de proibir essa técnica, o governo promove o chamado “fracking sustentável”. González advertiu que sua expansão coloca em risco milhões de pessoas, comunidades indígenas, ejidos e territórios já marcados por graves problemas de disponibilidade de água, enquanto os benefícios energéticos seriam limitados e de curta duração.

Diante desse cenário, destacou a resistência organizada de comunidades, assembleias e organizações que se declararam livres do fracking e promoveram ações judiciais para impedir sua expansão. Ressaltou que esses povos não apenas defendem seus territórios, mas também preservam formas de produção e de cuidado com a natureza que geram biodiversidade e fortalecem a vida comunitária.

González concluiu argumentando que o modelo energético baseado nos combustíveis fósseis é inseparável do capitalismo e da exploração dos territórios. Em vez de uma simples transição energética, propõe uma transformação socioenergética baseada em relações comunitárias, antipatriarcais, anticapitalistas e respeitosas da natureza. O zapatismo, afirmou, é uma fonte de inspiração para imaginar e construir alternativas que defendam a vida e os territórios.


Pablo Montaño – “A palavra esperança diante da Guerra contra a Natureza”

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Pablo Montaño discutiu a guerra contra a natureza como consequência do modelo capitalista baseado na extração de recursos e no uso de combustíveis fósseis. O caso das escolas de Paraíso, no estado de Tabasco, localizadas ao lado da refinaria de Dos Bocas, demonstra como o chamado “desenvolvimento” afeta diretamente a saúde, o meio ambiente e a vida cotidiana das comunidades.

Montaño explicou que a mudança climática representa a expressão mais grave dessa crise. O aumento da temperatura global, provocado pelas emissões de dióxido de carbono, já produz fenômenos como secas, incêndios, furacões e inundações, além de acelerar uma sexta extinção em massa de espécies. Segundo ele, as grandes empresas petrolíferas conheciam esses riscos desde a década de 1970, mas ocultaram as informações e promoveram campanhas de desinformação para proteger seus interesses.

Um elemento central de sua reflexão é a batalha pelas narrativas. Empresas e governos impuseram conceitos como “gás natural”, “progresso” ou “desenvolvimento” para justificar projetos extrativistas, semeando dúvidas sobre seus impactos ambientais. Diante disso, considera necessário construir novas narrativas que fortaleçam a organização social e permitam imaginar alternativas ao modelo atual.

A esperança, afirmou Montaño, não vem dos governos nem das grandes corporações, mas das comunidades organizadas que defendem seus territórios. Compartilhou exemplos de resistências bem-sucedidas, como a oposição à instalação de plantas industriais, portos e megaprojetos, bem como a defesa de rios e ecossistemas, onde a comunicação, a solidariedade e a participação de coletivos urbanos fortaleceram as lutas locais.

Por fim, concluiu que a esperança não consiste em ignorar a gravidade da crise, mas em reconhecer que já existem experiências que demonstram ser possível deter a espoliação e proteger a vida. A defesa do território nasce do vínculo com os lugares que habitamos e da organização coletiva para construir futuros mais justos e sustentáveis.


Capitan Marcos – Perguntas aos palestrantes

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Por fim, o Capitão Marcos dirigiu aos palestrantes — e, de passagem, a todos nós — uma pergunta provocadora, irônica e bem-humorada, mas nem por isso menos séria:

Se vocês mesmos me dizem que é na comunidade que estão a salvação, a esperança, a possível saída deste pesadelo, então, com toda fraternidade, que diabos vocês estão fazendo?

Fotos: Radio Pozol

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Radio Zapatista

Dia 1: Encontro “Guerra contra a Humanidade”

“Um crime nos convoca”, disse o Capitão Insurgente Marcos na inauguração do Encontro “Guerra contra a Humanidade” (As populações e a natureza sob cerco), neste 20 de julho de 2026, no Cideci/Universidade da Terra, em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas

(Baixe o áudio aqui)

um crime transbordando sangue, lama e merda; uma história que começa com a injustiça entronizada, a dor democratizada, a destruição que gera riqueza, prosperidade e desenvolvimento, a morte como programa de governo e símbolo do progresso: quanto mais mortes, mais modernidade em uma civilização. Um crime nos convoca, o crime por excelência, o crime transformado em sistema; um crime tão transparente que a luz não o atravessa, mas o transforma em espelho, em um prisma que se desfaz em cores agradáveis, desejáveis, atraentes, da moda, enfim; um crime tão popular que acumula trilhões de curtidas de suas próprias vítimas sacrificiais e, ainda assim, permanece insatisfeito.

O criminoso — o Estado capitalista — concentra-se agora em reprimir ou exterminar “os que sobram”, não apenas porque não são lucrativos, mas sobretudo porque representam o outro, o que não é homogêneo e, portanto, com sua diferença, desafiam o sistema.

Este encontro — um semillero (viveiro) de pensamento crítico — surge da necessidade urgente de refletir para compreender melhor o criminoso. Ao longo de cinco dias, pensadoras e pensadores refletirão sobre a configuração atual do Estado capitalista, tanto no México quanto no mundo; a devastação ecológica; a privatização de bens comuns, como a água; o fraturamento hidráulico (fracking); o ser humano como vítima, mas também como desafio ao sistema; a história como ferramenta de opressão e as histórias dos de baixo como arma de luta; o horror vivido na Palestina e a dignidade da resistência; as famílias que buscam pessoas desaparecidas; a reorganização urbana; a luta das mulheres; e o terror da extrema direita.


Gilberto López y Rivas – “Terrorismo global de Estado, militarização e recolonização dos territórios”

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Segundo a análise de López y Rivas, o capitalismo contemporâneo atravessa uma nova etapa caracterizada pelo aprofundamento da violência, da militarização e da recolonização dos territórios. Diferentemente de fases anteriores, nas quais o sistema mantinha certos mecanismos de mediação social, hoje predominam a coerção, a guerra, a criminalização dos protestos e o desmonte dos direitos conquistados pela classe trabalhadora.

O capitalismo atual conduz, assim, a uma crise civilizatória que se manifesta naquilo que os zapatistas chamam de “a tempestade”: mudança climática, esgotamento dos recursos naturais, destruição da biodiversidade, pobreza, migrações forçadas, guerras e aumento de diversas formas de violência.

O terrorismo global de Estado, liderado principalmente pelos Estados Unidos e respaldado por outras potências e organismos internacionais, constitui um instrumento fundamental para impor essa nova fase de acumulação capitalista por meio de intervenções militares, ocupações territoriais e da violação sistemática do direito internacional. “Os Estados Unidos, como potência hegemônica, instauraram a barbárie como um processo devastador para a humanidade e para a natureza”, afirmou López y Rivas.

No caso do México, os governos da chamada “Quarta Transformação” (4T) deram continuidade a processos iniciados durante o período neoliberal. A expansão dos megaprojetos, o fortalecimento do papel das Forças Armadas e a crescente participação do crime organizado configuram uma estratégia de militarização e controle territorial que afeta especialmente comunidades indígenas, camponesas e movimentos sociais. Sob o governo da 4T, o país foi militarizado como nunca antes em sua história. “A instituição militar realiza atualmente mais de 200 funções (…) que não estão previstas na Constituição nem em suas leis regulamentares”, afirma López y Rivas. Ao mesmo tempo, ao paramilitarismo — instrumento encoberto do Estado para assediar, deslocar e enfraquecer organizações populares sem assumir publicamente a responsabilidade pela violência, historicamente utilizado como mecanismo de contrainsurgência — soma-se agora o narcoparamilitarismo.

Diante desse cenário, os povos maias zapatistas, o EZLN, o Congresso Nacional Indígena e os diversos coletivos e organizações que lutam pela vida constituem uma alternativa real. Uma alternativa que não passa pela disputa do poder estatal, mas pela organização desde baixo, pela autonomia, pelo autogoverno, pelo princípio de “mandar obedecendo” e pela construção cotidiana de formas comunitárias de democracia.

López y Rivas concluiu convocando a academia, os artistas, os meios de comunicação, o magistério, os estudantes e todos os setores comprometidos com o pensamento crítico a acompanhar as lutas dos povos. Diante da crise do capitalismo e das múltiplas formas de violência contemporânea, torna-se indispensável fortalecer a organização coletiva, desenvolver um pensamento crítico capaz de compreender as transformações do mundo e manter viva a construção de alternativas voltadas para a defesa da vida, da justiça e da dignidade.


Alicia Castellanos – “Racismo y violencia contra los pueblos”

(Baixe o áudio aqui)

Alicia Castellanos apresentou uma reflexão crítica sobre a relação entre racismo, violência e as formas contemporâneas de dominação que afetam povos e comunidades em diferentes regiões do mundo. Sua reflexão parte da ideia de que vivemos uma etapa de crise civilizatória marcada por uma profunda desigualdade, pela degradação ambiental e pela expansão de diversas formas de violência vinculadas ao capitalismo contemporâneo.

O racismo, explica Castellanos, é uma construção histórica que surgiu e se consolidou durante a expansão colonial europeia. Desde o século XVIII, a ideia de “raça” foi utilizada para estabelecer hierarquias entre os povos e justificar processos de dominação, exploração e espoliação. Embora hoje o conceito racial costume aparecer de maneira menos explícita, seus mecanismos persistem por meio de novas formas de exclusão baseadas em diferenças culturais, nacionais, religiosas, econômicas ou políticas.

Para Castellanos, o racismo funciona como uma ferramenta de poder que permite construir o “outro” como uma ameaça: um inimigo que deve ser controlado, expulso ou eliminado. Essa lógica esteve presente em diferentes processos históricos de colonialismo, genocídio, guerras e perseguições contra povos considerados inferiores ou perigosos.

Essa função do racismo também se aplica aos conflitos contemporâneos, especialmente ao genocídio do povo palestino, às políticas migratórias dirigidas contra comunidades estrangeiras e ao crescimento de discursos nacionalistas e autoritários que transformam determinados grupos sociais em bodes expiatórios durante períodos de crise. A normalização do ódio por parte das instituições e dos governos, adverte, abre caminho para formas extremas de violência.

Castellanos lembra que o escritor libanês Amin Maalouf propõe a ideia de “identidades assassinas”: “aquelas que reduzem a identidade de uma pessoa ou de um povo a uma única pertença”, servindo de fundamento para a violência contra os “outros” e para processos genocidas contemporâneos, como os ocorridos na Guatemala e, agora, na Palestina.

No caso do México, os megaprojetos de desenvolvimento — especialmente o “Trem Maia” — constituem exemplos paradigmáticos do racismo dirigido contra os povos originários. Esses projetos implicaram processos de transformação territorial, impactos ambientais, perda de biodiversidade, pressão sobre comunidades indígenas e uma crescente participação das Forças Armadas em atividades civis e econômicas. Nesse contexto, a militarização do território modifica as relações comunitárias e afeta os direitos coletivos dos povos.

Para os povos maias, a terra não representa apenas um recurso econômico, mas um espaço de memória, identidade, cultura e reprodução da vida. A destruição de ecossistemas, cenotes, florestas e formas tradicionais de organização comunitária constitui, assim, uma ameaça não apenas ambiental, mas também cultural.

A resistência e a organização desde baixo — especialmente aquelas impulsionadas pelos povos zapatistas e pelo Congresso Nacional Indígena — constituem uma resposta a esse cenário: formas alternativas de exercer o poder baseadas na autonomia, na participação comunitária e no princípio de “mandar obedecendo”.

Assim como López y Rivas, Castellanos conclamou ao fortalecimento do pensamento crítico como ferramenta para compreender as transformações do mundo atual e imaginar alternativas diante da violência, do racismo e da destruição ambiental. A resposta às chamadas “identidades assassinas” e às estruturas de dominação deve ser a construção de um “nós” fundamentado na solidariedade, na justiça, na igualdade e no respeito à diversidade.

Diante das forças que promovem a espoliação e a exclusão, os povos organizados mantêm viva a possibilidade de construir outros mundos sustentados na dignidade, na autonomia e na defesa da vida.


Wilfrido Gómez Arias – Nossa água, suas concessões: a arquitetura jurídica da espoliação e da concentração da água no México

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A água é um elemento essencial para a vida e encontra-se em constante movimento por meio do ciclo hidrológico. No entanto, sua distribuição no México é desigual. Enquanto algumas regiões do sudeste concentram grandes volumes de precipitação e disponibilidade hídrica, extensas áreas do norte enfrentam condições de escassez. Essa desigualdade natural foi agravada por um modelo de gestão que permitiu a superexploração, a contaminação e a concentração da água.

A partir do período neoliberal, foram promovidas transformações legais e institucionais que modificaram a relação do Estado com a água. A criação da Comissão Nacional da Água (CONAGUA), em 1989, e a promulgação da Lei de Águas Nacionais, em 1992, estabeleceram um sistema baseado em concessões, por meio do qual o Estado concedeu direitos administrativos para extrair, utilizar e explorar determinados volumes de água durante longos períodos.

Esse modelo transformou o acesso à água em um direito administrativo passível de acumulação, transferência e defesa jurídica. Embora a Constituição estabeleça que a água pertence à nação, o sistema de concessões permitiu que grandes agentes econômicos concentrassem volumes significativos, enquanto muitas comunidades e povos ficaram sem o reconhecimento formal de seus direitos históricos sobre suas fontes de água.

A ausência de um planejamento hídrico adequado provocou um processo de superconcessão. Em diversos aquíferos e bacias hidrográficas passou-se a extrair mais água do que aquela disponível para sua recuperação natural. Como consequência, centenas de aquíferos apresentam redução de suas reservas, e numerosas bacias mostram sinais de degradação. A atual crise da água não é apenas um problema de disponibilidade natural, mas também o resultado de decisões políticas, jurídicas e econômicas.

Os principais beneficiários do modelo de concessões foram grandes usuários públicos e privados ligados a setores como o agronegócio, a mineração, a indústria de transformação, a indústria de bebidas, o setor energético, o mercado imobiliário e grandes empreendimentos urbanos. Enquanto algumas empresas possuem concessões para extrair enormes volumes de água, inúmeras comunidades enfrentam desabastecimento, distribuição irregular, dependência de caminhões-pipa e degradação de suas fontes locais.

Os povos indígenas e os sistemas comunitários de gestão da água foram particularmente afetados. Embora historicamente tenham protegido nascentes, rios e áreas de recarga hídrica, suas formas tradicionais de administração não foram plenamente reconhecidas pelo marco jurídico. Em muitos casos, as fontes de água utilizadas pelas comunidades foram registradas em nome de municípios, particulares ou empresas.

Em 2012, o direito humano à água foi reconhecido constitucionalmente, estabelecendo que toda pessoa deve ter acesso à água suficiente, salubre, aceitável e acessível para suas necessidades pessoais e domésticas. No entanto, as reformas promovidas em 2025 não alteraram de forma substancial a estrutura do sistema de concessões. Embora tenham introduzido algumas mudanças administrativas, mantiveram a lógica central que permitiu a concentração da água nas mãos de poucos usuários.

Garantir o direito humano à água significa muito mais do que fornecer água por meio de caminhões-pipa ou garrafas. Significa assegurar um acesso permanente, seguro e digno, com sistemas públicos eficientes, participação cidadã e reconhecimento das comunidades que historicamente cuidaram da água.

A problemática da água no México reflete uma disputa entre duas visões: uma que compreende a água como mercadoria e outra que a reconhece como um bem comum indispensável à vida. Resolver a crise hídrica exige recuperar uma perspectiva baseada na justiça social, ambiental e territorial, na qual a água seja administrada para garantir a vida das pessoas, dos ecossistemas e das gerações futuras.


Carlos Tornel – “Capitalismo, guerra total e a rebelião do vivo”

(Baixe o áudio aqui)

As palavras de Carlos Tornel partiram da provocação formulada pelo zapatismo há mais de duas décadas: a ideia de que vivemos uma Quarta Guerra Mundial, uma guerra que não se limita ao campo militar, mas atravessa a economia, a cultura, a informação, os territórios, os corpos e todas as formas de vida. Seu objetivo não é apenas derrotar inimigos, mas destruir, disciplinar ou reorganizar aquilo que não pode ser facilmente transformado em mercadoria: povos, memórias, autonomias, territórios comuns e formas distintas de se relacionar com a vida.

Essa guerra constitui um aspecto fundamental do funcionamento do capitalismo. Desde suas origens, a expansão capitalista dependeu da espoliação, da apropriação dos bens comuns e da transformação da natureza e das relações sociais em mercadorias. Hoje, diante do esgotamento dos recursos, da crise climática e das resistências territoriais, o capitalismo não reduz sua expansão; ao contrário, abre novas fronteiras de extração: mineração, combustíveis fósseis, minerais críticos e grandes infraestruturas energéticas e logísticas.

A crise ecológica não afeta toda a humanidade da mesma maneira. Não existe uma responsabilidade equivalente diante da degradação ambiental: as classes sociais, o gênero, a geografia e as relações coloniais determinam quem consome, quem decide e quem enfrenta as consequências. Por isso, a crise climática não pode ser compreendida como resultado de uma humanidade abstrata, mas como consequência histórica de um sistema baseado na acumulação, no colonialismo, no patriarcado e na exploração.

A guerra contra a natureza nasce de uma separação moderna entre a humanidade e o mundo vivo. A natureza foi transformada em objeto, recurso e propriedade, enquanto certos povos foram colocados do lado daquilo que seria “natural”, tendo sua autonomia e legitimidade negadas. Essa lógica permitiu justificar a conquista, o “desenvolvimento” e o “progresso” como caminhos universais, ocultando a violência necessária para impô-los.

Na atualidade surge uma nova forma de colonialismo climático. A crise ambiental já não é apenas negada; ela também é convertida em oportunidade de acumulação. Os mercados de carbono, as compensações ambientais, a mineração “verde” e determinadas formas de transição energética podem reproduzir as mesmas lógicas de espoliação sob uma nova linguagem de sustentabilidade. Os minerais necessários para as tecnologias digitais, energéticas e militares geram novas disputas territoriais, enquanto comunidades e ecossistemas são transformados em zonas de sacrifício.

Tornel também criticou a “maldição do ambientalismo”. Quando o cuidado da Terra se transforma em uma tarefa técnica administrada por especialistas, indicadores e mercados, a conservação perde seu vínculo com os territórios e converte-se em uma forma de governança que mede, controla e administra a natureza sem modificar as relações econômicas que produzem a devastação. A crise ecológica acaba sendo transferida para o indivíduo por meio da figura do “sujeito climático”, responsabilizado por mudar seus hábitos, enquanto as grandes estruturas de poder permanecem intactas.

Diante dessa situação, a proposta é “a rebelião do vivo”. A Terra não deve ser entendida como um objeto externo que precisa ser salvo, mas como a trama de relações da qual fazemos parte. Defender um rio, uma floresta, uma montanha ou um território significa defender comunidades, memórias, conhecimentos e modos de vida. A autonomia, o comum e as resistências territoriais demonstram que existem outras maneiras de organizar a existência para além da lógica da mercadoria.

A ideia de que somos a própria natureza defendendo a si mesma implica recuperar os vínculos com os territórios, reconstruir capacidades coletivas e reconhecer que a transformação não virá apenas dos Estados, das corporações ou da tecnologia, mas das práticas comunitárias que já existem. A segunda tempestade não é apenas a crise produzida pelo capitalismo, mas também a força dos povos, dos territórios e das formas de vida que se organizam para resistir a ela.

Tornel concluiu com um convite para abandonar a espera por soluções externas e recuperar a capacidade coletiva de construir outros mundos: não utopias distantes, mas espaços reais onde a autonomia, o cuidado e a vida em comum possam continuar florescendo diante da guerra contra a natureza.


Subcomandante Insurgente Moisés

O primeiro dia do encontro encerrou-se com um importante anúncio feito pelo Subcomandante Insurgente Moisés:

O próximo Encontro de Resistências e Rebeldias e o Encontro de Artes, previstos para dezembro de 2026, serão realizados na Cidade do México, na sede da Casa dos Povos e Comunidades Indígenas Samir Flores Soberanes.

(Baixe o áudio aqui)

Aqui o comunicado completo.

Fotos: Radio Pozol

radio
CNI-CIG

[CDMX – 20 julio] Jornadas globales por la libertad de Jesús Plácido Galindo y el alto a la guerra contra el CIPOG-EZ

EL CONGRESO NACIONAL INDIGENA Y EL CONCEJO INDIGENA DE GOBIERNO CONVOCAN AL

MITIN-CONCENTRACION

ALTO A LA GUERRA CONTRA LOS PUEBLOS ORIGINARIOS

SECRETARIA DE GOBERNACIÓN – LUNES, 20 DE JULIO, 16:00 HRS

POR LA INMEDIATA LIBERTAD DE JESÚS PLÁCIDO GALINDO REPRESENTANTE DEL CIPOG-EZ E INTEGRATE DEL CNI-CIG

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Radio Zapatista

“Sonhando a Terra do Bem Virá” se publica no Estado Espanhol

Junto com a Teia dos Povos, a Rádio Zapatista acaba de publicar no Estado Espanhol a versão ampliada, em espanhol, do livro Sonhando a Terra do Bem Virá, publicado originalmente no Brasil em 2025:

Soñar otro mundo es posible
Zapatismo, autonomía y el Tejido de los Pueblos

No contexto da crise civilizatória global, e como forma de imaginar e estimular a construção de alternativas de vida, o livro percorre as diferentes áreas da autonomia zapatista.

Como funcionam o autogoverno, a justiça própria, a educação e a saúde autônomas, a soberania econômica, a autodefesa e a comunicação? Qual é o papel das mulheres na construção de outros mundos possíveis? E das artes e das ciências? Em que consistem as grandes mudanças em curso nas estruturas de governo autônomo e na proposta do Comum?

A intenção do livro é aproximar o leitor da experiência viva da autonomia no território zapatista hoje.

Ao mesmo tempo, o livro conecta a experiência zapatista à da Teia dos Povos, essa grande articulação de movimentos indígenas, negros e populares do campo e da cidade no Brasil, que compartilha a visão da autonomia radical como alternativa para a crise global.

(Baixe o flyer em alta resolução aqui)

Escreve Bruno Baronnet:

Distante do estilo jornalístico ou acadêmico, este livro é uma poderosa crônica dos combates contemporâneos e, ao mesmo tempo, uma valiosa ferramenta de formação intelectual e militante.

Com uma prosa lúcida e vibrante, o livro nos oferece um percurso pelas diferentes áreas da autonomia zapatista em Chiapas. Pela primeira vez, uma obra examina a construção do Comum a partir dos novos mecanismos de governo autônomo, contemplando tanto a educação quanto a saúde autônomas, a soberania econômica, a autodefesa, o papel das mulheres e a função das ciências e das artes no zapatismo. Ao mesmo tempo, enriquece o olhar ao conectar a construção zapatista com a experiência dessa grande rede de comunidades, povos e organizações autonomistas chamada Teia dos Povos, no Brasil.

O que o livro deixa claro é que, no contexto da crise civilizatória global que vivemos, essas práticas de autonomia integral ressoam muito além da América Latina. Através do prisma de dois movimentos emblemáticos do México e do Brasil, esta obra de referência interpela nossa capacidade de pensar e construir um mundo novo, aqui e agora, por meio de uma articulação popular e radical das lutas pela vida.

O livro, distribuído pela editora Traficantes, está disponível em livrarias de todo o Estado Espanhol e também online em Traficantes.net.

Para mais informações, escreva para: radiozapatista@protonmail.com

radio
Radio Zapatista

Se o México sabe, que o mundo saiba! Nossas lutas pela memória, a justiça e a dignidade

Nestes dias, que para alguns são de celebração e euforia nacional, aqueles que há décadas resistem, caminham e levantam a voz nos mostraram — como bem nos dizem Camila, Berenice e todxs aquellxs que têm marchado nestes dias — a verdade mais dura: se aqueles que buscam se cansam, este país fica sem memória, sem rumo e sem futuro. O México ainda é isto: dor, individualismo, consumismo e violência, mas também pessoas, coletivos e comunidades que, apesar de tudo, continuamos acreditando que outra vida é possível.

A Copa do Mundo da festa, mas também da dor e da dignidade

Camila Zárraga

O problema muitas vezes não é a falta de solidariedade. Muitas vezes é o medo. É a covardia com que muitas pessoas aprenderam a viver. E, sinceramente, me incomodam as mensagens que dizem que eu tenho um valor que os outros não têm. Não é porque eu não entenda; eu entendo o suficiente. Mas também estou cansada. Porque eu não sou uma super-heroína, não sou diferente do resto. Continuo sendo uma pessoa que marcha, fala, chora, erra e sente medo. A verdadeira coragem é outra coisa. A verdadeira coragem é levantar todos os dias sabendo que dois dos momentos mais importantes da sua vida foram o nascimento do seu filho e o desaparecimento dele. A verdadeira coragem é continuar ensinando porque você ama seu trabalho, mesmo sem receber o suficiente para fazê-lo com dignidade.

Perdi a conta das vezes em que tive que sair da aula para comprar um marcador para que a aula pudesse continuar, porque simplesmente não havia orçamento. E, ainda assim, pela primeira vez em dezoito anos, eu amei a educação. Eu amei as pessoas com quem estudo e com quem compartilho a vida. Eu prefiro mil vezes uma escola pública a uma privada. Não pela educação em si, porque muitas vezes a educação pública também tem problemas enormes. Eu a prefiro pelas pessoas. Porque se amanhã eu me tornar uma das dezenas de pessoas que desaparecem diariamente neste país, muitos dos meus antigos colegas diriam que eu procurei isso por ser revoltosa. Em contrapartida, a família que construí aqui, o carinho que encontrei em pessoas com quem jamais imaginei cruzar meu caminho, moveria céu e terra para me encontrar.

É triste ver pessoas que se acham ricas quando os verdadeiramente ricos nem sequer as consideram suas iguais. É triste vê-las brigando por uma Copa do Mundo enquanto neste país seguimos contando desaparecidos. É triste admirar pessoas por sua trajetória e depois vê-las celebrar enquanto, do outro lado, pessoas eram espancadas, detidas e humilhadas por exigir justiça. Também é triste ver como o trabalhador que deveria te proteger acaba protegendo os interesses de quem o explora.

No caminho até o estádio vi a polícia avançando. E foi triste vê-los porque também são trabalhadores. Mas são trabalhadores que podem espancar, torturar ou até matar. Me perdoem, mas por algo existe a frase: “polícia com consciência atira em si mesmo”. Às vezes me pergunto como conseguem dormir. Como conseguem abraçar suas mães depois de terem humilhado outras mães que apenas exigiam que fizessem seu trabalho. Um trabalho que eu e você pagamos com nossos impostos. Um trabalho que deveria evitar que existissem as mães buscadoras. Porque não é normal que elas existam. Não é normal admirá-las. Não é normal que haja mulheres atravessando desertos, valas comuns e estradas em busca de seus filhos. São pessoas de quem tiraram alguém que amavam: um filho, uma filha, um irmão, uma mãe, um pai. São a consequência de uma violência que permitimos que se tornasse normal.

E, ainda assim, isso também é o México.

O México é celebrar com nossos mortos e ao mesmo tempo chorá-los. É lembrá-los em um altar enquanto ainda os buscamos. É ver jovens que, apesar de todas as dificuldades, conseguem acessar a educação pública e se organizar para defender a vida, a memória e a dignidade.

Por isso foi tão significativo marchar e fechar a Avenida de Tlalpan junto com eles. É algo pelo qual sempre vou ser grata. A recepção que nos deram foi uma das coisas mais bonitas que já vivi. Ver seus rostos cheios de emoção, esperança e convicção foi inspirador. E essa emoção está começando a voltar à minha universidade. Aos poucos, companheiras e companheiros estão recuperando sonhos e esperanças que durante anos nos foram tirados. Aos poucos voltamos a acreditar que podemos construir algo melhor. E vamos continuar lutando para que um dia a Universidade Autônoma do Estado de Morelos esteja à altura das grandes universidades públicas do país, não pelo prestígio, mas pela organização, participação e comunidade. Se você precisa de ajuda para organizar uma marcha, uma denúncia ou uma greve, procure seus irmãos e irmãs do Politécnico. Certamente encontrará uma mão estendida. Se você precisa de apoio de quem está apenas começando a se organizar e defender sua universidade, procure a UAEM. Com prazer caminharemos com você. Porque esse caminho está cheio de repressão, violência, desigualdade, humilhações e promessas vazias. Mas também está cheio de algo mais importante: pessoas que, apesar de tudo, ainda acreditam que outro país é possível.

Registro visual: Mães buscadoras, 10/06/2026, imediações do Estádio Azteca.

Onde a justiça não entra, nós entramos

A. Berenice González Marín

Meu nome é Berenice. Às vezes penso que minha vida foi se construindo entre buscas: as que acompanho de fora e as que me atravessaram por dentro. Antes de me integrar à coletividade de acompanhamento a mães buscadoras e a famílias de vítimas de feminicídio, Existimos porque Resistimos, eu já havia percorrido esse território com minha própria mãe, entre 2017 e 2018, quando buscávamos minha irmã e meus sobrinhos. Desde então entendi que o desaparecimento não é um fato isolado: é uma forma de vida, uma maneira de se sustentar quando o mundo se rompe.

Meus estudos em humanidades nasceram do desejo de compreender as desigualdades e violências com as quais cresci, mas também da necessidade urgente de aprender a resisti-las conscientemente. A academia chegou depois, como ferramenta; mas a formação verdadeira, aquela que fica no corpo, veio das ruas. Nos últimos dez anos aprendi mais em acampamentos e protestos do que em seminários; mais nas promotorias do que nas bibliotecas; mais ouvindo uma mãe narrar a vida de sua filha enquanto esperamos que alguma instituição nos receba do que em qualquer aula sobre teoria do Estado.

Acompanhar significa estar quando se ocupam as ruas, quando se fecham avenidas, quando se erguem faixas diante de prédios que parecem surdos. Significa caminhar juntas até uma promotoria que promete nos receber “em um momento” e nos deixa esperando horas. Significa sustentar o olhar quando uma mãe abre o processo de investigação e encontra mais carimbos do que respostas. Significa ouvir, repetidas vezes, histórias que deveriam estremecer o país inteiro, mas que muitas vezes só comovem quem já está quebrado.

Nesse 11 de junho de 2026, enquanto o país olhava para o Estádio Azteca como se ali começasse algo novo, algumas de nós chegamos de outro lugar: de anos de buscas, de promotorias, de ruas ocupadas, de histórias que não cabem em nenhuma celebração. Onde a justiça não entra, nós entramos — e esse dia não foi exceção. A inauguração da Copa do Mundo prometia espetáculo, e ele existiu para alguns; para outras e outros mostrou, embora quase não tenha aparecido na mídia, a forma como o Estado encapsula a memória. Entre grades, bloqueios e filtros impossíveis para as mães buscadoras, uma mãe de vítima e eu conseguimos avançar pelas frestas do dispositivo de segurança, nos infiltrando com a teimosia de quem sabe que a ausência também merece um lugar no centro da festa, ainda que naquele momento não tivéssemos plena consciência disso. Porque, apesar da experiência nas ruas, ainda somos estranhas à lógica do Estado sobre quem pode entrar, como e de onde, especialmente em um evento como a Copa do Mundo.

Não é difícil chegar ao Estádio Azteca. Desde cedo, os arredores se enchem de vendedores que organizam camisas e apitos de plástico. O clima já cheira a festa antes mesmo de começar. Mas naquele dia eu não ia para a celebração: tinha marcado encontro na Paloma de la Paz com a mãe de uma vítima de feminicídio. Combinamos de nos encontrar às 6h30 da manhã para pegar um desses carros particulares que, por sessenta pesos, levam até a Cidade do México. Para mim parecia tarde para um dia que prometia caos, mas entendi seus tempos, suas responsabilidades e seu orçamento.

Ao entrar no carro, ela começou a conversar com outro passageiro e com os donos do veículo. Não era conversa casual: estava testando o terreno, tentando entender o panorama. Ao chegar à praça de pedágio, soubemos que havia bloqueios para identificar quem iria protestar. Senti inquietação, uma mistura de alerta e incerteza. O pior que poderia acontecer era ser detida por carregar uma faixa de desaparecidxs e ela seguir sozinha. Legalmente não podiam nos impedir de passar, mas podiam nos reter por horas “por segurança”, como costumam justificar.

Isso não aconteceu. Estavam apenas parando ônibus. Felizmente eu estava em um carro particular.

Os jovens com quem viajávamos no veículo, gentis, deram várias rotas possíveis para chegar ao estádio sem cair em manifestações ou bloqueios. Eu, mais dispersa, tentava entrar em contato com outras mães buscadoras, mas não conseguia falar com ninguém. Então decidimos seguir as recomendações.

Ainda assim, fizemos uma parada na Cidade Universitária, onde havia sido anunciado um ponto de encontro de mães buscadoras. Chegamos e não havia sinal delas. A segurança insistia que haveria uma concentração, mas não vimos ninguém. Sem pensar muito, pegamos transporte público rumo ao Estádio Azteca.

No trajeto vimos várias opções para chegar. Uma van oferecia o trajeto de CU ao estádio por 150 pesos, quando normalmente a passagem custa sete. Esse espaço estava cheio de estrangeiros. A mãe observou a cena, escolheu a pessoa em quem mais confiou e se aproximou. Explicou que precisava chegar ao estádio porque era mãe de uma vítima. Não foi a única vez que fez isso. Poucos se negaram a ajudar; a maioria deu orientações precisas: onde estavam encapsulando as mães, por quais acessos poderíamos avançar sem sermos barradas, qual transporte pegar, onde descer, como nos misturarmos na multidão para não chamar atenção.

Alguns até nos deram conselhos caso a autoridade se tornasse violenta e explicaram o que era ou não legalmente permitido impedir. Era uma mistura estranha: de um lado, o país do espetáculo; do outro, o país que sobrevive compartilhando rotas, alertas e estratégias para contornar a violência institucional.

Enquanto isso, ao nosso redor, famílias inteiras avançavam com passos leves, como se a emoção marcasse o ritmo. Havia risos, selfies, crianças com o rosto pintado. Tudo parecia feito para que a festa começasse antes mesmo dos portões. Nós, ao contrário, avançávamos com outra urgência: chegar sem ser detidas, sem ser encapsuladas, sem que a memória fosse expulsa do perímetro do estádio.

E chegamos. Só percebemos quando já estávamos a poucos metros da entrada. Passamos por cada filtro sem sermos barradas, recebemos a recepção sem entender, e de repente nos perguntamos: é aqui? Este é o último bloqueio? Onde estão as mães, onde estão os povos em luta? Por um momento pensamos que talvez só restasse voltar.

Abrimos a faixa dos desaparecidos e a foto da filha da minha companheira. Éramos duas diante de milhares que vinham celebrar a Copa e diante de um dispositivo de segurança que não esperava nos ver ali. Caminhamos alguns metros com a intenção de seguir em direção a Taxqueña para voltar. Íamos no sentido contrário ao desfile de inauguração. A cena era irreal: um México sem feminicídios nem desaparecimentos, sem dor, sem corpos nos Semefo nem em valas clandestinas. Um país que mostrava seu rosto mais bonito enquanto ignorava a violência.

Vimos vários meios de comunicação. Em um momento, a mãe me disse para erguer a faixa e ficar atrás dos repórteres. Hesitei no início. Até que deixou de ser sugestão e virou decisão. Abrimos a faixa e nos colocamos atrás de cada repórter que encontramos. Alguns pararam para nos entrevistar; outros se afastaram para não mostrar esse lado do país.

O que mais me surpreendeu foi o apoio dos torcedores. Eles nos acolhiam quando a segurança nos cercava ou nos seguia. Diziam: “companheiras, estamos com vocês”. Esse apoio inesperado nos acompanhou até sairmos do perímetro do Estádio Azteca, um espaço ao qual milhares de mães não puderam chegar naquele dia.

No caminho encontramos um grupo de resistência, jovens entre quinze e vinte anos, que nos convidaram a nos unir à marcha deles. Senti novamente esse apoio que nasce de baixo, de quem entende que o desaparecimento não é um tema distante. Embora fôssemos apenas nós duas em representação das mães buscadoras, as palavras de ordem se centravam na luta contra o desaparecimento.

Os meios de comunicação voltaram a nos abordar. Em certo momento, aproximou-se o secretário de Cultura. Disse que não poderíamos avançar além da primeira barreira, mas que, se quiséssemos fazê-lo como mães buscadoras, eles nos apoiariam. A proposta parecia irreal. Tínhamos acabado de sair do estádio sem dificuldade, com nossa faixa e a foto de uma vítima, e agora surgiam obstáculos e “apoio”. Não era que não fosse possível entrar: já tínhamos entrado. Era que não queriam que avançássemos visíveis como buscadoras.

Ainda assim, depois de tudo, o que fica não é o barulho do estádio nem a sombra das grades. O que fica é a força dessas mãos que seguram fotografias como se segurassem o mundo inteiro. O que fica é o tremor de uma mãe que não desiste. O que fica é esse passo firme, quase silencioso, que insiste em avançar mesmo quando tudo foi feito para deter.

Porque em um país que tenta se acostumar com a dor, elas continuam lembrando que a vida que falta não se esquece. Que cada nome é um batimento. Que cada ausência é um chamado. Que cada busca é uma forma de amor que não conhece fronteiras.

E talvez por isso doa tanto e, ao mesmo tempo, sustente: porque enquanto elas continuarem caminhando, este país ainda tem a chance de se olhar de frente. Enquanto continuarem nomeando, a verdade não poderá ser enterrada. Enquanto continuarem buscando, a esperança não será um luxo, mas uma tarefa.

Naquele dia, 11 de junho de 2026, entendi que a memória não é passado: é um pulso presente que obriga a não desistir. Em um país onde a violência vira paisagem e a impunidade se normaliza, a memória é a única coisa que não podemos soltar. É a respiração que persiste quando tudo parece feito para que esqueçamos.

No fim, o que fica é reconhecer algo que este país evita dizer: a vida pública funciona porque aquelas que mais sofreram continuam se movendo. Não é heroísmo; é necessidade. Não é épico; é sobrevivência. E enquanto o Estado administra a violência como rotina, são as famílias que carregam o trabalho que as instituições não fazem.

Esse dia deixou claro para mim que a memória não é gesto simbólico nem moral: é uma obrigação imposta pela realidade. Se ela não se sustenta, tudo desmorona mais rápido. E no México, a busca não continua porque haja justiça, mas porque não há outra opção. Porque se as mães param, ninguém mais fará.

Não somos poucas diante do desaparecimento e do feminicídio. Somos aquelas que veem o que outros preferem ignorar. Somos aquelas que não podem se dar ao luxo de esquecer. Somos aquelas que sustentam o que resta do país enquanto, no alto, se distribuem versões oficiais que não explicam nada. E essa é a verdade mais dura: se quem busca se cansa, este país fica sem memória, sem rumo e sem futuro.

Manifestação de mães buscadoras e coletivos solidários nas proximidades do Estádio Azteca, 11/06/2026

Pronunciamento mães buscadoras 10/06/2026

A luta do magistério

No mundo atual, tudo o que se move e tudo o que está parado transmite alguma mensagem comercial. Todo jogador de futebol deve ser um outdoor publicitário ambulante, incentivando o público a consumir produtos, mas a FIFA proíbe que os jogadores portem mensagens que incentivem a solidariedade social, o que é expressamente vetado… (E. Galeano, 2017)

A Memória, a Justiça e a Dignidade não compareceram à inauguração oficial da Copa do Mundo no Estádio Azteca. Sua entrada foi negada por serem consideradas “terroristas” e por questões de “segurança nacional”. Dentro do estádio, ninguém perguntou por elas, não as mencionaram; possivelmente poucas pessoas as conheciam. Mas elas estiveram presentes nas mobilizações das mães buscadoras e também nos diferentes percursos dos professores da CNTE, que há 15 dias chegaram à Cidade do México para se somar à protesto nacional e fazer ecoar sua voz e a de milhares de outros professores.

Professores da CNTE a caminho do Estádio Azteca. 11/06/2026

Discurso professoras CNTE 11/06/2026

CDMX 15 de Junho 2026

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[25 abr – CDMX] Tokín por el CNI: 30 años de Resistencia y Rebeldía

Tokín por el CNI
* 30 años de Resistencia y Rebeldía *

25 DE ABRIL, DE 11:00 A 23:00 HRS. CAFÉ ZAPATA VIVE.

ANTROPOLOGOS 56 (ANTES 21B), COL. APATLACO. IZTAPALAPA. METRO APATLACO.

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#CNI30añosdeRebeldiayResistencia #Somoscaminoycaminantes