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Se o México sabe, que o mundo saiba! Nossas lutas pela memória, a justiça e a dignidade
Nestes dias, que para alguns são de celebração e euforia nacional, aqueles que há décadas resistem, caminham e levantam a voz nos mostraram — como bem nos dizem Camila, Berenice e todxs aquellxs que têm marchado nestes dias — a verdade mais dura: se aqueles que buscam se cansam, este país fica sem memória, sem rumo e sem futuro. O México ainda é isto: dor, individualismo, consumismo e violência, mas também pessoas, coletivos e comunidades que, apesar de tudo, continuamos acreditando que outra vida é possível.
A Copa do Mundo da festa, mas também da dor e da dignidade
Camila Zárraga
O problema muitas vezes não é a falta de solidariedade. Muitas vezes é o medo. É a covardia com que muitas pessoas aprenderam a viver. E, sinceramente, me incomodam as mensagens que dizem que eu tenho um valor que os outros não têm. Não é porque eu não entenda; eu entendo o suficiente. Mas também estou cansada. Porque eu não sou uma super-heroína, não sou diferente do resto. Continuo sendo uma pessoa que marcha, fala, chora, erra e sente medo. A verdadeira coragem é outra coisa. A verdadeira coragem é levantar todos os dias sabendo que dois dos momentos mais importantes da sua vida foram o nascimento do seu filho e o desaparecimento dele. A verdadeira coragem é continuar ensinando porque você ama seu trabalho, mesmo sem receber o suficiente para fazê-lo com dignidade.
Perdi a conta das vezes em que tive que sair da aula para comprar um marcador para que a aula pudesse continuar, porque simplesmente não havia orçamento. E, ainda assim, pela primeira vez em dezoito anos, eu amei a educação. Eu amei as pessoas com quem estudo e com quem compartilho a vida. Eu prefiro mil vezes uma escola pública a uma privada. Não pela educação em si, porque muitas vezes a educação pública também tem problemas enormes. Eu a prefiro pelas pessoas. Porque se amanhã eu me tornar uma das dezenas de pessoas que desaparecem diariamente neste país, muitos dos meus antigos colegas diriam que eu procurei isso por ser revoltosa. Em contrapartida, a família que construí aqui, o carinho que encontrei em pessoas com quem jamais imaginei cruzar meu caminho, moveria céu e terra para me encontrar.
É triste ver pessoas que se acham ricas quando os verdadeiramente ricos nem sequer as consideram suas iguais. É triste vê-las brigando por uma Copa do Mundo enquanto neste país seguimos contando desaparecidos. É triste admirar pessoas por sua trajetória e depois vê-las celebrar enquanto, do outro lado, pessoas eram espancadas, detidas e humilhadas por exigir justiça. Também é triste ver como o trabalhador que deveria te proteger acaba protegendo os interesses de quem o explora.
No caminho até o estádio vi a polícia avançando. E foi triste vê-los porque também são trabalhadores. Mas são trabalhadores que podem espancar, torturar ou até matar. Me perdoem, mas por algo existe a frase: “polícia com consciência atira em si mesmo”. Às vezes me pergunto como conseguem dormir. Como conseguem abraçar suas mães depois de terem humilhado outras mães que apenas exigiam que fizessem seu trabalho. Um trabalho que eu e você pagamos com nossos impostos. Um trabalho que deveria evitar que existissem as mães buscadoras. Porque não é normal que elas existam. Não é normal admirá-las. Não é normal que haja mulheres atravessando desertos, valas comuns e estradas em busca de seus filhos. São pessoas de quem tiraram alguém que amavam: um filho, uma filha, um irmão, uma mãe, um pai. São a consequência de uma violência que permitimos que se tornasse normal.
E, ainda assim, isso também é o México.
O México é celebrar com nossos mortos e ao mesmo tempo chorá-los. É lembrá-los em um altar enquanto ainda os buscamos. É ver jovens que, apesar de todas as dificuldades, conseguem acessar a educação pública e se organizar para defender a vida, a memória e a dignidade.
Por isso foi tão significativo marchar e fechar a Avenida de Tlalpan junto com eles. É algo pelo qual sempre vou ser grata. A recepção que nos deram foi uma das coisas mais bonitas que já vivi. Ver seus rostos cheios de emoção, esperança e convicção foi inspirador. E essa emoção está começando a voltar à minha universidade. Aos poucos, companheiras e companheiros estão recuperando sonhos e esperanças que durante anos nos foram tirados. Aos poucos voltamos a acreditar que podemos construir algo melhor. E vamos continuar lutando para que um dia a Universidade Autônoma do Estado de Morelos esteja à altura das grandes universidades públicas do país, não pelo prestígio, mas pela organização, participação e comunidade. Se você precisa de ajuda para organizar uma marcha, uma denúncia ou uma greve, procure seus irmãos e irmãs do Politécnico. Certamente encontrará uma mão estendida. Se você precisa de apoio de quem está apenas começando a se organizar e defender sua universidade, procure a UAEM. Com prazer caminharemos com você. Porque esse caminho está cheio de repressão, violência, desigualdade, humilhações e promessas vazias. Mas também está cheio de algo mais importante: pessoas que, apesar de tudo, ainda acreditam que outro país é possível.
Registro visual: Mães buscadoras, 10/06/2026, imediações do Estádio Azteca.















Onde a justiça não entra, nós entramos
A. Berenice González Marín
Meu nome é Berenice. Às vezes penso que minha vida foi se construindo entre buscas: as que acompanho de fora e as que me atravessaram por dentro. Antes de me integrar à coletividade de acompanhamento a mães buscadoras e a famílias de vítimas de feminicídio, Existimos porque Resistimos, eu já havia percorrido esse território com minha própria mãe, entre 2017 e 2018, quando buscávamos minha irmã e meus sobrinhos. Desde então entendi que o desaparecimento não é um fato isolado: é uma forma de vida, uma maneira de se sustentar quando o mundo se rompe.
Meus estudos em humanidades nasceram do desejo de compreender as desigualdades e violências com as quais cresci, mas também da necessidade urgente de aprender a resisti-las conscientemente. A academia chegou depois, como ferramenta; mas a formação verdadeira, aquela que fica no corpo, veio das ruas. Nos últimos dez anos aprendi mais em acampamentos e protestos do que em seminários; mais nas promotorias do que nas bibliotecas; mais ouvindo uma mãe narrar a vida de sua filha enquanto esperamos que alguma instituição nos receba do que em qualquer aula sobre teoria do Estado.
Acompanhar significa estar quando se ocupam as ruas, quando se fecham avenidas, quando se erguem faixas diante de prédios que parecem surdos. Significa caminhar juntas até uma promotoria que promete nos receber “em um momento” e nos deixa esperando horas. Significa sustentar o olhar quando uma mãe abre o processo de investigação e encontra mais carimbos do que respostas. Significa ouvir, repetidas vezes, histórias que deveriam estremecer o país inteiro, mas que muitas vezes só comovem quem já está quebrado.
Nesse 11 de junho de 2026, enquanto o país olhava para o Estádio Azteca como se ali começasse algo novo, algumas de nós chegamos de outro lugar: de anos de buscas, de promotorias, de ruas ocupadas, de histórias que não cabem em nenhuma celebração. Onde a justiça não entra, nós entramos — e esse dia não foi exceção. A inauguração da Copa do Mundo prometia espetáculo, e ele existiu para alguns; para outras e outros mostrou, embora quase não tenha aparecido na mídia, a forma como o Estado encapsula a memória. Entre grades, bloqueios e filtros impossíveis para as mães buscadoras, uma mãe de vítima e eu conseguimos avançar pelas frestas do dispositivo de segurança, nos infiltrando com a teimosia de quem sabe que a ausência também merece um lugar no centro da festa, ainda que naquele momento não tivéssemos plena consciência disso. Porque, apesar da experiência nas ruas, ainda somos estranhas à lógica do Estado sobre quem pode entrar, como e de onde, especialmente em um evento como a Copa do Mundo.
Não é difícil chegar ao Estádio Azteca. Desde cedo, os arredores se enchem de vendedores que organizam camisas e apitos de plástico. O clima já cheira a festa antes mesmo de começar. Mas naquele dia eu não ia para a celebração: tinha marcado encontro na Paloma de la Paz com a mãe de uma vítima de feminicídio. Combinamos de nos encontrar às 6h30 da manhã para pegar um desses carros particulares que, por sessenta pesos, levam até a Cidade do México. Para mim parecia tarde para um dia que prometia caos, mas entendi seus tempos, suas responsabilidades e seu orçamento.
Ao entrar no carro, ela começou a conversar com outro passageiro e com os donos do veículo. Não era conversa casual: estava testando o terreno, tentando entender o panorama. Ao chegar à praça de pedágio, soubemos que havia bloqueios para identificar quem iria protestar. Senti inquietação, uma mistura de alerta e incerteza. O pior que poderia acontecer era ser detida por carregar uma faixa de desaparecidxs e ela seguir sozinha. Legalmente não podiam nos impedir de passar, mas podiam nos reter por horas “por segurança”, como costumam justificar.
Isso não aconteceu. Estavam apenas parando ônibus. Felizmente eu estava em um carro particular.
Os jovens com quem viajávamos no veículo, gentis, deram várias rotas possíveis para chegar ao estádio sem cair em manifestações ou bloqueios. Eu, mais dispersa, tentava entrar em contato com outras mães buscadoras, mas não conseguia falar com ninguém. Então decidimos seguir as recomendações.
Ainda assim, fizemos uma parada na Cidade Universitária, onde havia sido anunciado um ponto de encontro de mães buscadoras. Chegamos e não havia sinal delas. A segurança insistia que haveria uma concentração, mas não vimos ninguém. Sem pensar muito, pegamos transporte público rumo ao Estádio Azteca.
No trajeto vimos várias opções para chegar. Uma van oferecia o trajeto de CU ao estádio por 150 pesos, quando normalmente a passagem custa sete. Esse espaço estava cheio de estrangeiros. A mãe observou a cena, escolheu a pessoa em quem mais confiou e se aproximou. Explicou que precisava chegar ao estádio porque era mãe de uma vítima. Não foi a única vez que fez isso. Poucos se negaram a ajudar; a maioria deu orientações precisas: onde estavam encapsulando as mães, por quais acessos poderíamos avançar sem sermos barradas, qual transporte pegar, onde descer, como nos misturarmos na multidão para não chamar atenção.
Alguns até nos deram conselhos caso a autoridade se tornasse violenta e explicaram o que era ou não legalmente permitido impedir. Era uma mistura estranha: de um lado, o país do espetáculo; do outro, o país que sobrevive compartilhando rotas, alertas e estratégias para contornar a violência institucional.
Enquanto isso, ao nosso redor, famílias inteiras avançavam com passos leves, como se a emoção marcasse o ritmo. Havia risos, selfies, crianças com o rosto pintado. Tudo parecia feito para que a festa começasse antes mesmo dos portões. Nós, ao contrário, avançávamos com outra urgência: chegar sem ser detidas, sem ser encapsuladas, sem que a memória fosse expulsa do perímetro do estádio.
E chegamos. Só percebemos quando já estávamos a poucos metros da entrada. Passamos por cada filtro sem sermos barradas, recebemos a recepção sem entender, e de repente nos perguntamos: é aqui? Este é o último bloqueio? Onde estão as mães, onde estão os povos em luta? Por um momento pensamos que talvez só restasse voltar.
Abrimos a faixa dos desaparecidos e a foto da filha da minha companheira. Éramos duas diante de milhares que vinham celebrar a Copa e diante de um dispositivo de segurança que não esperava nos ver ali. Caminhamos alguns metros com a intenção de seguir em direção a Taxqueña para voltar. Íamos no sentido contrário ao desfile de inauguração. A cena era irreal: um México sem feminicídios nem desaparecimentos, sem dor, sem corpos nos Semefo nem em valas clandestinas. Um país que mostrava seu rosto mais bonito enquanto ignorava a violência.
Vimos vários meios de comunicação. Em um momento, a mãe me disse para erguer a faixa e ficar atrás dos repórteres. Hesitei no início. Até que deixou de ser sugestão e virou decisão. Abrimos a faixa e nos colocamos atrás de cada repórter que encontramos. Alguns pararam para nos entrevistar; outros se afastaram para não mostrar esse lado do país.
O que mais me surpreendeu foi o apoio dos torcedores. Eles nos acolhiam quando a segurança nos cercava ou nos seguia. Diziam: “companheiras, estamos com vocês”. Esse apoio inesperado nos acompanhou até sairmos do perímetro do Estádio Azteca, um espaço ao qual milhares de mães não puderam chegar naquele dia.
No caminho encontramos um grupo de resistência, jovens entre quinze e vinte anos, que nos convidaram a nos unir à marcha deles. Senti novamente esse apoio que nasce de baixo, de quem entende que o desaparecimento não é um tema distante. Embora fôssemos apenas nós duas em representação das mães buscadoras, as palavras de ordem se centravam na luta contra o desaparecimento.
Os meios de comunicação voltaram a nos abordar. Em certo momento, aproximou-se o secretário de Cultura. Disse que não poderíamos avançar além da primeira barreira, mas que, se quiséssemos fazê-lo como mães buscadoras, eles nos apoiariam. A proposta parecia irreal. Tínhamos acabado de sair do estádio sem dificuldade, com nossa faixa e a foto de uma vítima, e agora surgiam obstáculos e “apoio”. Não era que não fosse possível entrar: já tínhamos entrado. Era que não queriam que avançássemos visíveis como buscadoras.
Ainda assim, depois de tudo, o que fica não é o barulho do estádio nem a sombra das grades. O que fica é a força dessas mãos que seguram fotografias como se segurassem o mundo inteiro. O que fica é o tremor de uma mãe que não desiste. O que fica é esse passo firme, quase silencioso, que insiste em avançar mesmo quando tudo foi feito para deter.
Porque em um país que tenta se acostumar com a dor, elas continuam lembrando que a vida que falta não se esquece. Que cada nome é um batimento. Que cada ausência é um chamado. Que cada busca é uma forma de amor que não conhece fronteiras.
E talvez por isso doa tanto e, ao mesmo tempo, sustente: porque enquanto elas continuarem caminhando, este país ainda tem a chance de se olhar de frente. Enquanto continuarem nomeando, a verdade não poderá ser enterrada. Enquanto continuarem buscando, a esperança não será um luxo, mas uma tarefa.
Naquele dia, 11 de junho de 2026, entendi que a memória não é passado: é um pulso presente que obriga a não desistir. Em um país onde a violência vira paisagem e a impunidade se normaliza, a memória é a única coisa que não podemos soltar. É a respiração que persiste quando tudo parece feito para que esqueçamos.
No fim, o que fica é reconhecer algo que este país evita dizer: a vida pública funciona porque aquelas que mais sofreram continuam se movendo. Não é heroísmo; é necessidade. Não é épico; é sobrevivência. E enquanto o Estado administra a violência como rotina, são as famílias que carregam o trabalho que as instituições não fazem.
Esse dia deixou claro para mim que a memória não é gesto simbólico nem moral: é uma obrigação imposta pela realidade. Se ela não se sustenta, tudo desmorona mais rápido. E no México, a busca não continua porque haja justiça, mas porque não há outra opção. Porque se as mães param, ninguém mais fará.
Não somos poucas diante do desaparecimento e do feminicídio. Somos aquelas que veem o que outros preferem ignorar. Somos aquelas que não podem se dar ao luxo de esquecer. Somos aquelas que sustentam o que resta do país enquanto, no alto, se distribuem versões oficiais que não explicam nada. E essa é a verdade mais dura: se quem busca se cansa, este país fica sem memória, sem rumo e sem futuro.
Manifestação de mães buscadoras e coletivos solidários nas proximidades do Estádio Azteca, 11/06/2026














Pronunciamento mães buscadoras 10/06/2026
A luta do magistério
No mundo atual, tudo o que se move e tudo o que está parado transmite alguma mensagem comercial. Todo jogador de futebol deve ser um outdoor publicitário ambulante, incentivando o público a consumir produtos, mas a FIFA proíbe que os jogadores portem mensagens que incentivem a solidariedade social, o que é expressamente vetado… (E. Galeano, 2017)
A Memória, a Justiça e a Dignidade não compareceram à inauguração oficial da Copa do Mundo no Estádio Azteca. Sua entrada foi negada por serem consideradas “terroristas” e por questões de “segurança nacional”. Dentro do estádio, ninguém perguntou por elas, não as mencionaram; possivelmente poucas pessoas as conheciam. Mas elas estiveram presentes nas mobilizações das mães buscadoras e também nos diferentes percursos dos professores da CNTE, que há 15 dias chegaram à Cidade do México para se somar à protesto nacional e fazer ecoar sua voz e a de milhares de outros professores.
Professores da CNTE a caminho do Estádio Azteca. 11/06/2026





Discurso professoras CNTE 11/06/2026
CDMX 15 de Junho 2026
Entrevista a Alberte Pagán, a un día de partir en la Flotilla Global Sumud rumbo a Gaza
Mañana, 12 de abril de 2024, partirá de Barcelona la mayor misión humanitaria marítima de la historia rumbo a Gaza. A los 40 barcos que zarparán del puerto de Barcelona se les unirán otros 40 en diversos puntos del Mediterráneo, llevando un total de más de mil personas de casi 100 países, con el objetivo de romper el bloqueo israelí a Gaza, llevar ayuda material y técnica necesitada desesperadamente por la población gazatí, y llamar la atención al genocidio que, a pesar del falso acuerdo de paz, continúa vigente.
En la víspera de la partida de la Flotilla Global Sumud, entrevistamos a Alberte Pagán, escritor y cineasta gallego que participa en la flotilla como parte de la delegación gallega.
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Gracias, Alberte, por compartir tu palabra. Cuéntanos sobre esta flotilla. ¿En qué difiere de las anteriores?
Lo que tiene de especial esta flotilla es que es la misión humanitaria por mar más grande que nunca ha existido. Recoge un poco el espíritu de Sumud, que es el nombre que tiene la flotilla, que significa resiliencia, resistencia. Tomamos como ejemplo la resistencia del pueblo palestino y después de la última flotilla, que como bien sabes fue interceptada y todas las activistas estuvieron en prisión.
Ahora, unos pocos meses después, volvemos con el doble de ganas y con el doble de barcos y con más del doble de activistas. Salimos de Barcelona unos 40 barcos, pero a lo largo de la travesía se unirán, en otros puntos del Mediterráneo, otros tantos más, con lo cual superaremos los 80 barcos y más de mil personas en ellos. Pero todo esto es sólo una pequeña muestra de toda la gente que está en tierra participando en la organización de la flotilla y por la liberación de Palestina. A esto hay que añadir el convoy terrestre que parte desde el Magreb, por el norte de África, intentando llegar a la frontera con Gaza, con lo cual nosotros somos un gran hito más en esta movilización mundial.
Cada vez hay más y más personas —somos ya millones y millones en todo el mundo— que están diciendo basta con la ocupación de Palestina y con el genocidio y la limpieza étnica.
¿Cuál es el propósito de esta flotilla en particular, además en el contexto de la guerra y de toda la distracción mediática que implica sobre la situación en Gaza? ¿Qué se propone específicamente esta flotilla junto con la caravana terrestre?
Primero de todo, la flotilla es una consecuencia de las movilizaciones que hay en todo el mundo para intentar romper el bloqueo a Palestina, en concreto a Gaza. Un objetivo pues es llamar la atención internacional sobre la ocupación de Palestina porque, como bien sabemos, las noticias políticas en los medios convencionales son casi casi, por tristeza, una cuestión de moda.
Se hablaba mucho de Gaza cuando había bombardeos diarios. Pero cuando firman un falso acuerdo de paz —porque ni siquiera se le puede llamar así—, pues los medios convencionales ya dejan de informar. La flotilla, es consecuencia de las movilizaciones en todo el mundo y al mismo tiempo quiere ser un catalizador para seguir fomentando esas movilizaciones.
Objetivo principal: romper el bloqueo a Gaza. Un bloqueo que ya lleva desde el genocidio televisado de los últimos dos años o tres. ¿Qué tiene de novedad esta flotilla, aparte de ser más numerosa? Pues de que tiene un objetivo claro de llegar a Gaza y desembarcar en Gaza con equipos médicos, equipos de educadoras, equipos de ecoconstructoras para ayudar a la gente palestina de Gaza a reconstruir sus casas, sus viviendas, su salud y sus vidas. Llevamos ya no sólo una ayuda simbólica como la flotilla anterior, sino que realmente llevamos un poderoso cargamento de herramientas médicas, de construcción ecológica y demás, con ese objetivo preciso de desembarcar en Gaza y ayudar al pueblo palestino, a estar codo con ellos en la reconstrucción.
La flotilla se organizó antes de la guerra, con lo cual muchas voces nos critican por ser temerarios, por ir ahora, que es muy peligroso. Pero si esperamos a que llegue un momento concreto donde no haya peligro, pues entonces nos quedamos de brazos cruzados y nunca haremos nada, porque mientras Palestina no sea libre siempre habrá conflicto en Asia Occidental y en general en todo el mundo. Y un poco esa es la novedad de esta flotilla.
¿Cómo se está percibiendo la situación en el contexto de la guerra en términos de seguridad para la flotilla, del riesgo de ataques por parte de Israel? ¿Cómo lo están percibiendo ustedes?
Para organizar una flotilla de estas características hace falta un equipo, muchos equipos muy bien organizados, y realmente está funcionando muy bien. Ya tenemos un equipo especializado en esos temas a nivel político, a nivel militar, y a medida que vayamos avanzando por el Mediterráneo iremos valorando la situación. Pero sabemos que hay riesgos y los riesgos están ahí, como también estaban en la flotilla anterior, porque la reacción de Israel nunca sabes cuál va a ser y siempre te esperas lo peor, con lo cual la guerra de Irán añade un poco de, digamos, de inquietud, pero no es lo que más nos preocupa.
Al contrario, parece que esta guerra no tiene nada que ver con Palestina, que cuando el régimen sionista bombardea a Irán, el contexto político de Palestina no tiene nada que ver. Y en realidad, mientras exista un Estado de Israel sionista que esté ocupando Palestina, todo esto va a tener consecuencias en la región, bélicas, políticas, y a mayores en todo el mundo.
¿Cómo está la situación en Gaza ahora?
Como decía, este supuesto acuerdo de paz, en cuya mesa no había ni siquiera representantes palestinos, no cambió absolutamente nada.
Cambió el aspecto, digamos, del espectáculo bélico diario que teníamos, de los bombardeos diarios, pero sigue habiendo bombardeos no diarios, no con tanta intensidad. No hay tal cantidad de muertos, pero desde el acuerdo de paz ya fueron asesinados más de 700 personas palestinas, entre ellas muchos niños y muchas niñas. Un acuerdo de paz que ni siquiera cumple sus propios puntos, porque uno de los puntos era abrir las fronteras a la ayuda humanitaria y no están abiertas. Oficialmente te dicen que sí, que están abiertas, pero en vez de dejar entrar 3 mil camiones diarios, que sería lo mínimo necesario, pues dejan pasar a cinco o siete. Y en la frontera del Sinaí, en Egipto, hay unas colas kilométricas de camiones desde hace meses y meses, en los que se está pudriendo la comida destinada al pueblo palestino en Gaza. Por lo tanto, la situación sigue espantosa a nivel humanitario.
A nivel global, ¿qué significa enfrentar lo que está haciendo el régimen sionista en el contexto de los cambios en el mundo y cómo eso nos impacta a todos? O sea, más allá de una solidaridad con el pueblo palestino, ¿cómo es que eso se refleja en el mundo, en términos de la reconfiguración geopolítica y la desesperación imperial de Estados Unidos junto con Israel por mantener la hegemonía mundial?
Precisamente, yo personalmente creo que éste es el momento adecuado para navegar hacia Gaza. Precisamente por eso, para que cada gobierno se retrate en su relación con Israel, incluido el gobierno español.
Que no nos olvidemos de Palestina, por mucho que haya guerra en Irán. Y es una manera de hacer que los gobiernos y las instituciones se mojen y tomen el mando. Porque si esta flotilla sale, es precisamente por la inactividad de gobiernos e instituciones, incluida la ONU.
Ante la inactividad de gobiernos e instituciones, que la gente —la ciudadanía mundial— se quede inactiva, no es una opción. Solidaridad sí, pero hay que tomar partido y hay que hacer acciones, no sólo que levanten las conciencias, sino que ayuden a este fin de la ocupación de Palestina.
Desde un nivel personal, ¿cómo te sientes ahora, a un día de partir en la flotilla?
Pues muy ilusionado, muy ilusionado con partir y muy ilusionado con la esperanza de ver que la flotilla pueda reactivar las movilizaciones en todo el mundo, no de apoyo a la flotilla, que también, sino de apoyo a Palestina.
Yo me apunté a la flotilla para luchar por cosas muy básicas, como es la democracia, como son los derechos humanos, como es la libertad, o sea, para luchar contra el fascismo. Y el fascismo ahora está en Palestina, por parte del Estado sionista de Israel. Y estoy muy ilusionado porque los miembros de la flotilla, que es gente muy variada, de casi 100 países del mundo, gente joven, gente mayor, hombres, mujeres, gente de todo tipo y de toda procedencia.
Y es muy bonito ver que se está construyendo una organización internacional que va más allá de la lucha por Palestina. Digamos que la lucha por Palestina es el detonante, pero que se está convirtiendo en un movimiento antiimperialista y anticolonial en todo el mundo. Y entonces aquí ninguna lucha nos va a ser ajena, como la flotilla que estuvo en Cuba hace unas semanas y cualquier otra acción que ayude a luchar contra el imperialismo. Y esto es lo bonito del movimiento, porque va más allá de la flotilla; es un movimiento global anticapitalista, antiimperialista y anticolonialista.
Todos aquellos que no tenemos la oportunidad de participar directamente en la flotilla, ¿cómo podemos participar de otras maneras en este movimiento global?
No es cierto que no estéis participando. Haciendo esta entrevista ahora quiere decir que estás participando en la flotilla. Y en la flotilla no viajamos mil personas o más de mil personas, sino que viajamos millones, porque esto no sería posible sin los millones de personas que en tierra hacen posible que esta flotilla zarpe. Con lo cual todos vosotros y todas vosotras navegáis con nosotros.












































































