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A memória e o olhar: teatro, Comum e artes sob assédio

A memória e o olhar dançaram juntos ao ritmo de uma cumbia japonesa no Cideci/Universidad de la Tierra, neste último dia do Semillero “As artes sob assédio”. O extraordinário grupo musical Xaolin Wolf preparou o corpo e o coração coletivo para as reflexões que viriam, insuflando vida e alegria.

As reflexões daquele dia girariam em torno do teatro, mas, por meio dele, em torno da vida de maneira mais ampla. E, nesse sentido, a memória como resistência e fundamento da comunalidade e o olhar como abraço e como reconhecimento da singularidade das partes na pluralidade do todo estiveram sempre presentes.

“É a memória o que define o ser humano”, disse o Capitão Marcos. É ela que sustenta a comunidade. E a humanidade é comunidade, embora o sistema-mundo em que vivemos insista em destruí-la justamente por meio do esquecimento.

Capitão Insurgente Marcos (Baixe o áudio aqui)

Quando falamos de memória, diz o Capitão, não nos referimos apenas ao ato de lembrar, mas também a contextualizar as lembranças. É dessa contextualização das lembranças que surge o olhar: uma forma particular de ver o mundo e os outros seres, fincada na memória e que constrói o indivíduo e o coletivo.

Quando nos lembramos do Sup Pedro, por exemplo — disse o Capitão —, nós o trazemos de volta, curamos suas feridas de bala, curamos a cicatriz de calibre 30 de carabina em sua bochecha e lhe damos seu café amargo e seu maço de cigarros. E não falamos, apenas nos olhamos; isto é, nos abraçamos.

A comunidade também se constrói e se alimenta por meio do olhar. Mas não de qualquer olhar e, certamente, não do olhar único que se impõe sobre os demais. O olhar que importa, aquele que constrói comunidade, é “aquele que abraça a pródiga pluralidade da vida” e, nela, a particularidade de quem é olhado.

O Capitão citou a obra Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello, na qual, em meio a um ensaio teatral, seis desconhecidos chegam explicando que são personagens de uma história inacabada e que procuram um autor que complete sua história. “Essa peça de teatro representa a reivindicação do olhar”, disse o Capitão, pois os personagens sabem “que é a arte o que lhes permitirá ser olhados”.

O olhar, esclareceu, não é um privilégio da visão, mas do coração. Quem olha ama, pois o amor nasce da surpresa de olhar. Mas o amor é incompleto se aquele que é olhado não sente esse olhar, “não percebe o abraço que todo olhar deve oferecer”.

Por isso vamos à Cidade do México, para fazer saber aos grupos, coletivos e coletivas de mulheres que buscam seus desaparecidos que nós as vemos, e para confirmar a nós mesmos que elas sabem e sentem isso.

Teatro comunitário: memária, olhar e o Comum

Esmeralda Aragón (Baixe o áudio aqui)

Esmeralda Aragón começou nos sacudindo com memória e olhar, ao ler para nós um texto sobre sua mãe. Autodidata, mulher de luta, sem estudos formais, mas com profundos saberes, parte de uma linhagem de “gerações de mulheres que não pisaram nas salas de aula”, mas que “sabem de tudo”. “Minha mãe sabe de teatro, embora nunca tenha pronunciado a palavra”, pois, nos momentos difíceis, sabe sorrir e contagiar com seu sorriso. “Minha mãe é verdade.”

O Capitão havia nos dito que são a memória e o olhar que sustentam a comunidade. Esmeralda nos mostrou, então, que o teatro comunitário só pode existir fundamentado na memória e no olhar.

Vamos viajar. Outubro de 2018. Em uma pequena comunidade da região chontal baixa de Oaxaca, os habitantes se preparam para assistir a uma peça de teatro, sem saber exatamente o que pode ser isso de “teatro”. Mas chove, e o evento terá que ser cancelado. Não, decidem os pais e mães dos alunos da escola primária, e chegam ao quintal da casa de Esmeralda com lonas, areia para as poças d’água, mais lonas para cobrir o chão e cadeiras emprestadas da escola. E então o espaço vai se enchendo, e é preciso trazer mais cadeiras, e depois mais, até que mais de 800 pessoas se amontoam para assistir a sabe-se lá o quê.

E então algo extraordinário acontece. A peça é memória e é olhar. É, ao mesmo tempo, espelho e luneta. Nela, a comunidade se reconhece. Ri, chora e reflete. Olha para seu cotidiano e, ao olhá-lo, contextualiza a memória. Depois, o cotidiano se rompe e acontece um feminicídio, um terremoto, um ecocídio, a busca por uma filha que todas e todos choram. Laços afetivos se estreitam, vive-se no coletivo. E, ao final da peça, dançam até as três da madrugada.

O que foi arrecadado é utilizado para reconstruir a escola, destruída pelo terremoto de 2017, diante do qual nenhuma instituição decidiu agir.

Teatro comunitário é isso, nos diz Esmeralda. Não aquele que vem de fora uma vez por ano para levar “cultura” ao povoado, como se ele não tivesse a sua própria; não aquele que impõe um olhar externo que se presume universal e ignora o olhar próprio; não aquele que ignora a memória, a deixa de lado, a menospreza.

“Garota danada”, disse-lhe uma tia depois da apresentação, “você não sabe o que acabou de fazer. Está fazendo a gente se tornar gente”.

Pois o olhar externo, o olhar único, o olhar que hegemoniza e homogeneíza tudo, nos diz que, para ser “alguém”, é necessário deixar de ser comunidade. Sair, se afastar, esquecer e desaprender o olhar.

O olhar que é espelho e luneta também serve para semear sementes de outros mundos possíveis. Hoje, o povoado tem um encontro chamado Encontro Nacional de Teatro El Coyul, que já apresentou centenas de espetáculos em quadras, parques, feiras, escolas e outros espaços. Teatro comunitário construído em comum. Teatro no qual a comunidade se olha e que também lhe permite olhar o mundo a partir de seu próprio lugar. E teatro que permite ao mundo olhar não apenas para a realidade dessa pequena parte do todo que é El Coyul, mas também olhar para si mesmo com um outro olhar.

Paisagens

Por meio da experiência do coletivo “Línea de Sombra”, fundado há 33 anos, Jorge Vargas e Eduardo Bernal nos apresentaram um panorama composto por dez “paisagens” — olhares — que, de alguma forma, contribuem para responder às duas perguntas que eles se fazem: Que contas o teatro presta? É possível encontrar gestos de vida em contextos de violência?

Jorge Vargas e Eduardo Bernal (Baixe o áudio aqui)

Auto-retratos na Cidade das Mulheres. Não muito longe de Cartagena das Índias, na Colômbia, existe um bairro com 98 casas construídas pelas próprias mulheres deslocadas pela violência, que se organizam em torno de projetos de educação, saúde, justiça e outros. Ali realizou-se uma oficina de “auto-retrato”. Mas um menino fez um retrato da menina que estava à sua frente, e ela fez um retrato dele. Corrigiram as crianças e explicaram o que é um auto-retrato. Mas elas contestaram: fazer um auto-retrato é impossível porque ninguém consegue ver a si mesmo. É necessário o olhar de outra pessoa para saber quem nós somos.

Guardar silêncio para sobreviver. Em um dos países mais perigosos para exercer o jornalismo, o silêncio é uma forma de sobreviver. Levar ao teatro a palavra de jornalistas que compartilham memória e olhar é uma forma de fazer reviver a palavra silenciada.

Habitar o espaço da desolação. Uma colaboração de dois anos com o jornalista Carlos Manuel Juárez, diretor do Elefante Blanco, e Graciela Pérez, buscadora que lidera a Milynali Red, revela que “buscar em campos de extermínio implica um encontro com um mal inimaginável”. Mas também que, ali, “em meio ao horror, encontram-se as razões que nos fazem saber que a vida importa”. A busca é também, apesar de tudo, uma forma de esperança.

Eu não sou mais ninguém, eu não existo mais. Foi o que disse o ex-boxeador Mantequilla Nápoles em entrevista ao jornal La Jornada, em 2019. Inspirados em um conto de Cortázar, “A noite de Mantequilla”, foram a Ciudad Juárez procurá-lo. Descobriram que Mantequilla Nápoles não podia dizer muita coisa, pois sofria de Alzheimer. E, no entanto, a convivência superou em muito o conto de Cortázar. “É como uma declaração de amor a uma cidade em ruínas”, diria um espectador sobre a obra resultante, “Baño Roma”.

Paisagem do êxodo. Em 2009 teve início o projeto “Amarillo”, obra que durou 12 anos e acompanhou os diferentes momentos do êxodo migratório nesse período. Mas o processo também envolveu explorar e intervir nos espaços de tensão entre migrantes, abrigos e as comunidades onde eles se encontram. Assim, construíram um nicho religioso em Tenosique, um forno de pão no abrigo de Ixtepec, uma capela para a despedida de migrantes em Altar, Sonora, entre outras coisas.

Uma bomba de sementes. Cerca de vinte meninas e meninos misturam terra com sementes em um abrigo para migrantes em Tapachula e, com isso, constroem bombas de sementes, que lançam sobre a terra revolvida onde será a futura horta comunitária, semeando assim vida e esperança em meio à violência.

As zonas interditadas e o monte de terra. A última imagem que o público vê é um monte de terra e grama morta suspenso no ar, do qual pendem centenas de fios com peças de barro amarradas, sob os quais é possível caminhar. “Obrigada”, disse Graciela, que busca cinco membros de sua família desaparecidos em agosto de 2012, “porque você me permitiu caminhar onde me impediram de ver”.

Alicia não pode cavar a terra. Não pode porque sua mãe foi lançada ao mar. Na obra “Vuelos nocturnos sobre un mar sin fondo”, Alicia conta a história de sua mãe, Alicia, e, por meio dela, a história da guerra suja e dos infames voos da morte. “Narrar a vida da minha mãe é um ato de gratidão”, diz Alicia, “que corresponde à sua ousadia de me dar à luz em meio à guerra”.

As imagens e a névoa histórica. São a contingência, a imprecisão e a incerteza que impulsionam todos os trabalhos da Línea de Sombra. Fragmentos de experiências próprias e alheias são o que lhes permite “transitar pela névoa histórica na qual hoje se produzem as imagens”.

Cidade sitiada. Em 2008, a Mostra Nacional de Teatro foi realizada em Ciudad Juárez, quando a guerra de Calderón mantinha a cidade sitiada: exército e forças federais, tanques, bloqueios, medo, paralisia. Ninguém saía de casa. E, no entanto, os moradores de Juárez compareceram em massa ao teatro. O teatro se tornou, assim, um “bálsamo para curar as feridas de uma cidade sitiada”.

Descolonizar o olhar, resistir ao esquecimento

Um acontecimento, disse Hernán del Riego, é algo que rompe com o estabelecido, que irrompe e revela algo que antes sequer podia ser nomeado. Marca o início, disse ele, de um “processo de verdade”. Assim foi o levante zapatista; assim é a arte.

Hernán del Riego (Baixe o áudio aqui)

Como acontecimento, a arte também é pensamento crítico. Mas o pensamento crítico é frequentemente eurocêntrico. Os pensadores europeus e estadunidenses, disse ele, esqueceram-se de um pequeno detalhe: o resto do mundo. É por isso que se torna necessário descolonizar o pensamento crítico.

Colonização e colonialidade não são a mesma coisa. A colonização foi um acontecimento histórico; a colonialidade permanece. Ela está nas hierarquias econômicas, raciais, culturais e do conhecimento. Está no olhar. E está no esquecimento.

Descolonizar-se implica recuperar a capacidade de pensar, nomear e criar a partir do próprio território. Implica recuperar línguas, memórias, saberes comunitários e formas próprias de compreender o tempo, a natureza e a vida coletiva. Implica olhar para o mundo entendendo que nossa humanidade é um pluriverso, e não um universo. Implica colocar a comunidade no centro, e não o indivíduo. Colocar no centro a responsabilidade comunitária e a interdependência.

Não se trata de idealizar um passado pré-colonial, mas de transformar a ferida em memória ativa. E construir futuros próprios a partir dessa memória e desse olhar.

Mas também significa abraçar a contradição. É preciso “recuperar o que for possível, buscar o que se tem, ir aonde se intui”, a partir do próprio ser… que é colonizado. Uma forma de abraçar a contradição é “estar mepantla”: esse conceito dos primeiros povos conquistados que significa estar no meio, não ser nem uma coisa nem outra. “Digerir o colonialismo”, como diria Silvia Rivera Cusicanqui. Como também propôs o movimento antropofágico do Brasil.

E, falando de pedagogias descoloniais, referiu-se ao seu projeto “La bola”: “um cancioneiro para resistir ao esquecimento”. O projeto consiste em intervir em canções. Por exemplo, em Ciudad Juárez, testemunhou como, em tempos de violência extrema, um rapaz foi expulso de um parque pelas mães. “Não tenho nada”, diz uma canção de Nina Simone, “o que tenho?”. Tenho esse rapaz dentro de mim, disse Hernán a si mesmo, tenho sua voz, sua vida. Assim, decidiu intervir nessa canção de Nina Simone, incorporando inclusive Ayotzinapa.

E encerrou compartilhando conosco sua intervenção no tradicional son jarocho El Balajú:

Se você foi enganado, venha.
Se não entende mais nada, venha.
Se é um incrédulo, um enganado,
se foi derrotado sem ter perdido, venha.
Se é um irreverente, perguntador,
um provocador incorrigível,
se continua sem acreditar que foi como dizem que foi
e você sabe que não foi assim, que não foi assim, pois.
Se você encontrar muitos outros, muitas outras, muitos mais,
muitos outros que, como você, sabem que sabem, venha.
Venha aqui e escute.
Venha e fique.
Venha e me ajude a chegar à lua,
venha e me ajude a chegar ao mar,
que já estou louco para chegar.

Fotos: Juana Machetes para RZ

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Ensaiar o dia depois: teatro, Comum e artes sob assédio

A manhã começou imaginando que o capitalismo já havia terminado.

Em uma quadra do CIDECI-Unitierra, sob o céu aberto de San Cristóbal de Las Casas, jovens zapatistas começaram a ocupar o espaço enquanto outras pessoas observavam ao redor. Algumas permaneciam de pé, outras sentadas ou de joelhos. De um lado, uma fila de milicianas e milicianos observava em silêncio. No centro, surgiram faixas sustentadas por longos bastões de madeira.

“Governo em comum”.

“Regulamento da comunidade”.

“Não ao roubo”.

“Não aos maus-tratos contra a mulher”.

“Não à propriedade / Sim ao Comum”.

“Comunidade que se organiza em comum”.

E uma faixa muito maior que as demais:

“Todas e todos somos sobreviventes do que era o capitalismo, e agora nos organizamos sem ele”.

Os corpos se ajoelharam, levantaram-se, estenderam os braços, caminharam em diferentes direções, formaram grupos, dispersaram-se e voltaram a se encontrar. Em determinado momento, dezenas de braços se elevaram simultaneamente, transformando o que parecia um conjunto caótico de movimentos em uma onda. Depois, a onda se organizou.

Aquilo era um ensaio de teatro. A pergunta que começava a tomar forma na quadra era bem maior: como se ensaia uma sociedade que ainda não existe?

O futuro representado ali tinha regulamentos, assembleias, acordos, problemas, cuidados e conflitos. As faixas falavam de propriedade, violência contra as mulheres, roubos, crianças órfãs, vícios e formas de governo. O dia seguinte ao capitalismo aparecia longe de uma imagem serena da utopia. Era preciso organizá-lo.

Horas mais tarde, durante a jornada dedicada ao teatro dentro do Semillero Las artes bajo acoso, aquela experiência atravessaria praticamente todas as intervenções. Pela mesa passaram o Subcomandante Insurgente Moisés, Luis de Tavira, Marina de Tavira, Diego del Río, David Gaytán e Ofelia Medina, enquanto a Comissão Sexta acompanhava uma conversa que voltava repetidamente ao mesmo problema: o que acontece quando o teatro deixa de se limitar a imaginar outro mundo e começa também a ensaiar as relações necessárias para construí-lo.

A obra antes da obra

O Subcomandante Insurgente Moisés começou explicando algo que nós, que assistimos a uma obra pronta, dificilmente conseguimos perceber.

“O teatro que fazemos é feito em comum”, disse.

Subcomandante Insurgente Moisés (Baixe o áudio aqui)

O processo começa quando coordenadores e coordenadoras de arte e cultura dos doze Caracoles se reúnem em torno de um tema. Surgem muitas ideias. Elas são discutidas. São organizadas. Elabora-se um primeiro rascunho de cenas e movimentos. Depois chegam atores e atrizes vindos dos Caracoles, e aquilo que parecia resolvido volta a se abrir.

As novas pessoas propõem outros movimentos, objetos, formas de representar, palavras e ações. A obra volta a mudar. Segundo explicou Moisés, “vai surgindo em comum a ideia de como vamos encená-la”. Depois, cada grupo retorna ao seu Caracol. Pratica. Corrige. Treina. Comunica-se com os demais. E, finalmente, os doze Caracoles voltam a se reunir para juntar as partes e continuar ensaiando “até dar certo”.

Moisés usou uma expressão muito menos solene para descrever o método com que começaram a fazer teatro: al romplón. Bora, vamos ver no que dá.

A frase, no entanto, poderia enganar. Por trás dessa aparente desordem existe uma enorme estrutura de coordenação: centenas de pessoas, diferentes regiões, deslocamentos, ensaios locais, comunicação entre grupos, materiais que cada participante desenha e constrói, correções sucessivas e uma ideia que precisa conseguir reunir todas essas diferenças.

A organização antecede a cena. E continua dentro dela.

Moisés insistiu ainda em algo decisivo: ele também não desenha os figurinos, os objetos ou cada movimento. “São eles, são elas” quem os criam. Mesmo quando lhe perguntaram como chamar sua própria função, a palavra diretor pareceu grande demais ou talvez vertical demais. Entre brincadeiras, surgiu outra possibilidade: “pensamento orientador”. Sua tarefa, explicou, consiste sobretudo em coordenar tempos, reuniões e grupos. “Os que fazem são eles, são elas”.

Nessa engrenagem coletiva também foram construídas as duas partes de um mesmo problema teatral. “O tema é um só, mas se divide em dois”, explicou Moisés. Primeiro, o Comum. Depois, o dia seguinte, quando “já não existe o sistema capitalista”. O teatro zapatista começa, então, por uma pergunta política e organiza corpos para torná-la visível.

Do “romplón” à técnica

A presença de Luis de Tavira naquela manhã introduziu outra camada no processo.

Moisés contou que o mestre havia compartilhado com eles “método, forma, técnica”: como evitar que o ator permanecesse como uma estátua, como se expressar, como fazer com que uma ação fosse compreensível para quem observa. Essas ferramentas foram recebidas a partir de um lugar muito concreto: as comunidades já sabiam o que queriam dizer.

“A única coisa que sabemos é que vamos mostrar aquilo que pensamos, aquilo em que acreditamos”, explicou.

Ali aconteceu um dos encontros mais férteis de toda a jornada. De um lado, décadas de experiência teatral. Do outro, uma prática comunitária construída sem escola formal de atuação e sustentada por centenas de jovens de diferentes comunidades. A técnica circulou sem deslocar o processo coletivo que já existia.

À noite, Tavira ainda parecia atravessado por aquela experiência. Agradeceu várias vezes antes de conseguir começar sua reflexão e reconheceu estar profundamente comovido com o trabalho compartilhado. Falou de cerca de 240 participantes na obra que acabara de assistir e lembrou outra experiência anterior de teatro zapatista, na qual havia encontrado cerca de 500 pessoas em cena. Mais do que o número, impressionava-o a possibilidade de realizar um teatro multitudinário sustentado, ao mesmo tempo, pela exigência e pela busca artística.

Luis de Tavira (Baixe o áudio aqui)

A relação entre aprender e ensinar havia saído do lugar.

De fato, desde a abertura da mesa, falou-se de uma “reunião conspiratória de teatrólogos” ocorrida em outro canto do CIDECI, onde os papéis de mestre e aprendiz mudavam continuamente.

Talvez isso explique uma das coisas mais interessantes do que aconteceu naquela manhã: ninguém saiu ileso do ensaio.

Pensar fazendo

Luis de Tavira retomou uma inquietação que havia surgido durante suas conversas com Moisés. Pensar é necessário. Fazer também. Para Tavira, o teatro acontece justamente nessa relação: é fruto do pensamento e, ao mesmo tempo, realização do pensamento. Ali surgiu o problema que atravessaria boa parte da noite. A ficção pode imaginar um mundo diferente. O desafio é a realidade. Moisés havia formulado essa inquietação durante os intercâmbios anteriores: tudo bem imaginá-lo, mas como aquilo que é representado passa para a vida?

Tavira respondeu voltando a uma das origens ocidentais do teatro. Lembrou como a tragédia grega imaginou uma saída para o ciclo interminável da vingança, sangue que chama mais sangue, por meio de outra possibilidade de organização coletiva. Seu argumento conduzia a uma afirmação deliberadamente forte: o teatro tem intervindo historicamente nas formas nas quais as sociedades imaginam a si mesmas.

“O teatro muda a história”, afirmou.

A afirmação adquire outro sentido diante de uma obra que imagina sobreviventes se organizando depois da catástrofe capitalista. Para Tavira, o teatro também é um mirante: um lugar de onde observar a vida por meio de corpos presentes. A história conta aquilo que aconteceu alguma vez; o teatro pode interrogar aquilo que continua acontecendo.

E daí chegou a uma formulação que desloca radicalmente a centralidade da própria obra: “A verdadeira obra de arte é a sociedade”.

O palco importa porque pode tornar visível algo que ainda não possui uma forma completa na realidade. O futuro aparece, então, como acontecimento aberto. “A esperança não é otimista”, disse Tavira. É uma “espera atenta pelo que ainda não se sabe que vai acontecer”.

Juntar as diferenças

Entre a intervenção de Luis e a de Marina, o Capitão Marcos voltou ao que havia observado nos ensaios zapatistas. O que via, contou, inicialmente parecia uma bagunça. Grupos separados. Cada um trabalhando por conta própria. Pessoas corrigindo umas às outras. Nenhuma figura central percorrendo o espaço para ditar cada movimento. Aquilo lhe parecia particularmente estranho vindo de uma formação militar, na qual existem comando e obediência.

Capitão Insurgente Marcos (Baixe o áudio aquí)

Os e as jovens que faziam teatro, observou, cresceram em assembleias e reuniões comunitárias. Essa experiência reaparecia quando criavam: cada grupo se autogerenciava e, posteriormente, as partes conseguiam se encontrar. “Não há uma voz que se imponha ou que mande”.

Marcos lembrou ter sentido a mesma incerteza ao assistir anteriormente aos ensaios de Bichos. Não conseguia compreender como tantos fragmentos independentes poderiam se transformar em uma obra. Até que a viu completa. Então aquilo que estava disperso encontrou uma forma comum. Para ele, a potência estava justamente ali: “ter conseguido construir essas diferenças em um coletivo, isso é uma arte”. Talvez o teatro zapatista estivesse mostrando algo antes mesmo de começar a representação. A obra podia falar do Comum porque sua própria construção obrigava a praticá-lo.

Uma trincheira contra o intolerável

Marina de Tavira havia chegado com um texto preparado. Quase desde o início, confessou que, depois do que havia vivido naquela manhã, já não sabia muito bem como lê-lo. Havia escrito o texto a partir de certo desalento. Depois de conviver, ensaiar e assistir às apresentações dos jovens zapatistas, a sensação era outra: alegria.

Marina de Tavira (Baixe o áudio aqui)

O que encontrou naquela cena foi uma forma de presença e coletividade que confrontava algumas das coisas que o teatro profissional costuma proclamar e que, às vezes, consegue praticar com muito mais dificuldade. Sua reflexão voltou então a uma convicção que a acompanha há décadas: fazer teatro como trincheira contra o intolerável.

O intolerável aparece quando a crueldade começa a se tornar normal. Quando uma imagem de guerra sucede a outra. Quando um corpo desaparecido se transforma em número. Quando a violência perde a capacidade de comocionar.

O teatro pode atuar justamente contra essa anestesia. Colocar um corpo diante de outro. Sustentar o olhar. Tornar difícil desviar-se. Permitir que aquilo que acontece com outra pessoa volte a nos afetar. Mas Marina levou essa pergunta também para aqueles que fazemos arte e para as posições a partir das quais tentamos acompanhar as lutas. Lembrou uma frase que durante anos havia usado para explicar seu trabalho: queria fazer teatro para “dar voz a quem não a tem”.

E então a corrigiu.

“Faço teatro para mudar a mim mesma”, disse. Aquelas pessoas a quem queria dar voz “têm voz, e uma voz muito potente”. A tarefa pode consistir em contribuir para que essa voz reverbere, começando por transformar a própria consciência. A diferença é profunda.

A arte deixa de se colocar diante de outras pessoas como instrumento encarregado de representá-las e começa a perguntar o que precisa mudar em quem olha, escuta, acompanha ou cria.

Ao final de sua intervenção, Marina relacionou essa reflexão às mães que buscam seus desaparecidos e ao país atravessado pelos desaparecimentos. A palavra teatral pode então se transformar em lamento público, denúncia, memória e abraço.

A cena adquire sentido quando abre espaço para escutar uma voz que já existe.

Acompanhar sem apagar

Diego del Río começou praticamente onde Marina havia terminado. Ele e David Gaytán haviam participado, durante a manhã, de uma parte do ensaio com os jovens zapatistas. Diego reconheceu que a experiência de atuar junto com eles, ainda que por alguns minutos, havia modificado sua própria percepção do presente.

Diego del Río (Baixe o áudio aqui)

Eles haviam feito parte da onda. Por um instante, precisaram coordenar seus corpos com muitos outros corpos. Sentir quando se mover. Quando parar. Quando seguir o impulso coletivo. E como fazer parte de uma ação maior sem desaparecer dentro dela. Essa relação reapareceu depois em uma frase proveniente de outra experiência teatral de Diego: “Acompanhar um corpo não significa apagar sua autonomia”.

A frase podia ser ouvida de muitas maneiras naquela mesa.

No teatro, dirigir pode significar acompanhar uma busca e deixar espaço para que quem atua produza algo irredutivelmente próprio. Em uma comunidade, o coletivo pode adquirir forma sem cancelar a singularidade. Em uma relação de solidariedade, acompanhar pode exigir abandonar a pretensão de conduzir aquilo que pertence aos outros.

Diego também falou sobre os rituais teatrais. Entrar. Preparar a atenção. Respirar. Encerrar uma apresentação. Guardar o figurino. Despedir-se do espaço.

O teatro precisa desses limiares porque trabalha com presenças. Algo começa quando vários corpos concordam em prestar atenção à mesma coisa e algo termina quando essa energia volta a se dispersar.

Naquela manhã, a quadra havia funcionado exatamente assim. Sem cortina nem poltronas. Sem uma separação estável entre palco e mundo. O espaço se transformou temporariamente em outra coisa porque centenas de pessoas concordaram em habitá-lo como teatro.

O prazer de se organizar

David Gaytán voltou de maneira ainda mais explícita àquela experiência.

David Gaytán (Baixe o áudio aqui)

Falar de teatro sob assédio, disse, exige voltar de vez em quando a uma pergunta elementar: por que fazer teatro?

A profissão oferece inúmeros motivos materiais para desistir: precariedade, pouco reconhecimento, exposição permanente, uma relação absurda entre o tempo investido e a recompensa econômica. Sua resposta foi pensar o teatro como serviço social. E, a partir daí, falar do prazer. O prazer de uma ideia. O prazer do corpo se expressando. O prazer de se mover junto com outras pessoas. O prazer de se coordenar. O prazer de se organizar.

Quando descreveu a manhã, as fotografias pareciam adquirir movimento outra vez.

David lembrou “o prazer de ser uma onda em estado de caos para depois ser um mar de corpos organizados” que explode quatro vezes em uníssono. Também lembrou algo aparentemente insignificante: discutir onde e qual deveria ser o tamanho dos furos nas faixas, para que o vento não impedisse a leitura das frases.

Ali estava o teatro. Na palavra de ordem e no corpo. No tecido e no vento. Na decisão coletiva sobre como fazer com que uma palavra continuasse visível. David formulou então uma das ideias que melhor explicam o que havia acontecido durante o dia: “Fazer uma peça de teatro é a possibilidade de ensaiar a convivência”.

Ensaiar deixa de significar apenas repetir uma cena até executá-la corretamente. Ensaiar é experimentar relações. Distribuir responsabilidades. Escutar divergências. Resolver erros. Aceitar lideranças temporárias. Corrigir uma decisão. Começar outra vez.

A partir dessa perspectiva, a frase que aparecia pela manhã — “Regulamento da comunidade” — adquire uma densidade diferente. O dia seguinte precisa de regras porque a convivência também precisa ser ensaiada. Outra faixa dizia “Assembleia”. Outra, “Governo em comum”. O futuro se construía ali como verbo. Perto do encerramento, David condensou sua intervenção em várias frases: “É preciso fazer obras que sejam oxigênio”. É preciso provocar e agitar a verdade. E, sobretudo: “É preciso nos organizarmos”.

A alegria de fazer algo que nos transcende

Ofelia Medina tomou a palavra por último. Sua intervenção percorreu boa parte de sua vida entre arte, teatro, dança e organização política. Lembrou a formação artística pública de sua infância, o movimento estudantil de 1968, anos de trabalho com povos indígenas, o levante zapatista e as redes de artistas e da sociedade civil que começaram a se organizar depois de janeiro de 1994. Mas todo esse percurso desembocou em uma afirmação muito simples: “Ser comunidade, ser em comum e agir coletivamente. Isso é o futuro”.

Ofelia Medina (Baixe o áudio aquí)

Ofelia voltou então ao que Moisés tinha explicado no início. Antes de fazer uma obra, as pessoas se perguntam o que estão fazendo e para quê. Depois decidem sobre o que ela tratará. Depois criam.

A prática artística em comum compartilha, assim, algo com outras formas de organização comunitária: começa por produzir acordos em torno de uma necessidade ou de um desejo. Diante de uma ideia de arte organizada em torno do indivíduo excepcional, da assinatura, do sucesso e do mercado, Ofelia defendeu outra experiência: criar com outras pessoas, discutir, até mesmo brigar, resolver e continuar. Ao final, voltou a uma palavra que também havia atravessado as jornadas anteriores: alegria.

“O teatro é um ritual”, disse. Quando perde essa dimensão, corre o risco de se transformar simplesmente em mais uma parte do comércio. E então: “A alegria coletiva é o que se produz aqui”.

A afirmação adquiriu imediatamente uma dimensão política. Ofelia falou do assédio atual, da violência que atravessa o país e do encontro que o zapatismo vem propondo com coletivos de mães, mulheres e homens que buscam seus desaparecidos. Esse encontro faz parte dos objetivos anunciados pela Comissão Sexta para sua viagem à Cidade do México: escutá-los, tornar-se eco de suas demandas e levar-lhes o abraço coletivo dos povos zapatistas.

A alegria de que se falava naquela noite estava longe de ser uma fuga. Era a possibilidade de continuar produzindo comunidade em um mundo que trabalha constantemente para rompê-la.

Ensaiar o dia seguinte

Pela manhã, uma faixa havia afirmado algo que ainda era impossível verificar: “Todas e todos somos sobreviventes do que era o capitalismo, e agora nos organizamos sem ele”. O capitalismo estava escrito no passado. Ao redor, centenas de jovens começavam a construir o futuro com seus corpos. Havia assembleia. Cuidados. Problemas. Autogoverno. Violências que precisavam ser enfrentadas. Uma discussão sobre a propriedade. Pessoas que precisavam chegar a acordos. Aquilo que aparecia na quadra podia ser entendido como uma ficção. E justamente por isso podia funcionar como ensaio. A ficção permite colocar um corpo diante de uma pergunta antes que exista a resposta.

Moisés havia explicado que é assim também que suas obras são construídas: surge uma ideia, ela é discutida, experimentada, viaja aos Caracoles, recebe novas contribuições, é corrigida, retorna e volta a ser ensaiada. O dia seguinte parecia seguir o mesmo método.

Tavira pensou nisso como uma possibilidade ainda desconhecida.

Marina encontrou ali uma forma de presença capaz de transformar primeiro quem participa.

Diego falou sobre acompanhar corpos preservando sua autonomia.

David sentiu uma onda caótica se transformar em um mar organizado.

Ofelia nomeou a alegria de produzir algo coletivamente.

E o Capitão Marcos observou algo talvez mais difícil de perceber de longe: uma obra feita por grupos que pareciam dispersos podia adquirir forma sem que uma única voz precisasse se impor sobre todas as demais.

A cena daquela manhã continha, então, algo mais do que uma representação do futuro. Era uma prática do presente. Eles se corrigiam. Voltavam a começar, desta vez todos juntos.

Talvez o dia seguinte se pareça menos com uma imagem acabada do que com aquele ensaio. Uma comunidade perguntando a si mesma como quer viver. Experimentando e errando. Corrigindo. Discutindo e voltando a se organizar.

Luis de Tavira havia dito algumas horas antes que a esperança consiste em esperar atentamente aquilo que ainda não sabemos.

Na quadra, enquanto os corpos se moviam sob uma faixa onde o capitalismo já pertencia ao passado, essa espera deixara de ser imóvel.

Durante alguns minutos, o futuro ensaiou-se.

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Radio Zapatista

Corpos que dançam sob assédio

Atrás da mesa, várias gerações zapatistas escutam. Os pasamontañas negros e os paliacates vermelhos se recortam sobre enormes faixas que falam de resistências, rebeldias, espoliação e guerra. Do outro lado, as cadeiras do auditório do CIDECI-Unitierra estão praticamente ocupadas. Há pessoas vindas de diferentes geografias, gerações e lutas. Em meio a tudo isso, uma pergunta aparentemente simples começa a se complicar: o que significa dançar quando os corpos, as artes e a própria vida estão sob assédio?

Na tarde de 18 de agosto, o Semillero As artes sob assédio deu início com a primeira sessão dedicada à dança, com as participações de Hugo Molina, de Foramen Danza; Susana Ponce, de Sentires Colectivos en Movimiento; Argelia Guerrero, de Otra Danza es Posible; e da Comisión Sexta-Ala Comando Palomitas. A dança seria apenas o primeiro movimento de vários dias dedicados também ao cinema e ao teatro.

Mas, antes de falar de corpos que dançam, surgiu outra questão: o olhar.

O Capitão Marcos chamou a atenção para uma fotografia assediada simultaneamente pela inteligência artificial, pelas transformações tecnológicas e por uma cultura visual produzida pelas redes sociais, na qual olhar parece significar consumir cada vez mais imagens em cada vez menos tempo. Diante dessa velocidade, reivindicou um olhar atento, ainda capaz de se deter naquilo que acontece diante de nós.

Para explicar isso, voltou vinte anos no tempo, à Outra Campanha. Um fotógrafo tinha registrado o momento em que um cavalo derrubou o então Subcomandante Marcos. Decidiu guardar a fotografia porque considerou que ela poderia ser utilizada para difamar o movimento. No entanto, havia outra sequência: Marcos se levantava, sacudia a poeira e voltava a montar para continuar o percurso. O problema, lembrou agora o Capitão, era que, para aqueles que decidem quais imagens circulam, “o que importava lá em cima era a queda, não a persistência”.

Capitão Marcos (Baixe o áudio aqui)

A frase ficou pairando durante uma jornada que, de diferentes formas, falaria justamente sobre isso: sobre corpos que caem, são disciplinados, precarizados, racializados, violentados ou excluídos, mas que, apesar de tudo, encontram maneiras de persistir.

A terna fúria também se dança

Hugo Molina começou a partir de uma memória que um dia foi dança: uma carta dedicada à companheira Conchita, “a Girafa do Amor”. Do “bairro bravo” de Tepito, na Cidade do México, surgem o trabalho, a migração, as moradias coletivas, a maternidade, os ofícios, as resistências e a dança. Uma biografia popular na qual a dança se mistura às lutas, até tornar difícil distinguir onde termina uma e começa a outra.

Daí surgiram perguntas que atravessaram o salão: como traduzir a terna fúria em movimento? Como dançar a dor? Como saltar a raiva? Para Molina, perguntar-se sobre a dança a partir destas montanhas implica também desconfiar de uma definição ocidental que reduz dançar a uma sucessão ritmada de movimentos. Como a dança é nomeada e vivida nas diferentes línguas e pelos diferentes povos?, perguntou, deslocando o olhar das academias para as geografias onde os corpos constroem outras relações com o movimento.

Nas cidades, lembrou, existem as danças de rua e operárias: cumbia, rumba, salsa, danzón, rock e outras músicas atravessadas por presenças afro-caribenhas e por culturas populares que transformam a rua e o salão em espaços de convivência, identidade e comunidade. Ali também aparecem a vigilância e a criminalização. A esse mapa somam-se as instituições profissionais, as companhias, as escolas e os mecanismos de financiamento que vão construindo suas próprias hierarquias sobre quem pode dançar, qual corpo merece ocupar o palco e quais formas de dança recebem reconhecimento.

O assédio tem, então, uma materialidade corporal. Molina falou do ideal persistente de corpos longos, magros e brancos, da competição, do classismo, além da violência psicológica e do assédio sexual que atravessam especialmente a formação profissional. O corpo de quem dança pode se tornar simultaneamente objeto de admiração, mercadoria e território sobre o qual outros exercem poder.

Hugo Molina – Foramen Danza (Baixe o áudio aqui)

Diante disso, a pista de dança também pode se transformar em outra coisa. Para Hugo, dançar uma boa cumbia depois de uma marcha, uma assembleia ou um semillero constitui uma declaração política: a organização e a rebeldia também precisam de alegria.

Onde meu corpo pode estar?

Susana Ponce colocou o corpo ainda mais diretamente no centro.

Filha de migrantes de Veracruz e Oaxaca, cresceu na colônia Buenos Aires, na Cidade do México, e encontrou desde criança a dança nas festas populares do bairro. Depois vieram as instituições. Durante anos, prestou exames para ingressar em espaços de formação em dança clássica e contemporânea e encontrou repetidamente a mesma mensagem: havia algo em seu corpo que “não encaixava”.

Dessa experiência surgiram perguntas que mais tarde se transformariam em uma posição política: onde meu corpo pode estar? O que ele pode fazer? Que lugar ele tem permissão para ocupar?

Susana Ponce – Sentires colectivos en movimiento (Baixe o áudio aqui)

Susana propôs pensar o corpo como primeiro território e olhar criticamente para as pedagogias da dança que buscam uniformizá-lo. O problema, esclareceu, não está necessariamente em aprender técnicas, mas nas relações de poder por meio das quais determinadas corporalidades se estabelecem como medida para todas as demais. Corpos altos, magros, atléticos, flexíveis e de pele clara acabam funcionando como ideal diante do qual outros corpos são classificados como insuficientes.

A coreografia pode reproduzir a mesma lógica quando uma pessoa decide de cima quem participa, onde se movimenta, qual sequência executa e durante quanto tempo. O bailarino passa então a ser reduzido a um executante: um corpo que obedece e serve como matéria-prima de um produto final.

Mas o movimento também pode romper essa relação.

A partir do Sentires Colectivos en Movimiento, Ponce propôs compreender a dança como processo de luta. O centro deixa de estar exclusivamente na obra finalizada e se desloca para o processo: corpos que decidem, exploram, refletem e produzem coletivamente o movimento. Surge então outra pergunta: o que podem fazer os corpos-territórios diante daquilo que pretende determinar o que eles devem ser?

Um corpo se estende sobre o chão verde do CIDECI. Tecidos negros saem de suas mãos e terminam presos a pedras. O movimento se transforma em tensão material: corpo, peso, território, limite. Ao lado, um celular registra a cena. A imagem digital volta a entrar dentro da imagem, como se as perguntas formuladas no início da noite sobre como olhamos retornassem agora de outro lugar.

Dançar em um país de corpos desaparecidos

Então a conversa adquiriu outro peso.

Durante seus processos de criação, Susana Ponce encontrou uma pergunta que a obrigou a repensar sua própria prática: o que significa uma arte do corpo em um país de corpos desaparecidos?

A pergunta não permite procurar refúgio na autonomia da arte.

No México, os cartazes de busca ocupam paredes, postes, redes sociais e espaços públicos, até correrem o risco de se tornar parte naturalizada da paisagem. Por trás de cada um deles existe uma pessoa e uma rede de familiares que precisou aprender a buscar, rastrear, escavar, reconhecer territórios e enfrentar instituições que muitas vezes abandonam essa tarefa.

A dança começou então a acompanhar essas ausências.

Sem rostos, sem nome nem voz recupera a memória de corpos desaparecidos encontrados em rios e canais; Indícios de ausência dialoga com as mães bordadeiras e com Huellas de la Memoria; Nossos corpos desaparecidos tenta devolver espaço e volume aos cartazes de busca; e Você os viu? elimina até mesmo a separação convencional entre intérpretes e espectadores, para impedir que aqueles que estão presentes permaneçam alheios ao que acontece.

A busca artística encontra aqui um limite ético: olhar para o outro lado se torna impossível.

De repente, aquela discussão inicial sobre o olhar adquire outro sentido. O problema já não consiste apenas em quantas imagens consumimos ou naquilo que uma inteligência artificial pode fabricar. Está também nas imagens reais que aprendemos a deixar de olhar: os rostos que se acumulam nos cartazes, os nomes, os corpos que estão ausentes.

A dança como ofício de teimosas e teimosos

Argelia Guerrero levou a discussão para as condições materiais que permitem ou impedem que esses corpos continuem dançando.

Partiu de A sagração da primavera, de Alejo Carpentier, e de uma bailarina que, ao longo do romance, deixa de compreender sua prática unicamente como execução estética para se deparar com a história. Para Guerrero, essa transformação contém uma pergunta inevitável sobre o lugar do artista no mundo: olhar para o movimento implica também pensar a história e imaginar o futuro.

Mas qualquer romantização sobre “viver da arte” se desfaz quando olhamos para as condições de trabalho.

Há poucas companhias capazes de oferecer alguma estabilidade, a idade limita violentamente as trajetórias, os fenótipos e a cor da pele continuam funcionando como critérios de exclusão, e boa parte daqueles que trabalham de forma independente não tem seguridade social. Uma lesão pode se transformar imediatamente em uma catástrofe econômica. Manter o corpo — a ferramenta e, ao mesmo tempo, o território de trabalho —exige treinamento constante, tempo e recursos que muitas vezes saem do próprio bolso.

Também aqueles que criam dependem frequentemente de bolsas, editais e subsídios que condicionam tempos, linguagens e temas. No entanto, a precariedade não conseguiu deter a criação. “E, no entanto, nos movemos”, foi uma das ideias que articulou sua intervenção.

Aí aparece outra forma de persistência.

Argelia Guerrero – Otra Danza es posible (Baixe o áudio aqui)

Guerrero insistiu que democratizar a dança significa muito mais do que multiplicar atividades institucionais ou encher praças com aulas coletivas. Significa reconhecer diferentes corporalidades, histórias e territórios e, sobretudo, escutar as comunidades antes de decidir por elas de que arte precisam.

Quando as crianças tomam a palavra

A mesa tinha ainda outras presenças.

Verónica, do Caracol Dolores Hidalgo, disse que estava aprendendo aos poucos; ainda “mais ou menos”, mas se preparando para se apresentar no Caracol Jacinto Canek. Cladys, do Caracol Jacinto Canek, respondeu com a mesma simplicidade: haveria dança e era preciso se empenhar.

Duas pequenas intervenções diante de longas discussões sobre instituições, precariedade, colonialismo, técnica e capitalismo.

E, no entanto, talvez ali também fosse possível observar uma resposta.

Aprender.

Ensaiar.

Apresentar-se.

Continuar dançando.

Comando Palomitas (Verónica e Cladys) (Baixe o áudio aqui)

Nas imagens, meninas zapatistas compartilham a mesa com artistas de várias gerações, enquanto ao fundo permanecem formações de milicianos e milicianas. No mesmo enquadramento convivem infância, arte, organização e a memória de uma história armada. Nenhuma dessas dimensões anula as outras.

O que se vê quando alguém cai

No final, a imagem do cavalo volta.

Uma queda pode ser narrada como derrota.

Também é possível construir uma sequência mais longa: queda, poeira, o corpo que se levanta, volta a montar e continua.

Durante várias horas, as intervenções do Semillero pareceram prolongar involuntariamente aquela fotografia ausente.

Hugo falou de corpos populares que continuam dançando, embora a dança profissional pretenda estabelecer quem merece ocupar o palco.

Susana falou de corporalidades às quais foi dito que não pertenciam e que transformaram essa rejeição em uma pergunta coletiva; de corpos desaparecidos cuja ausência se recusa a desaparecer também da memória.

Argelia falou daqueles que trabalham sem estabilidade nem seguridade social, atravessam lesões, precariedade e políticas culturais institucionais e, ainda assim, continuam criando.

As meninas zapatistas disseram que estão aprendendo e que vão dançar.

Talvez o assédio contra as artes também funcione dessa maneira: pretende decidir quais corpos são válidos, quais movimentos podem realizar, quais imagens merecem circular, quais memórias podem ser preservadas e quais formas de criação recebem recursos, palco e reconhecimento.

Diante disso, persistir assume muitas formas.

Às vezes significa construir coletivamente uma coreografia.

Às vezes, acompanhar aqueles que procuram seus desaparecidos.

Às vezes, defender o próprio corpo como território.

Às vezes, criar sem a segurança de conseguir chegar ao fim do mês.

Às vezes, olhar atentamente para aquilo que a velocidade nos exige esquecer.

E, às vezes, depois de uma assembleia na qual se falou de guerras, desaparecidos, exploração e corpos sitiados, significa simplesmente colocar uma cumbia e voltar a dançar.

Porque talvez seja aí também que comece uma política da persistência: quando os corpos que deveriam permanecer imóveis decidem continuar se movendo.

 

Capitán Insurgente Marcos – Conto “O amor e o desamor segundo Sombra, O Guerreiro (segunda parte)” (Baixe o áudio aqui)

 

radio
Radio Zapatista

Expandir-nos: cinema, Comum e artes sob assédio

Em uma casa de La Paz, Baja California Sur, um quarto podia ficar completamente escuro durante o dia. Bastava fechar as janelas e deixar que um pequeno orifício permitisse a passagem da luz. Don Amado então estendia algumas esteiras no chão, e seus dez filhos se deitavam para olhar a parede.

Do lado de fora, alguém podia passar de bicicleta, uma mulher carregando o pão ou qualquer fragmento da vida cotidiana. Lá dentro, essas mesmas presenças apareciam invertidas e transformadas pela luz.

Era uma câmera escura.

Décadas depois, Dolores Heredia relembrou aquela cena diante de centenas de pessoas reunidas no CIDECI-Unitierra, em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México. Contou que era muito mais emocionante olhar para aquela pessoa projetada na parede do que simplesmente espiar pela janela. A história era o que havia de interessante.

Talvez o cinema começasse ali: um grupo de pessoas deitadas juntas no chão, uma imagem do mundo entrando por um pequeno buraco e alguém anunciando o que estava prestes a aparecer.

Na noite de 19 de agosto, a segunda jornada do Semillero Las artes bajo acoso foi dedicada precisamente ao cinema. O encontro reuniu Dolores Heredia, Natalia Beristain, Diego del Río, Alberto Domínguez Ramos, do Kinoki, e a Comissão Sexta do EZLN; às intervenções somou-se também Salvador Rodríguez.

Diante da mesa dedicada ao cinema, um auditório lotado permaneceu durante horas ouvindo falar de telas, algoritmos, espectadores, línguas, precariedade, comunidades, memória e daquilo que ainda pode acontecer quando várias pessoas decidem se encontrar em torno de uma imagem.

A conversa havia começado, no entanto, em outro lugar.

Em um centro cirúrgico.

O quê não serão capazes de fazer?

O Capitão Marcos voltou a 1º de janeiro de 1994 para falar de um número que, durante décadas, foi reduzido por boa parte da imprensa e da intelectualidade mexicana. Segundo as listas das unidades insurgentes que saíram para combater naquela madrugada, cerca de 4.500 indígenas de origem maia participaram das ações militares, distribuídos em regimentos, batalhões, serviços de saúde, comunicações e outras tarefas. A eles seria preciso acrescentar famílias e comunidades inteiras envolvidas em uma organização que havia permanecido clandestina durante anos.

Marcos relacionou essa redução histórica a um olhar racista: se aqueles que se organizavam eram indígenas, tornava-se mais fácil diminuir sua capacidade política, militar e organizativa. A partir daí, deslocou a pergunta. Trinta e dois anos depois, a questão assume outra direção:

O que não poderão fazer aqueles que foram capazes de fazer aquilo?

Uma resposta concreta está tomando forma atualmente na Selva Lacandona.

O centro cirúrgico “Companheiras e companheiros caídos e caídas do mundo” foi concebido a partir da lógica do Comum, e em sua construção convergem trabalho, conhecimentos e apoios provenientes de diferentes geografias. Participam comunidades zapatistas, coletivos solidários, organizações internacionais e populações vizinhas, incluindo pessoas ligadas a partidos e antigos antizapatistas, que discutem conjuntamente os usos e as necessidades futuras do espaço.

A memória que acompanhou esse relato foi muito mais dura. Marcos relembrou os anos em que meninas, meninos e pessoas idosas morriam nas comunidades por causa de uma febre ou de doenças tratáveis, e essas vidas mal chegavam aos registros do Estado. Seus apontamentos da sessão registraram o paradoxo daqueles que, por não possuírem sequer um registro oficial de nascimento, também podiam desaparecer das estatísticas de morte.

Capitão Insurgente Marcos (Baixe o áudio aqui)

Em 1994, milhares de pessoas se organizaram para se levantar.

Em 2026, outras mãos erguem paredes, instalam portas, carregam materiais e discutem como sustentar um espaço destinado a cuidar de corpos.

Dois momentos históricos e duas materialidades distintas de uma capacidade coletiva.

Mais adiante, entre uma palestra e outra, Marcos acrescentaria outra lembrança. Quando o zapatismo ainda era um pequeno grupo perseguido nas montanhas, disse ele, “o primeiro ônibus que chegou para nos salvar do tigre foi de artistas”. Depois chegaram as diferentes vanguardas políticas, convencidas de que aqueles indígenas precisavam de direção, orientação ou condução. Os artistas, lembrou, chegaram de outra maneira: perguntando quem eram, o que queriam e o que estava acontecendo.

Capitão Insurgente Marcos (Baixe o áudio aqui)

Para Marcos, essa relação faz parte da razão pela qual, décadas depois, as comunidades continuam convocando encontros de artes, ciências e pensamento crítico. A mesa de cinema foi colocada, além disso, deliberadamente entre a dança e o teatro: três linguagens diferentes e uma pergunta compartilhada sobre como transmitir, olhar e compreender atravessando línguas, geografias e experiências.

Quem decidiu o que era arte?

Salvador Rodríguez enveredou então por um longo caminho.

Salvador Rodríguez (Baixe o áudio aqui)

Ele percorreu mais de dois milênios da filosofia e da estética ocidentais para rastrear os deslocamentos da palavra arte: da téchne grega, associada à capacidade de fazer algo de acordo com determinadas regras, às artes liberais medievais; daí às chamadas belas-artes e, posteriormente, à incorporação da fotografia, do cinema e de outras linguagens.

A extensão desse percurso tinha uma finalidade.

A categoria que hoje utilizamos como se designasse naturalmente uma dimensão universal da experiência humana possui sua própria história. Ela surgiu em determinadas sociedades, acumulou hierarquias e acabou sendo projetada sobre outras culturas como critério para decidir quais objetos, práticas e expressões mereciam entrar no território do “artístico”.

Rodríguez formulou então uma pergunta: o que acontecia com a enorme produção estética, simbólica, ritual, ornamental e utilitária da Ásia, da África e dos povos que habitavam este continente, do Alasca à Patagônia, antes que a palavra ocidental arte pretendesse classificá-las?

A questão também alcançou os museus. Uma panela, uma máscara ou um objeto cerimonial podem abandonar a trama de relações que lhes dava sentido e reaparecer dentro de uma vitrine, transformados em “obra de arte”. A mudança preserva o objeto e desloca sua função, sua relação com a comunidade e os mundos que tornaram sua existência possível.

Para Rodríguez, essa operação faz parte de uma história mais ampla de apropriação cultural e eurocentrismo. As antigas cidades e centros cerimoniais mesoamericanos transformados em espaços turísticos oferecem uma expressão monumental dessa transformação.

O problema se torna ainda mais evidente na história mexicana.

Durante o século XIX e boa parte do século XX, o Estado pôde celebrar um passado indígena monumental enquanto as populações indígenas vivas continuavam enfrentando racismo, exploração e exclusão. O indigenismo transformou corpos, pirâmides, vestimentas e motivos originários em emblemas da nação, ao mesmo tempo que mantinha uma profunda distância em relação aos povos contemporâneos que produziam e reproduziam essas culturas.

A contradição também alcançou o muralismo e diversos projetos culturais pós-revolucionários: pintar indígenas podia se transformar em símbolo nacional, enquanto a vida concreta dos povos continuava ocupando um lugar subordinado.

A pergunta sobre as artes sob assédio adquiria, assim, uma temporalidade muito mais longa.

Também existe assédio quando um olhar se atribui o direito de nomear, classificar, separar de seu contexto e administrar a representação de outras culturas.

Quando a câmera mudou de mãos

Alberto Domínguez Ramos, “el Beto”, começou do outro lado da tela.

Alberto Domínguez Ramos (Baixe o áudio aqui)

Ele se apresentou como parte daqueles que projetam e exibem filmes, esses cácaros (projetoristas) que trabalham para que o cinema finalmente chegue àqueles que o assistem. De uma cabine de projeção, disse, observam-se dois filmes simultaneamente: aquele que acontece na tela e aquele que aparece nas poltronas, feito de silêncios, risos, desconfortos, lágrimas ou fúria.

Para ele, é aí que começa a outra metade da experiência cinematográfica.

Sua intervenção tinha um título: Afluentes, apuntes sobre el cine que nació de un estallido.

Há pouco mais de três décadas, explicou, Chiapas tinha uma presença muito reduzida dentro da produção cinematográfica mexicana. As câmeras chegavam principalmente de fora. Algumas o faziam com curiosidade respeitosa; outras transformavam selvas, povoados e pessoas em paisagens disponíveis para olhares externos. Filmava-se Chiapas e, depois, as imagens partiam para outro lugar.

A metáfora utilizada ao longo de toda a sua intervenção foi a água: uma chuva passageira, ainda incapaz de formar seu próprio curso.

O levante zapatista de 1994 também modificou essa paisagem visual.

A necessidade de romper o cerco informativo levou diferentes pessoas e comunidades a pegar câmeras para registrar, denunciar e comunicar. Esse primeiro movimento foi crescendo. Do videoativismo urgente surgiram outros aprendizados, linguagens e narrativas. Junto ao registro da conjuntura, começou a se desenvolver também a possibilidade de contar histórias próprias, com ritmos e buscas próprios.

Domínguez propôs interpretar o crescimento da comunidade cinematográfica chiapaneca contemporânea a partir desse acontecimento.

Aqueles que chegaram de outras geografias para compartilhar conhecimentos também tiveram que aprender. As técnicas precisavam se encontrar com tempos, necessidades e formas organizativas diferentes. A relação transformou tanto aqueles que aprendiam quanto os que originalmente chegavam acreditando que vinham ensinar.

Desse processo surgiram múltiplas experiências e também Los Tercios Compas, comunicadoras e comunicadores zapatistas que produzem imagens a partir das próprias comunidades e elaboram um olhar capaz de registrar criticamente sua realidade sem depender de intermediários externos.

A história continuou com os festivais zapatistas de cinema. Em uma primeira etapa, o objetivo consistia em levar filmes até as comunidades. Depois, começaram a circular também materiais realizados pelos zapatistas.

Então, o circuito mudou.

A câmera, a tela e o público começaram a fazer parte de um mesmo movimento: produzir, olhar, conversar e voltar a produzir.

A outra metade começa quando o projetor se apaga

Alberto levou essa experiência para as salas independentes de San Cristóbal de Las Casas e para os espaços que, durante décadas, construíram lugares para um cinema que dificilmente encontra espaço nos grandes complexos comerciais.

Foi aí que surgiu uma crítica especialmente contundente às plataformas.

Domínguez chamou de “mainstreaming” essa enorme corrente formada pelas indústrias audiovisuais, plataformas e algoritmos capazes de intervir simultaneamente na produção, distribuição, exibição e conversa.

A metáfora continuou sendo aquática: diversos rios entram em uma enorme nuvem digital e depois retornam transformados em conteúdos cada vez mais parecidos entre si. Ritmos semelhantes. Durações semelhantes. Formas semelhantes de produzir emoção.

A diversidade de rostos pode ser mantida enquanto as estruturas narrativas, as soluções políticas e as formas de imaginar o mundo permanecem surpreendentemente uniformes.

O algoritmo completa a operação.

Ele nos oferece aquilo de que supostamente gostamos e repete a fórmula até estreitar nossa curiosidade. Alberto comparou a operação a uma granja onde uma máquina descobre de qual milho cada galinha gosta e, a partir desse momento, passa a alimentá-la repetidamente com a mesma semente.

Telas infinitas e horizontes cada vez mais estreitos.

Diante dessa lógica, os pequenos cinemas, festivais e espaços culturais de Chiapas construíram, ao longo dos anos, outra relação entre filme e espectador. Quem chega a uma sessão traz consigo uma história e uma palavra próprias. A conversa posterior modifica aquilo que acabou de ser visto.

O cinema termina então onde outra coisa começa.

Quando o projetor se apaga.

Daí uma das afirmações mais importantes de sua intervenção: produzir um filme constitui apenas uma parte do processo; a outra começa na exibição, na apropriação pelo público e naquilo que as pessoas fazem com as imagens depois de recebê-las.

As telas independentes se tornam, assim, afluentes capazes de conectar experiências sem obrigá-las a desembocar em uma única corrente. O cinema entendido como relação.

O micélio que sustenta o filme

Natalia Beristain chegou a uma ideia semelhante a partir de sua própria trajetória.

Natalia Beristain (Baixe o áudio aqui)

Ela cresceu entre pessoas do teatro e, antes de dirigir filmes, foi espectadora. Naqueles palcos, descobriu mulheres que podiam ocupar o centro, falar e fazer com que o restante permanecesse em silêncio para ouvi-las. Mulheres de diferentes idades, corpos, origens, desejos e formas de habitar o mundo. A ficção lhe permitiu reconhecer possibilidades de existência que outros espaços sociais estreitavam.

Daí uma convicção que atravessou sua intervenção: o cinema é comunidade.

É espelho, referência, imaginário e ponte.

Para explicá-lo, recorreu a outra imagem orgânica. Um filme pode se parecer com uma árvore: finalmente vemos o tronco, os galhos e a folhagem. Debaixo dela existe, no entanto, um enorme micélio que a sustenta. Atuação, fotografia, roteiro, som, música, arquitetura, figurino, produção, montagem e uma infinidade de trabalhos e relações tornam possível a imagem que finalmente chega à tela.

Sua própria experiência dentro do cinema mexicano é atravessada por essa tensão entre criação e condições materiais. Quando estudava no Centro de Capacitación Cinematográfica, o governo de Vicente Fox propôs extinguir ou transformar instituições centrais da cinematografia nacional. Uma pequena organização estudantil acabou se articulando com uma comunidade mais ampla até impedir aquele projeto.

Depois viriam outros cercos: empregos intermitentes, ausência de seguridade social, orçamentos precários, circuitos de exibição cada vez mais difíceis, salas caras e plataformas com capacidade crescente de decidir quais histórias encontram recursos, telas e públicos.

Para Beristain, o ataque a universidades, bibliotecas, teatros e espaços culturais também possui uma dimensão política, porque todos eles permitem algo que é incômodo para os poderes que precisam de populações isoladas: reunir-se e pensar coletivamente.

Mais uma vez, a pergunta ia além do filme.

Importava também quais relações permitem que um filme exista.

Criar espaço

Diego del Río colocou essa questão diretamente sobre o corpo.

Diego del Río (Baixe o áudio aqui)

Quando pensa no assédio, explicou, sente que o espaço diminui, a respiração fica mais curta e o tempo se torna insuficiente. O telefone condensa essa experiência: uma imagem, outra, uma guerra, um anúncio, outro rosto, e o dedo continua deslizando até transformar o mundo em uma sucessão de estímulos descartáveis. O assédio também atua sobre nossa capacidade de permanecer.

Uma das possíveis potências do teatro e do cinema aparece justamente aí: criar tempo para permanecer diante de algo, suportar uma pergunta, olhar de novo e permitir que outro corpo nos afete. Del Río levou essa discussão para a própria organização do trabalho artístico. Uma obra pode falar de justiça, emancipação ou dignidade e ter sido produzida por meio de hierarquias violentas. Daí que a pergunta política de um filme ou de uma encenação também alcance seu processo:

Quem podia falar? Quem podia errar? Quem era pago? Quem cuidava?

Quem podia interromper o ensaio? Quem tinha a possibilidade de dizer não?

Uma obra sobre dignidade humana construída por meio de relações indignas carrega uma contradição que dificilmente é resolvida pela encenação.

O ensaio adquire, então, outra potência: pode se transformar em um espaço onde se praticam formas diferentes de estar juntos.

Escutar. Discordar. Estabelecer limites. Cuidar. Deixar-se afetar. Errar. Tentar novamente.

Em um sistema obcecado em medir produtividade, desempenho e resultados imediatos, defender o tempo necessário para uma busca também se transforma em uma disputa política. Ensaiar, lembrou Diego, significa tentar.

Roubar um momento ao medo

Em meio a essa reflexão surgiu Gaza. Del Río relembrou a experiência de um artista palestino dedicado aos fantoches que, em meio à guerra, perdeu acesso a ferramentas, tintas, eletricidade e materiais. Começou a construir com latas, pedaços de madeira e aquilo que encontrava ao seu redor. Queria fabricar pelo menos um fantoche para seus filhos e para si mesmo.

Roubar alguns momentos ao medo. Um fantoche ocupa muito pouco espaço. No entanto, ao seu redor podem surgir, durante alguns minutos, brincadeira, imaginação, conversa e risada. Foi aí que Diego introduziu uma palavra que adquire um peso particular quando o horizonte é atravessado por guerras, desaparecimentos e despojos: gozo.

No dia anterior, durante a mesa dedicada à dança, algo semelhante havia surgido quando Hugo Molina defendeu a potência política de dançar uma cumbia depois de uma marcha ou de uma assembleia. Agora, o cinema e o teatro voltavam ao mesmo território. O gozo como uma parte da vida que o poder também não deveria administrar.

Para que fazemos cinema se depois não o vemos?

Dolores Heredia encerrou a mesa voltando justamente ao problema das telas.

Dolores Heredia (Baixe o áudio aqui)

Ela confessou um desejo que a acompanha há anos: encher o país de salas onde possam ser projetados nossos próprios filmes. E formulou uma pergunta elementar: para que fazemos cinema se depois não o vemos?

Heredia trabalha há décadas como atriz e, ao mesmo tempo, atua na gestão para ampliar a circulação cinematográfica. Contou que provavelmente recusou mais filmes do que realizou, porque muitas histórias simplesmente não a interpelavam.

Foi aí que situou uma das formas do assédio contemporâneo. O horizonte pode se estreitar a ponto de nos fazer acreditar que escolhemos livremente as histórias que contamos, enquanto circuitos de produção, tendências, indústrias e mercados delimitam de antemão quais parecem possíveis, pertinentes ou financiáveis.

Por isso, voltou repetidamente à honestidade. Estamos contando as histórias que realmente nos atravessam? Sua resposta nasceu menos de uma teoria cinematográfica do que de suas lembranças. A câmera escura construída por seu pai. Os dez irmãos deitados no chão. As casas emprestadas de uma família numerosa de La Paz. As discussões sobre quem se lembra corretamente de uma história que cada irmão reconstrói de maneira diferente. “É disso que sou feita”, disse. De histórias simples.

Antes do cinema, houve também o teatro. Heredia fez parte durante anos de uma companhia de criação coletiva, na qual cada obra era construída a partir da conversa entre os participantes: texto, atuação, iluminação, cenografia e decisões cênicas surgiam do processo comum.

Ali, lembrou, encontrou uma maneira de se expandir.

A palavra dialogava involuntariamente com tudo o que havia sido dito durante a noite. Diante do algoritmo que reduz opções, expandir-se. Diante do assédio que reduz o tempo, expandir-se. Diante de uma categoria ocidental que delimita o que merece ser chamado de arte, expandir-se. Diante dos circuitos que determinam quais histórias merecem chegar às telas, expandir-se.

Contamos a partir de muitos lugares

Dolores levou então a conversa para outra fronteira: a linguagem.

Cresceu ao lado de uma irmã com síndrome de Down, cuja relação com a fala foi se transformando ao longo dos anos. As duas trabalharam juntas no teatro e descobriram maneiras de construir sentido por meio do movimento, do ritmo, do olhar e da presença.

Posteriormente, seu pai sofreu um acidente vascular cerebral que imobilizou parte de seu corpo e afetou profundamente sua fala. Mas ele continuou contando histórias. Nos olhos, nos gestos e nos sons ainda apareciam barcos, tempestades e aventuras completas. “Nunca desistiu”, lembrou Dolores. A experiência lhe deixou uma certeza: contamos a partir de muitos lugares. Um filme, uma obra, uma dança ou uma conversa encontram linguagens que vão além das palavras.

Isso também havia acontecido anos antes nos encontros zapatistas. Heredia lembrou como, depois de uma sessão, um grupo de insurgentas a levou para um canto para perguntar diretamente sobre cenas, beijos, corpos, relações e decisões de atuação. A tela havia sido apenas o começo.

Depois tinha começado a conversa. Justamente aquela outra metade do cinema de que Alberto tinha falado horas antes. Um filme deixa de pertencer inteiramente àqueles que o fizeram quando encontra os olhos de outras pessoas. Ali começa uma nova história.

Expandir-nos

No início da noite, o Capitão Marcos havia falado de um centro cirúrgico.

No final, Dolores Heredia falava de pequenas salas de cinema.

Entre essas duas imagens transcorreram várias horas dedicadas a discutir categorias estéticas, câmeras tomadas pelas comunidades, salas independentes, plataformas, processos coletivos, precarização, algoritmos, corpos, espectadores, línguas e relatos.

Um centro cirúrgico e uma sala de cinema cumprem funções radicalmente diferentes. Seu encontro naquela noite apareceu em outra dimensão: ambos exigem a construção de condições para que algo possa acontecer.

Espaço. Tempo. Conhecimento. Trabalho. Organização. Pessoas capazes de se encontrar.

O Comum de que Marcos falou adquire sentido quando mãos diferentes erguem uma infraestrutura para cuidar da vida.

O cinema também adquire materialidade quando uma comunidade produz imagens, outra prepara uma tela, alguém abre uma porta, várias pessoas ocupam as cadeiras e depois permanecem ali para conversar.

Por isso Alberto insistia que o cinema continua quando a projeção termina. Natalia falava do micélio. Diego defendia o tempo do ensaio. Dolores quer encher o país de salas. E talvez por isso Salvador tenha obrigado todos a olhar muito mais para trás, para os poderes que historicamente decidiram quais expressões merecem existir dentro daquilo que chamamos de arte.

O assédio trabalha fechando possibilidades. Reduz as linguagens disponíveis. Administra nossa atenção. Hierarquiza as imagens. Mercantiliza o tempo. Uniformiza os relatos. Transforma espectadores em dados. Encerra o futuro dentro daquilo que o algoritmo calcula que já gostamos.

Diante disso, naquela noite surgiram outras práticas: pegar a câmera, abrir uma sala, escutar uma comunidade, fazer um filme, sustentar um ensaio, construir uma conversa, contar a partir do próprio lugar, deixar-se afetar por quem está diante de nós.

Dolores encerrou com uma formulação simples.

A história que alguém conta “tem que ser a sua história”.

Quando isso acontece, uma imagem pode atravessar o pequeno orifício de um quarto escuro e chegar até uma parede onde várias pessoas esperam juntas para vê-la.

Depois alguém pergunta. Alguém se lembra de outra coisa. Alguém contradiz. Alguém ri. A história muda. E o espaço volta a crescer.

Expandir-nos…

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Dia 5, Sessão 2, Encontro “Guerra contra la Humanidad”

Dia 5, sessão 2
Semillero “Guerra contra la Humanidad”
(Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio)

24 de julho de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

A última sessão do Semillero “Guerra contra la Humanidad” (Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio) centrou-se nas diferenças.

Assim se encerrou este extraordinário espaço de reflexão e pensamento crítico, com a força, a potência, a contundência e a feroz ternura de mulheres e outroas que, por meio de seus múltiplos olhares, nos convidaram a enxergar, com corações indignados, a violência de um sistema-mundo que se impõe como único, mas também, com amor e esperança, a multiplicidade das realidades humanas que compõem um mundo de inúmeras e deslumbrantes cores.

Que melhor forma de concluir este semillero, que nos ofereceu uma oportunidade única de compreender não apenas a tragédia que hoje acomete a humanidade e o planeta, neste momento de tanta escuridão, mas também as muitas luzes de esperança que nascem do empenho em criar e proteger a vida a partir de tantos e tão diversos lugares e corações: outros mundos que já existem e que nos permitem continuar, caminhando esperançando em meio à tempestade.


Titze Malambé – “Radiografía do corpo em resistência”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

A pele como território e trincheira: guerra, dissidências e corpos descartáveis

Os corpos dissidentes no México não são sujeitos de proteção do Estado, mas territórios de guerra. É o que expõe Titze Malambé ao analisar como a violência contra as dissidências sexo-gênero, as trabalhadoras sexuais e as pessoas trans não constitui um fenômeno isolado da criminalidade comum, mas faz parte de uma estratégia sistemática de militarização, controle e extermínio que caracteriza a atual fase do capitalismo no México.

Com clareza, Malambé afirma: o Estado não protege esses corpos, ele os persegue. A polícia, que deveria garantir segurança, transforma-se em algoz. O sistema de justiça, que deveria investigar os transfeminicídios, os naturaliza e os esquece. O capitalismo, que empurra mulheres pobres, pessoas trans e dissidências para a prostituição, depois as criminaliza por venderem o próprio corpo como último recurso de sobrevivência.

Essa lógica não é nova, mas se aprofundou. Durante o chamado governo da Quarta Transformação, enquanto o governo proclama estar “ao lado dos pobres”, a militarização se intensifica, o crime organizado continua operando sem limites e os corpos dissidentes seguem tombando. Travestis assassinadas em Ecatepec, trabalhadoras sexuais desaparecidas em Iztapalapa e pessoas trans espancadas pela polícia não são exceções. São parte de uma política de Estado.

Malambé conectou os pontos que as autoridades insistem em manter separados: a repressão policial contra as trabalhadoras sexuais, o proxenetismo que atua impunemente, o paramilitarismo que faz desaparecer corpos considerados incômodos e os transfeminicídios executados sob o manto da impunidade. Tudo isso funciona como um único mecanismo de aniquilação territorial.

A pele, afirmou, é território. E esse território está sob ocupação.

Diante dessa realidade, a resposta não pode ser pedir mais proteção a um Estado que mata. Não se pode confiar nas instituições que perpetuam a violência. A saída, sustenta Titze Malambé, é aquela que já vem sendo construída pelas próprias trabalhadoras sexuais, pelas ativistas trans e pelas dissidências: a organização a partir da base, a autonomia, a autodefesa e a construção de redes de cuidado coletivo que o Estado jamais oferecerá.

O chamado final foi direto: dirigido a jornalistas, ativistas, pesquisadores, artistas e a todos aqueles que se dizem comprometidos com o pensamento crítico. Acompanhar essas lutas não é um ato de caridade. É reconhecer que a defesa dos corpos dissidentes é, antes de tudo, a defesa da própria vida contra uma máquina de morte que continua em operação.


Vica Rule – “Potência travesti contra o realismo capitalista: propaganda por uma militância em defesa da vida”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

A guerra contra a humanidade também persegue as pessoas trans

A violência contra as pessoas trans no México não é um fato isolado nem uma discussão recente. Ela faz parte de uma guerra permanente contra a vida, sustentada pela impunidade, pelo ódio e pela expropriação.

A partir de sua própria trajetória como sobrevivente de tortura, sequestro e agressões motivadas por sua identidade, Vica Rule afirmou que o sistema capitalista tem buscado despolitizar as lutas da diversidade sexual, enquanto os crimes de ódio continuam a crescer. Lembrou que os transfeminicídios e travesticídios ocorrem há décadas no México e denunciou que muitas dessas violências permanecem invisibilizadas ou são encobertas pelas autoridades.

A memória é uma forma de resistência, insistiu a ativista. Ela recordou a história das primeiras marchas do orgulho como espaços de protesto — e não de celebração comercial — e convocou à desconstrução dos discursos da extrema direita, que transformaram as pessoas trans em alvo de uma nova ofensiva política.

Sua mensagem foi concluída com um chamado para romper com a resignação, exigir justiça para as vítimas da transfobia e manter viva a rebeldia ao lado das demais lutas do povo. “Não podemos renunciar à resistência”, afirmou, porque a defesa da diversidade também faz parte da defesa da humanidade.


Brenda Nava Galindo – “Habitar a fuga, criar outros mundos: o quilombismo como memória, território e resistência antirracista diante do colonialismo”.

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

O racismo não é apenas discriminação ou preconceito; é uma estrutura histórica de dominação.

Esse foi o ponto de partida da análise de Brenda Nava Galindo. O racismo é uma criação histórica europeia que possibilitou tanto a expansão do colonialismo quanto a acumulação primitiva do capitalismo, por meio de uma classificação hierárquica da humanidade.

“O racismo é uma tecnologia de poder que organiza e hierarquiza quem merece viver com dignidade, quem pode ter acesso a direitos e quem é reduzido a uma condição de inferioridade.”

A raça, que biologicamente não existe, foi criada como categoria pelos colonizadores europeus para justificar a apropriação de territórios e riquezas, bem como a escravização e o extermínio dos povos originários, africanos e afrodescendentes. Essa classificação colocou o europeu — concebido como “branco” — no topo da humanidade, identificada com a “civilização”, enquanto indígenas e africanos foram reduzidos à condição de selvagens, primitivos, irracionais e, evidentemente, inferiores. Na prática, a hierarquia imposta pelo racismo define quem é considerado plenamente humano e quem é privado desse reconhecimento.

Essa concepção hierárquica da humanidade chegou às Américas com a conquista e a colonização europeias, mas não desapareceu com as independências. Ela permaneceu enraizada no imaginário coletivo e continua sendo imposta pela distribuição desigual não apenas do poder, da riqueza e do trabalho, mas também do conhecimento — isto é, pela definição de quais saberes e formas de compreender o mundo são considerados legítimos e quais são desqualificados; de quem é reconhecido como produtor de conhecimento e quem é reduzido à condição de mero “objeto de estudo”. Brenda Nava comparou esse extrativismo epistêmico — a apropriação dos conhecimentos dos povos considerados “inferiores” pelas elites culturais hegemônicas — ao extrativismo de minérios e hidrocarbonetos. Diante disso, a proposta não é rejeitar a ciência nem os conhecimentos de matriz europeia, mas desarticular o monopólio da verdade: promover “um profundo processo de questionamento radical das hierarquias do saber, do poder e do ser herdadas da modernidade colonial e, a partir daí, construir horizontes alter-nativos”.

A ativista também apresentou uma crítica contundente ao que denominou “feminismo branco hegemônico”. Esclareceu que não se refere a todo feminismo surgido na Europa nem a toda feminista branca, mas àquele feminismo que toma a experiência da mulher branca como padrão universal e ignora as profundas diferenças que marcam a vida das mulheres racializadas. Ao fazê-lo, esse feminismo invisibiliza as violências de gênero atravessadas pelo despojo territorial, pela militarização, pelo extrativismo, pelo empobrecimento e pelo racismo.

Por fim, Brenda Nava apresentou o trabalho anticolonial e antirracista do coletivo AFROntera Cimarrona, do qual faz parte. Explicou que o nome do coletivo inspira-se no quilombismo (cimarronaje): a fuga de pessoas escravizadas e a fundação de comunidades autônomas nas quais, em contraposição ao apagamento promovido pela colonialidade, florescia a memória de suas origens, de suas línguas, de suas práticas religiosas e de suas próprias formas de organização social. O quilombismo constituiu, assim, um exemplo vivo da possibilidade de construir outras sociedades, fundamentadas nos saberes e nas formas de compreender o mundo dos povos historicamente inferiorizados pela colonialidade. Em muitos aspectos, concluiu, essa experiência guarda importantes afinidades com o zapatismo.


Argelia Guerrero – “‘Dança para mulheres’… que lutam”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

No 8 de março de 2018, em meio à escuridão, mais de duas mil velas foram acesas nas mãos de mulheres zapatistas, que simbolicamente as entregaram às milhares de mulheres de todo o mundo reunidas no primeiro Encontro Internacional de Mulheres que Lutam. “Essa luz é para você”, disseram. “Quando sentir que a luta — ou seja, a vida — está muito dura, acenda-a novamente em seu coração.” “E não fique com ela”, acrescentaram: leve-a às assassinadas, às desaparecidas, às presas, às estupradas, às violentadas de tantas formas, para que essa pequena luz ilumine o futuro.

Neste último dia do Semillero, a dançarina, pesquisadora e ativista Argelia Guerrero nos trouxe essa pequena luz na forma de um ramalhete de mulheres que lutam, ao ritmo dos sete movimentos e do aleluia que compõem o Stabat Mater, de Pergolesi, a música da peça que ela definiu como “uma das mais belas danças criadas pela bailarina e coreógrafa mexicana Gloria Contreras”: Dança para mulheres — à qual acrescentou: que lutam. Uma obra, explicou, dedicada às mães.

Às mães buscadoras, em sua luta incansável por encontrar seus filhos e filhas desaparecidos, carregando a dor indizível da ausência e da incerteza, enquanto enfrentam não apenas a inação e a incompetência do Estado, mas também a criminalização, a perseguição e a desqualificação dirigidas contra elas próprias — expressão evidente da cumplicidade do Estado mexicano com o crime organizado.

Às mulheres trabalhadoras, cuja luta nasce da exploração laboral e de classe, enfrentando as condições precárias impostas pelo capitalismo e defendendo os direitos do trabalho.

Às mães de vítimas de feminicídio e às mulheres sobreviventes da violência machista, que enfrentam a impunidade, a revitimização e o esquecimento — sendo, muitas vezes, elas próprias também assassinadas —, preservando a memória de suas filhas e exigindo justiça.

Às mulheres indígenas, que defendem seus povos, culturas, línguas e territórios, e cuja resistência inspira espaços como a Rotatória das Mulheres que Lutam, onde mulheres mazatecas, otomís, triquis, mazahuas e de outros povos têm se reunido para compartilhar suas histórias e transformar a dor coletiva em verdadeiros “jardins da memória”.

Às defensoras dos territórios, compreendendo o território não apenas como terra, mas também como corpo, memória, identidade, comunidade e espaço de vida.

Às mulheres jovens, que transformam sua rebeldia em organização política e social diante do capitalismo, do patriarcado e de outras formas de opressão.

Às mulheres artistas, que utilizam a música, a dança, o cinema, a fotografia, o bordado e tantas outras formas de expressão para dar visibilidade às lutas, construir memória e fortalecer a resistência coletiva.

O aleluia que encerra a obra, afirmou Argelia Guerrero, simboliza justamente aquela pequena luz que as zapatistas nos entregaram há oito anos. Uma luz guardada coletivamente, que tremula junto às desaparecidas, às assassinadas, às presas, às estupradas, às espancadas e às mulheres assediadas.

“A luta nunca mais foi a mesma desde aquela noite em que as companheiras nos iluminaram com sua luz. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas, naquela noite, nos sentimos menos sozinhas.”


“Como mulheres que somos”

Mulheres e outroas zapatistas encerraram o Semillero “Guerra contra a Humanidade” e convocaram a semear o comum diante de um sistema que busca fazer desaparecer a vida.

Não foi um discurso de despedida. Foi uma conversa de mulher para mulher, de outroa para outroa, de povo para povo, da dor para a esperança.

As mulheres e outroas — bases de apoio, uma miliciana, uma coordenadora de artes e duas integrantes da Comissão Permanente do Governo Autônomo — transformaram a palavra em um abraço coletivo e em um chamado urgente à organização para defender a vida. Representando a voz de milhares de mulheres zapatistas e outroas, Marijose, Mia, Yuli, Remedios, Fernanda, Mareli e Erica compartilharam sua palavra. (Textos completos e áudios abaixo.)

Marijose, recordou a história de exploração suportada por suas avós, bisavós e tataravós. Essa história de exploração e violência, afirmou, continua atingindo sobretudo as mulheres indígenas, pobres e trabalhadoras. “O sistema capitalista busca nos dividir por gênero, raça, religião ou identidade, quando a resposta só pode ser construída em comum.”

A partir de sua experiência como mulher trans zapatista, Mía compartilhou que foi no comum que encontrou autonomia, respeito, liberdade e uma família. “A dor de vocês é a nossa dor; a raiva de vocês é a nossa raiva”, afirmou, dirigindo-se a todas as dissidências que sofreram e seguem sofrendo as diversas violências do sistema. O inimigo não são as diferenças entre os povos, mas um sistema que alimenta a discriminação e a expropriação.

As vozes de Yuli, Remedios, Fernanda, Mareli y Erica foram tecendo uma mesma mensagem. Manifestaram sua solidariedade às mães buscadoras: “Sentimos sua dor e sua raiva, e reconhecemos a luta de mães, pais, irmãos e irmãs, homens e mulheres.” Falaram sobre a juventude recrutada pelo crime organizado, sobre a violência contra mulheres e meninas, sobre o saqueio dos territórios e da Mãe Terra. Mas, acima de tudo, falaram da organização como o único caminho possível:

O capitalismo é cruel, desumano e criminoso. Nasceu para o mal e pelo mal morrerá.

Esclareceram que não convocam à guerra, mas à construção da justiça, da liberdade e da democracia desde baixo, sem esperar que a mudança venha daqueles que governam em benefício de seus próprios interesses.

A mensagem foi clara e expressa com a convicção de quem a semeou na terra que defende: “Há apenas um caminho, e esse caminho é o comum.”

Com essa certeza, as mulheres zapatistas encerraram o Semillero voltando seu olhar para o futuro.

Nós, mulheres zapatistas, por sermos mulheres, acreditamos nessa transformação. Em Chiapas, em algum lugar do mundo, o comum já nasceu.

Marijose, outroa zapatista | Texto completo | Baixe o áudio

Mia, outroa zapatista | Texto completo | Baixe o áudio

Yuli, Comisión Permanente del Gobierno Común | Texto completo | Baixe o áudio

Remedios, Comisión Permanente del Gobierno Común | Texto completo | Baixe o áudio

Fernanda, jovem coordenadora de arte | Texto completo | Baixe o áudio

Mareli, miliciana | Texto completo | Baixe o áudio

Erica, base de apoio | Texto completo | Baixe o áudio

Fotos: Radio Pozol

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Dia 5, sessão 1, do Encontro “Guerra contra a Humanidade”(As populações e a natureza e a natureza sob cerco)

Dia 5, sessão 1, do
Semillero “Guerra contra la Humanidad”
(Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio)

24 de julio de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

Neste quinto dia do Seminário “Guerra contra a Humanidade” (As populações e a natureza sob cerco), com o objetivo de facilitar o retorno das pessoas que vieram de outras regiões, decidiu-se alterar a programação e antecipar para a segunda sessão do dia as apresentações sobre as diferenças, que estavam previstas para o sexto e último dia.

Apresentamos aqui a primeira sessão, na qual se discutiu, de um lado, a exclusão, a extração e a expropriação, bem como as formas de resistência que surgem nas cidades; e, de outro, o ecofeminismo e suas ações diante tanto das violências de gênero quanto das agressões contra a Mãe Terra e os territórios.

Antes do início das apresentações, o Subcomandante Moisés fez um esclarecimento sobre o Encontro de Resistências e Rebeldias, o Encontro de Artes e a comemoração do aniversário do levante zapatista, que, conforme anunciado no início do Seminário, serão realizados durante todo o mês de dezembro na Cidade do México. Explicou que a logística e os demais aspectos organizacionais ainda estão sendo definidos e que, no momento oportuno, serão compartilhados mais detalhes. Ressaltou, porém, que o que não está em discussão é que os zapatistas estarão presentes e que os encontros acontecerão na Cidade do México, conforme anunciado.

A seguir, apresentamos um resumo das duas palestras da primeira sessão deste último dia do Seminário, juntamente com os áudios e os links para os textos completos.


Vicente Moctezuma Mendoza – “Extração, expropriação, exclusão e resistências na cidade”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

A cidade como campo de guerra, onde o capital reorganiza o território, concentra a riqueza e expulsa quem a habita.

O pesquisador Vicente Moctezuma Mendoza descreveu uma guerra silenciosa, porém permanente, na qual o mercado imobiliário, os megaprojetos urbanos, a especulação financeira e diversas formas de violência reconfiguram os territórios em benefício de poucos, ao mesmo tempo em que deslocam aqueles que historicamente os habitaram.

A segregação socioespacial, explicou, não é um acidente nem uma consequência natural das desigualdades econômicas. É o resultado de um modelo que concentra riqueza, serviços, infraestrutura e investimentos em áreas privilegiadas, enquanto empurra os setores populares para periferias cada vez mais distantes, inseguras e precarizadas. O acesso à moradia, à água, ao transporte, à cultura e até mesmo ao tempo para conviver com a família passa a ser determinado pela capacidade de pagamento.

Nessa guerra da expropriação, a gentrificação aparece como uma forma de colonização urbana. Bairros inteiros são transformados para atrair investimentos, turismo e moradores de maior poder aquisitivo, provocando o deslocamento de comunidades que, durante gerações, construíram ali suas redes de solidariedade, sua memória e sua vida cotidiana. Ao mesmo tempo, o pesquisador denunciou a existência de despejos violentos, fraudes imobiliárias, cobrança de extorsão por grupos criminosos, extorsões e mecanismos de controle territorial, dos quais participam tanto o Estado quanto o crime organizado, transformando a moradia e o trabalho em fontes permanentes de extração de riqueza.

No entanto, destacou que, diante da cidade projetada para atender aos interesses capitalistas, também emerge a cidade das resistências: povos originários, comerciantes, coletivos de bairro, cooperativas e organizações populares que continuam defendendo seus bairros, seus espaços de trabalho e seu direito ao território.

Porque, como já foi afirmado, a cidade não é apenas uma mercadoria: ela é também um espaço de comunidade, de memória e de luta.


Iracema Gavilán – “Mandatos de gênero e extrativismos: ações a partir do ecofeminismo”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

A guerra contra os territórios também é travada contra o corpo das mulheres.

Os megaprojetos extrativistas não saqueiam apenas montanhas, florestas e rios. Eles também aprofundam as violências contra as mulheres, fortalecem o patriarcado e transformam os territórios em cenários de expropriação. Esse foi o eixo da reflexão da pesquisadora e ativista Iracema Gavilán, que propôs compreender o extrativismo como uma guerra que avança tanto sobre a natureza quanto sobre a vida.

A partir de sua experiência no acompanhamento da defesa do território sagrado de Wirikuta, Gavilán explicou que o modelo extrativista do século XXI vai muito além da mineração: inclui megaprojetos de energia, agroindústria e tecnologia que, sob o discurso do desenvolvimento e da transição energética, continuam deslocando comunidades e mercantilizando a vida.

Iracema Gavilán sustentou que o patriarcado e o capitalismo fazem parte do mesmo sistema de dominação. Enquanto um explora a natureza, o outro atribui às mulheres a sobrecarga do trabalho de cuidado, intensifica as violências, a criminalização e os impactos sobre a saúde das pessoas que vivem nos territórios afetados.

No entanto, diante dessa realidade, destacou também as múltiplas formas de resistência construídas por mulheres defensoras dos territórios, que organizam comunidades, promovem instrumentos jurídicos e colocam o corpo como o primeiro território que deve ser cuidado para sustentar a luta. Ela afirma que a defesa do território começa pelo reconhecimento do corpo como o primeiro espaço de resistência, pois é nele que habita nosso espírito.

“Corpo–Terra–Território é o nosso primeiro espaço de luta.”

Recordando o Dia Mundial contra a Mineração, Iracema Gavilán convida à reflexão de que resistir significa cuidar da vida em todas as suas formas, construir alianças e seguir caminhando diante de um modelo que ameaça tanto a natureza quanto aqueles e aquelas que a defendem.

“A resposta não é nos resignarmos”, afirmou. “Não temos tempo para ficar parados, mas sim para continuar caminhando e avançando, cada um e cada uma a partir de suas possibilidades, para defender a vida e os territórios.”

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Dia 4 – Encontro “Guerra contra a Humanidade” (As populações e a natureza sob cerco)

Dia 4 do Semillero “Guerra contra la Humanidad”
(Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio)

23 de julho de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

Neste quarto dia do Semillero “Guerra contra a Humanidade” (As populações e a natureza sob cerco), o Capitão Marcos informou que, até o dia anterior, havia 686 participantes de 28 geografias, além de mais de 200 zapatistas.

Ao longo da jornada, foram compartilhadas reflexões profundas e contundentes sobre migração, as diversas formas da guerra, a busca por pessoas desaparecidas e as corporações criminosas, tudo isso inserido na luta pela vida e na construção de alternativas.

A seguir, apresentamos um resumo das exposições, bem como os áudios e os links para os textos completos.


Bruno Miranda – “Olhares críticos sobre as migrações e as fronteiras”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

As fronteiras não impedem a migração; elas produzem a ilegalidade.

Neste quarto dia do Semillero “Guerra contra a Humanidade”, o pesquisador Bruno Miranda propôs compreender o fenômeno migratório por outro ângulo: não foram as migrações que deram origem às fronteiras, mas sim as fronteiras e os Estados que produziram a figura do migrante. Nessa perspectiva, migrar deixa de ser um fato natural e passa a ser uma condição política construída pelo Estado e pelo capitalismo.

Durante sua apresentação “Olhares críticos sobre as migrações e as fronteiras”, Miranda propôs desnaturalizar tanto a migração quanto as fronteiras. Explicou que a mobilidade humana sempre existiu, mas a categoria de “migrante” surge com os Estados nacionais, capazes de definir quem pertence a um território e quem dele é excluído. Assim, as fronteiras não apenas delimitam países: elas classificam pessoas, autorizam determinadas mobilidades e criminalizam outras.

Segundo o pesquisador, as migrações foram fundamentais para a construção do capitalismo moderno. Cidades, ferrovias, agricultura e industrialização nas Américas foram erguidas pelo trabalho de milhões de migrantes. Entretanto, essa mesma força de trabalho indispensável à economia é posteriormente ilegalizada por políticas que transformam em “ilegais” pessoas antes aceitas quando o mercado precisava delas.

Nesse contexto, explicou que a chamada crise migratória funciona muitas vezes como um discurso político que justifica o endurecimento das políticas de controle. Sob essa lógica, fortalece-se a securitização das fronteiras: muros, vigilância militar, drones, sistemas biométricos e uma crescente cooperação entre instituições policiais e migratórias que tratam a mobilidade humana como ameaça à segurança nacional.

Miranda afirmou que essas políticas não buscam impedir totalmente a migração, mas administrá-la por meio de estratégias de dissuasão, obrigando as pessoas a percorrer rotas cada vez mais perigosas ou permanecer meses — e até anos — aguardando uma decisão migratória. Esse modelo também alimenta uma crescente indústria migratória, na qual centros privados de detenção obtêm lucros milionários com o encarceramento de migrantes.

Para quem consegue atravessar a fronteira, a violência não termina. Segundo Miranda, opera-se uma inclusão diferencial: os migrantes são incorporados ao mercado de trabalho porque sua mão de obra é necessária, mas continuam excluídos do pleno acesso a direitos e à cidadania. A fronteira deixa, assim, de ser apenas uma linha geográfica para tornar-se um mecanismo cotidiano de vigilância, medo e incerteza — o que ele definiu como internalização das fronteiras.

A isso somam-se práticas como o perfilamento racial, que considera suspeitas determinadas pessoas por sua aparência, e as deportações externalizadas, por meio das quais governos transferem migrantes para terceiros países, ampliando o controle migratório muito além de suas próprias fronteiras.

Longe de apresentar os migrantes apenas como vítimas, Bruno Miranda destacou que eles também constroem formas coletivas de resistência. As caravanas migrantes, afirmou, representam estratégias de cuidado mútuo, organização e defesa diante de uma ordem fronteiriça que busca administrar indivíduos, mas encontra na ação coletiva uma disputa permanente pelo direito de buscar uma vida digna.

Miranda nos convida, assim, a compreender a migração a partir de uma perspectiva crítica: reconhecer que, por trás de cada fronteira, existem decisões políticas, interesses econômicos e relações de poder que continuam determinando quem pode circular livremente e quem precisa arriscar a própria vida para fazê-lo. Mas também entender que a migração revela a resistência daqueles que insistem em buscar um lugar digno em um mundo marcado pelo despojo e pela exclusão.


David Barrios – “O fim das guerras e as lutas pelo futuro”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

As guerras de hoje buscam controlar a vida e os territórios.

David Barrios afirmou que a militarização já não responde apenas a conflitos entre Estados, mas constitui uma estratégia para reorganizar territórios, apropriar-se dos bens naturais e disciplinar as populações. Diante desse cenário, defendeu o fortalecimento da organização comunitária e da defesa da Mãe Terra.

Em sua apresentação “O fim das guerras e as lutas pelo futuro”, explicou que as guerras contemporâneas deixaram de ser apenas confrontos militares para tornar-se uma ofensiva permanente destinada a controlar territórios, garantir o acesso aos bens naturais e reorganizar a vida dos povos em benefício do capital.

Barrios destacou que a militarização atual ultrapassa o âmbito estritamente militar, manifestando-se por meio da expansão de bases, operações de segurança, políticas de controle territorial, criminalização de populações e fortalecimento dos mecanismos de vigilância, que acompanham os processos de despojo em diferentes regiões do mundo.

Segundo ele, as disputas geopolíticas entre grandes potências também refletem uma crescente competição por minerais estratégicos, água, energia e outros recursos essenciais tanto para o desenvolvimento tecnológico quanto para a indústria militar. Nesse contexto, os territórios habitados pelos povos tornam-se espaços permanentes de disputa.

O pesquisador advertiu ainda que a chamada “guerra às drogas” serviu, em diversos países da América Latina, como justificativa para aprofundar processos de militarização e controle social. Em sua avaliação, essas estratégias não reduziram a violência, mas favoreceram a fragmentação dos territórios e a expansão de grupos armados que disputam recursos, rotas comerciais e atividades econômicas muito além do tráfico de drogas.

Também chamou atenção para o crescimento contínuo dos gastos militares em escala global, o desenvolvimento de novas tecnologias de guerra — como inteligência artificial e drones — e a ampliação da presença militar dos Estados Unidos em diversas regiões do continente, fatores que apontam para conflitos cada vez mais prolongados e complexos.

Apesar desse panorama, Barrios rejeitou a ideia de que o futuro esteja condenado à guerra. Destacou que as resistências construídas por povos, comunidades e movimentos sociais continuam demonstrando que existem alternativas ao despojo e à militarização.

“A luta pela Mãe Terra é também a luta pelo futuro”, afirmou, defendendo o fortalecimento da organização coletiva, da autonomia e da defesa da vida como resposta a uma época marcada pela violência e pela disputa pelos territórios.


Andrea Horcasitas Martínez – “Diante do horror: a busca e a promessa do reencontro”

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(Baixe o áudio aqui)

A pesquisadora e ativista Andrea Horcasitas Martínez refletiu sobre o desaparecimento de pessoas no México como uma das expressões mais cruéis da guerra contra a humanidade. Agradeceu ao movimento zapatista por abrir um espaço de diálogo e destacou que sua análise nasce do aprendizado compartilhado com as famílias buscadoras. Sua exposição organizou-se em três eixos: o diagnóstico da crise, a disputa em torno dos números e a esperança construída pela busca coletiva.

Afirmou que o desaparecimento forçado não é um fenômeno novo nem exclusivo do México, mas que, desde o início da chamada guerra às drogas, o país atingiu níveis de violência sem precedentes na América Latina. Mais de 135 mil pessoas desaparecidas, milhares de valas clandestinas e dezenas de milhares de corpos sem identificação revelam uma crise que vai muito além das estatísticas.

Segundo a autora, o desaparecimento tornou-se uma tecnologia de guerra vinculada ao despojo territorial, ao deslocamento forçado, ao recrutamento compulsório e à acumulação de riqueza por meio da violência. As valas clandestinas transformaram a relação das comunidades com seus territórios, pois deixaram de existir apenas em locais remotos e passaram a aparecer também em cidades, escolas, parques e espaços cotidianos.

Na segunda parte de sua fala, denunciou o que chama de “guerra contra os números”: o esforço do Estado para minimizar a dimensão da tragédia por meio da manipulação estatística e de discursos que desumanizam as vítimas. Criticou a redução do problema a percentuais e categorias administrativas enquanto persistem a impunidade, a criminalização das pessoas desaparecidas e a ausência de investigações eficazes.

Por fim, contrapôs a essa política de esquecimento a resistência das famílias buscadoras. São mães, pais, irmãs, irmãos e filhos que, diante da ausência de respostas oficiais, organizam buscas, escavam a terra e constroem redes de solidariedade para encontrar seus entes queridos e todas as pessoas desaparecidas. A busca deixa de ser um ato individual e transforma-se em uma causa coletiva baseada na memória, na dignidade e na defesa da vida. Para Andrea Horcasitas, a esperança não consiste em negar o horror, mas na capacidade das famílias de transformar a dor em organização, solidariedade e resistência.


Raúl Romero – “Corporações criminosas e as lutas pela Vida”

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

Em sua apresentação “Corporações criminosas e as lutas pela vida”, Raúl Romero argumentou que a violência vivida no México não pode ser compreendida apenas como um problema de narcotráfico ou de insegurança, mas como expressão de um capitalismo criminoso que utiliza a guerra, o despojo e a violência para favorecer processos de acumulação de riqueza.

A partir de sua experiência junto a organizações sociais, famílias buscadoras e vítimas da violência, afirmou que a guerra iniciada em 2006 fortaleceu as organizações criminosas em vez de enfraquecê-las, deixando como saldo mais de 135 mil pessoas desaparecidas, centenas de milhares de assassinatos e deslocamentos forçados.

Romero sustenta que o crime organizado integra uma estrutura transnacional formada por atores legais e ilegais — banqueiros, empresários, políticos, forças de segurança, fabricantes de armas e grupos criminosos. Essas redes, que denomina corporações criminosas, funcionam como empresas globais diversificadas, atuando no tráfico de pessoas, armas e recursos naturais, lavagem de dinheiro, crimes financeiros e cibernéticos, entre outras atividades.

O autor apresenta ainda o conceito de estatalidade criminosa, segundo o qual o Estado mexicano não fracassou, mas foi reconfigurado para responder às necessidades do capitalismo criminoso e do capitalismo extrativista. Nesse contexto, a fronteira entre o legal e o ilegal torna-se difusa quando instituições e governos colaboram com essas redes, garantindo impunidade e facilitando o despojo territorial associado aos megaprojetos. Para Romero, a militarização não representa uma solução; ao contrário, conviveu e alimentou a expansão do crime organizado.

Como contraponto, destacou as lutas pela vida, protagonizadas por povos indígenas e camponeses que defendem seus territórios, famílias buscadoras, organizações de direitos humanos, caravanas migrantes, coletivos juvenis e diversas iniciativas comunitárias que colocam a vida, a solidariedade e o bem comum no centro de sua ação política.

Segundo Romero, essas resistências representam uma alternativa ética e política ao capitalismo criminoso, apostando na organização coletiva, na memória, na arte, na cultura e na defesa dos territórios como caminhos para construir um mundo em que a vida prevaleça sobre a lógica do despojo, da acumulação e da morte.


Subcomandante Insurgente Moisés – Mensagem às famílias buscadoras

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

Falando em nome do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena do EZLN, o Subcomandante Insurgente Moisés dirigiu uma mensagem às famílias buscadoras, expressando a solidariedade zapatista e reconhecendo sua luta como exemplo de dignidade, resistência e esperança.

Afirmou que os zapatistas se identificam com sua experiência porque, como povos originários, também foram historicamente invisibilizados e excluídos pelo sistema capitalista. Por isso, consideram as pessoas desaparecidas parte de sua própria família e compartilham a dor de quem as procura.

Anunciou que o EZLN decidiu aproximar-se das famílias buscadoras, reunir-se com elas na Cidade do México e, sobretudo, escutá-las, reconhecendo o valor de sua experiência e de sua luta.

Enquanto persistirem os desaparecimentos, a violência e a injustiça, afirmou, o México continuará distante do país que desejam construir. Somente por meio da organização coletiva, da luta e do trabalho conjunto será possível construir um país verdadeiramente justo e digno.

Por fim, fez um chamado aos povos do campo e da cidade para que se unam e se organizem, lembrando que ninguém resolverá esses problemas em seu lugar. A responsabilidade de transformar o presente cabe à sociedade civil organizada; somente assim será possível deixar um futuro melhor para as próximas gerações.


Capitán Insurgente Marcos

Texto completo aqui.

(Baixe o áudio aqui)

Ao encerrar o quarto dia do Semillero, o Capitão Marcos agradeceu às pessoas participantes por suas contribuições e refletiu sobre o impacto das exposições no público zapatista. Longe de apenas confirmar conhecimentos prévios, afirmou que as apresentações revelaram aspectos da realidade que ele próprio desconhecia e que enriquecem a análise zapatista sobre a crise atual.

Destacou a importância de articular diferentes formas de conhecimento — a experiência das comunidades, o trabalho científico, a pesquisa e a prática política — compreendendo que todas podem conduzir a conclusões comuns por caminhos distintos.

Também agradeceu o esforço das e dos palestrantes, que custearam suas próprias viagens e compartilharam generosamente seus conhecimentos com um público formado por ouvintes zapatistas, militantes, integrantes de organizações da sociedade civil, ativistas, pessoas solidárias e muitos outros.

Segundo o Capitão, as intervenções realizadas até o momento constituem um verdadeiro semillero de ideias e aprendizagens para o zapatismo. Concluiu agradecendo tanto aos que já participaram quanto aos que ainda participariam, expressando o desejo de que o encontro fortaleça a reflexão coletiva e que os aprendizados adquiridos sejam levados aos lugares de origem de cada participante, contribuindo para a construção de novas formas de organização e resistência.

Fotos: Alberto Vidal para RZ

Fotos: Radio Pozol

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Radio Zapatista

Dia 3 do Encontro “Guerra contra a Humanidade”

Dia 3 do Encontro “Guerra contra a Humanidade”
(As populações e a natureza sob cerco)

22 de julho de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

No auditório lotado do Cideci / Universidad de la Tierra Chiapas, reuniram-se, em 22 de julho de 2026, 645 pessoas de 27 regiões do mundo, além de mais de 200 “escutas” zapatistas, para o terceiro dia do Semillero Guerra contra la Humanidad (Las poblaciones y la naturaleza bajo asedio).

Nesse grande espaço de pensamento crítico, foram compartilhadas reflexões profundas sobre a fase atual do capitalismo, assim como sobre o genocídio do povo palestino, mas também sobre sua resistência e dignidade.

Compartilhamos aqui um resumo das conferências, bem como os áudios e os links para os textos completos, que consideramos fundamentais para compreender o nosso mundo e, assim, construir coletivamente alternativas reais diante do desastre que nos assola.


Carlos Alberto Ríos Gordillo – “Rastrear a hidra de muitas cabeças. Pistas para uma contra-história rebelde”

Texto da fala completa aqui.

(Baixe o áudio aqui)

O historiador Carlos Alberto Ríos compartilha uma reflexão sobre o pensamento crítico diante da hidra capitalista, representada como uma “hidra de muitas cabeças”, que pode ser compreendida e enfrentada quando aprendemos a ler seus rastros, identificar suas transformações e reconhecer a forma como reproduz a exploração, o despojo, a repressão e a devastação da natureza.

Ríos retoma o seminário “O pensamento crítico diante da hidra capitalista”, realizado há mais de uma década, no qual o Exército Zapatista de Libertação Nacional comparou o capitalismo à hidra da mitologia: um monstro que se fortalece sempre que é atacado. No entanto, afirma que ele não é invencível, e que sua principal fraqueza pode ser descoberta por meio do pensamento crítico e da organização coletiva.

O historiador recorda um dos relatos da sabedoria do Velho Antônio, no conto “Os riachos quando descem”, que simboliza aqueles que “leem os rastros”: pessoas que não apenas observam os sinais, mas identificam o perigo na montanha, se escondem, antecipam-se e se preparam para o ataque. Mas, enfatiza, não basta identificar o adversário; é preciso compreender como ele reescreve a história para justificar a dominação e ocultar as causas profundas da desigualdade.

Segundo Ríos, é fundamental narrar a história a partir da perspectiva dos povos que resistem, e não da versão dos vencedores. Cada rastro do capitalismo — massacres, desaparecimentos, espoliações, crises ambientais ou megaprojetos — revela a lógica da acumulação de capital por trás dos conflitos contemporâneos.

O historiador reivindica a experiência da autonomia zapatista e a forma como os zapatistas aprenderam a ler o mundo, narrar sua história e revelar aquilo que se encontra ao redor dos rastros. A partir deles, sabem quem é o inimigo, de onde veio, como mudou, para onde vai e como enfrentá-lo.

Ríos interpreta as treze reivindicações históricas do EZLN — terra, moradia, trabalho, alimentação, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça, paz, informação e cultura — como uma alternativa concreta ao modelo capitalista. São, afirma, “palavras mágicas”, pois permitem imaginar um mundo voltado para a vida. Não são apenas definições de dicionário; como ensina “A história das palavras”, do Velho Antônio, elas precisam carregar coração.

Essas demandas tornam-se práticas cotidianas nas comunidades autônomas, onde a organização, o autogoverno e o princípio de “mandar obedecendo” demonstram que outras formas de vida são possíveis.

Ao mesmo tempo, alerta que o capitalismo não combate apenas militarmente as experiências rebeldes, mas também procura apropriar-se de seus aprendizados por meio de estratégias contrainsurgentes, programas assistencialistas e mecanismos de cooptação. Por isso, insiste: ler os rastros do inimigo não basta; a verdadeira defesa está na organização comunitária e na construção permanente de alternativas.

Conclui afirmando que “rastrear” não é apenas um método de interpretação da história, mas uma ferramenta política para desmascarar o poder e revelar possibilidades de transformação onde o sistema insiste em afirmar que não há alternativas. Nessa perspectiva, a contra-história zapatista convida a narrar o mundo “desde baixo e à esquerda”, reconhecendo na resistência cotidiana dos povos o lugar onde ainda é possível semear esperança diante da crise global.


Mateo Crossa Niell: Os novos rostos da exploração na guerra do capital contra a classe trabalhadora

Texto da fala completa aqui.

(Baixe o áudio aqui)

O pesquisador e doutor em Estudos Latino-Americanos pela UNAM, Mateo Crossa Niell, afirmou que o capitalismo atravessa uma nova etapa marcada pela acelerada concentração da riqueza e pela aliança entre o capital financeiro e as grandes corporações tecnológicas, processo que transforma as formas de exploração do trabalho e o papel dos Estados.

Durante sua conferência no Cideci/UniTierra Chiapas, explicou que, após a pandemia de COVID-19, a concentração do capital aumentou em velocidade sem precedentes. Destacou que o centro do poder econômico já não está apenas nos grandes empresários, mas em gestoras globais de ativos como BlackRock, Vanguard e State Street, cuja influência se estende a milhares de empresas estratégicas, incluindo as principais companhias de tecnologia.

Crossa afirmou que essa convergência entre finanças e tecnologia permite concentrar o controle sobre plataformas digitais, infraestrutura computacional e inteligência artificial. Segundo ele, essas ferramentas não estão voltadas para libertar o trabalho humano, mas para intensificar a exploração, fortalecer monopólios e ampliar os mecanismos de vigilância e controle.

Também argumentou que o ressurgimento dos discursos nacionalistas responde à necessidade do capital de voltar a utilizar o Estado-nação como instrumento para reorganizar a competição global, legitimar processos de militarização e proteger os interesses econômicos dominantes.

Na segunda parte da exposição, abordou as novas formas de exploração do trabalho. Contestou a ideia de que a inteligência artificial substituirá massivamente os trabalhadores e sustentou que, ao contrário, ela amplia e reorganiza a exploração do trabalho humano. Afirmou que a classe trabalhadora atual inclui não apenas operários industriais, mas também empregados do setor de serviços, entregadores por aplicativo, trabalhadores de plataformas digitais, desenvolvedores de software, profissionais da logística, migrantes e pessoas que realizam tarefas invisíveis para treinar sistemas de inteligência artificial.

Retomando o conceito de “infoproletariado”, explicou que milhões de pessoas trabalham sob vigilância permanente, ritmos intensificados e crescente precarização. Criticou os modelos de contratação por plataformas, que mantêm os trabalhadores disponíveis sem garantir renda mínima e excluem o tempo de espera da jornada de trabalho, transferindo os riscos empresariais para quem trabalha.

Destacou ainda a existência dos chamados ghost workers (“trabalhadores fantasmas”), pessoas que, de suas casas, rotulam imagens, textos e dados para treinar algoritmos, geralmente por meio de subcontratações internacionais, recebendo baixos salários e utilizando seus próprios recursos. Para ele, a inteligência artificial não elimina o trabalho humano, mas o torna invisível.

Como conclusão, Crossa Niell afirmou que a classe trabalhadora do século XXI é mais ampla, diversa e dispersa do que nunca, mas continua sendo a base do funcionamento do capitalismo. Diante das novas formas de exploração, defendeu o reconhecimento dessa nova composição do trabalho e o fortalecimento da organização coletiva como resposta aos desafios do capitalismo contemporâneo.


Subcomandante Insurgente Moisés

Texto completo aqui.

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O Subcomandante Insurgente Moisés afirmou que o problema central do capitalismo é a propriedade privada, origem da exploração, da desigualdade, da injustiça e da destruição da vida. Explicou que os zapatistas escutam atentamente as análises apresentadas no encontro para confirmar, a partir de diferentes realidades do mundo, que o sistema capitalista concentra cada vez mais o poder econômico, político e militar nas mãos de poucos proprietários.

Diante disso, afirmou que a principal pergunta já não é como funciona o sistema, mas o que fazer para transformá-lo. A resposta construída pelas comunidades zapatistas é o comum, uma forma coletiva de organizar a vida inspirada nas experiências de seus antepassados, que enfrentaram a exploração organizando-se comunitariamente.

Explicou que o comum não significa retirar os bens individuais, mas produzir coletivamente aquilo que beneficiará a todos: a terra, a saúde, a educação, o conhecimento e os frutos do trabalho. Insistiu que esse modelo nasce da prática, do aprendizado constante e da organização.

Também ressaltou que a transformação exige a participação de todas as gerações: os mais velhos contribuem com sua experiência e os mais jovens garantem a continuidade da luta. Defendeu ainda que a organização deve surgir em todos os espaços onde exista exploração — no campo, na cidade, nas escolas, nos hospitais, nas fábricas e entre os povos originários — fortalecendo-se sobretudo pela prática.

Criticou as políticas da chamada Quarta Transformação, considerando que aprofundaram a fragmentação das comunidades e favoreceram novas formas de espoliação. Por fim, advertiu que o capitalismo acelera a destruição da natureza e afirmou que ninguém libertará os povos se eles próprios não se organizarem. Concluiu que o capitalismo é um sistema desumano, cruel e criminoso, impossível de ser humanizado, defendendo a construção de alternativas coletivas desde baixo e em comum.


Capitão Insurgente Marcos – O amor e o desamor segundo o Exército Zapatista de Liberação Nacional

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Para o EZLN, explicou poeticamente o Capitão Insurgente Marcos, o amor e o desamor são princípios éticos e políticos. O amor, afirmou, é uma semente que exige cuidado, perseverança e compromisso constante para florescer. O verdadeiro amor não busca a semelhança, mas nasce do reconhecimento e do respeito às diferenças, preservando um caminho comum sem que cada pessoa ou coletivo renuncie à sua própria identidade. Para o zapatismo, amar significa fazer com que aqueles que caminham juntos sejam sempre melhores, tanto individual quanto coletivamente.

Em contraste, o desamor está relacionado ao esquecimento, ao oportunismo, ao interesse passageiro e ao uso das pessoas ou das lutas para obter benefícios próprios. O EZLN distingue, assim, aqueles que permaneceram solidários ao longo do tempo daqueles que se aproximaram apenas por conveniência ou por modismo.

O EZLN também reconhece e agradece a todos que acompanham a luta zapatista há décadas: comunidades religiosas comprometidas, defensoras e defensores de direitos humanos, artistas, intelectuais, organizações sociais, jovens, pessoas mais velhas — ou “de juízo” — e movimentos do México e do mundo que compartilharam essa resistência sem deixar de ser quem são. Destaca, de maneira especial, as mães buscadoras, cuja luta representa um exemplo de dignidade e resistência.

Por fim, o EZLN estende esse amor solidário a todas as lutas históricas contra a opressão e, em particular, à Palestina, símbolo contemporâneo que concentra as contradições, as violências e as resistências diante do capitalismo, e cuja causa permanece como uma expressão viva da luta pela vida e pela dignidade.


Micaela Gramajo – “Proyecto Olivo”

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Micaela Gramajo apresentou uma reflexão sobre a história da Palestina, o sionismo e o papel da arte como ferramenta de memória, denúncia e solidariedade. Iniciou sua exposição com um percurso histórico que situou a Palestina como um território habitado, com vida política, social e cultural própria antes da criação do Estado de Israel. Explicou que a Declaração Balfour (1917), a imigração sionista promovida durante o mandato britânico, a Nakba de 1948, a ocupação de 1967 e o bloqueio de Gaza consolidaram um processo de colonização, expropriação e apartheid que, segundo ela, culmina no atual genocídio.

A autora definiu o sionismo como uma ideologia política colonial e ressaltou que ele não deve ser confundido com o judaísmo. Lembrou a existência de correntes históricas de judeus antissionistas, como o Bund, e criticou o uso da acusação de antissemitismo para desqualificar críticas ao Estado de Israel. A partir de sua própria história familiar — marcada pelo Holocausto e pelo exílio durante a ditadura argentina — relatou como chegou ao antissionismo e sua participação no coletivo Judíes por una Palestina Libre, que defende o fim do genocídio, o direito de retorno do povo palestino e a articulação das lutas por justiça.

Na segunda parte de sua intervenção, apresentou o processo de criação da obra Projeto Oliveira, uma peça teatral desenvolvida em conjunto com duas meninas mexicanas e o palestino Omar, cuja história familiar permitiu narrar a história da Palestina desde 1948 até os dias atuais. Destacou que a obra privilegia o testemunho e a presença das próprias crianças em cena, em vez da representação teatral tradicional, transformando o palco em um espaço de encontro, aprendizado e solidariedade.

Por fim, Gramajo refletiu sobre o adultocentrismo e propôs reconhecer crianças e jovens como sujeitos políticos, capazes de participar, decidir e transformar sua realidade. Defendeu a construção de formas de protagonismo compartilhado entre gerações e concluiu lembrando o impacto devastador da guerra sobre a infância palestina, reafirmando a necessidade de ouvir suas vozes e manter viva a solidariedade com a Palestina.


Ivan Prado – Palestina, palavra semente de esperança, raiz da humanidade

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Em uma emocionante intervenção, Iván Prado compartilhou uma reflexão política e pessoal sobre a Palestina a partir de sua experiência como integrante do Pallasos en Rebeldía, organização com a qual atua há mais de duas décadas em territórios palestinos. Por meio de relatos vividos em Gaza e na Cisjordânia, mostrou como a arte — especialmente o circo e o teatro — se transforma em uma forma de resistência diante da ocupação. Destacou a dignidade, a solidariedade e a capacidade de esperança do povo palestino, simbolizadas na história de um palhaço que continuou levando alegria aos pacientes de um hospital durante um apagão provocado pela falta de combustível. Para Prado, essas experiências demonstram que a vida e a solidariedade são mais fortes do que a destruição.

Prado sustenta que Israel constitui um projeto militar e colonial baseado na ocupação, no despojo e na destruição sistemática do território palestino, que define como uma forma de “necrocolonialismo”. Segundo ele, essa lógica busca não apenas controlar a terra, mas também apagar a memória, a cultura e as condições de vida do povo palestino. Ao mesmo tempo, afirma que o Estado israelense exerce forte influência internacional nos campos político, midiático e tecnológico.

Diante desse cenário, defende o fortalecimento da solidariedade internacional por meio de iniciativas como o movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) e enfatiza a importância de distinguir entre judaísmo e sionismo, reconhecendo a existência de comunidades e movimentos judaicos antissionistas que rejeitam as políticas do Estado de Israel.

Prado conclui que a Palestina tornou-se um símbolo universal de resistência e esperança. Sua luta ultrapassa as fronteiras geográficas e representa a defesa da dignidade humana diante da injustiça. Hoje, afirma, a Palestina é uma “palavra-semente” que inspira a solidariedade internacional e a construção de um mundo mais justo, no qual a resistência e a vida prevaleçam sobre a violência e a opressão.

Fotos: Radio Pozol

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Radio Zapatista

Dia 2 do Encontro “Guerra contra a Humanidad”

Día 2 do Encontro “Guerra contra a Humanidade”
(As populalçoes e a natureza sob cerco)

21 de julho de 2026
Cideci / Universidad de la Tierra, Chiapas

O segundo dia do Seminário “Guerra contra a Humanidade” reuniu as reflexões da jornalista independente e professora do ITESO Alejandra Guillén González, com a apresentação “Desaparecimento e recrutamento forçado para a acumulação de capital. Fissuras de resistência diante da nova dominação”; do historiador e pesquisador Ilán Semo, que falou sobre “A queda da antiga ordem e as novas formas da guerra”; do etnólogo Mauricio González González, com a conferência “A guerra por outros meios: fracking em territórios insubmissos”; e do cientista político e mestre em meio ambiente Pablo Montaño, que apresentou a palestra “A palavra esperança diante da Guerra contra a Natureza”. O Capitão Insurgente Marcos leu o conto “O amor e o desamor segundo Sombra, o guerreiro” e, ao final do dia, dirigiu algumas perguntas aos dois últimos palestrantes.

São reflexões a partir de diferentes perspectivas que ajudam não apenas a compreender algumas das diversas formas pelas quais o Estado capitalista em geral — e o mexicano em particular — devasta territórios e sociedades, mas também a vislumbrar a esperança nas múltiplas formas de resistência e de construção de outras realidades desde baixo.

Apresentamos aqui um resumo das conferências e disponibilizamos aos leitores os áudios originais e suas transcrições completas.


Alejandra Guillén – “Desaparecimento e recrutamento forçado para a acumulação de capital. Fissuras de resistência diante da nova dominação”

Texto da fala completa aqui.

(Baixe o áudio aqui)

Alejandra Guillén analisou como os desaparecimentos e o recrutamento forçado fazem parte de uma estratégia de acumulação de capital ligada à expansão de corporações criminosas, em conluio com interesses econômicos e estatais. A partir do caso de Jorge, desaparecido em 2012 no estado de Jalisco, ela sustenta que, desde aqueles anos, começou a se consolidar um modelo de escravidão e recrutamento destinado à formação de exércitos para controlar territórios, proteger negócios legais e ilegais e facilitar a expropriação de recursos naturais.

A autora explica que essa violência não pode ser compreendida de forma isolada. O desaparecimento de pessoas, o deslocamento forçado, a devastação ambiental e o saque de florestas, minas e terras obedecem à mesma lógica. Em regiões como Jalisco, Michoacán e a Serra Madre Ocidental, a destruição de comunidades camponesas e indígenas foi acompanhada pelo avanço de megaprojetos, monoculturas e economias criminosas. O objetivo é esvaziar os territórios para exercer controle total sobre eles.

Guillén descreve o funcionamento do recrutamento forçado: por meio de enganos, falsas ofertas de emprego, detenções arbitrárias ou ameaças, milhares de jovens são levados para centros de treinamento, onde são submetidos a extrema violência para serem transformados em integrantes de grupos armados. Os que sobrevivem são enviados para diferentes estados, onde continuam as disputas territoriais. Essa engrenagem exige transformar as vítimas em algozes para garantir o domínio e a expansão do negócio criminoso.

Ela também destacou o papel fundamental das mães que buscam seus familiares desaparecidos, responsáveis por revelar a dimensão do fenômeno, documentar centros de recrutamento e obrigar o país a encarar uma realidade que permaneceu oculta durante anos. Graças ao trabalho dessas mulheres, tornaram-se conhecidos testemunhos e evidências que ajudam a compreender melhor a estrutura dessas redes.

Diante desse cenário, Guillén identifica espaços de resistência. Destaca comunidades como Ostula, Cherán e diversos povos wixaritari, onde a organização comunitária, a defesa do território, a vida espiritual e a relação com a natureza dificultaram o avanço dessas formas de dominação. Ela recupera ainda as vozes de professores e moradores indígenas que afirmam que a proteção do território e a relação com a Mãe Terra são inseparáveis do cuidado com a vida e com as novas gerações.

Guillén conclui que o desaparecimento de pessoas, a guerra contra as comunidades e a devastação ambiental fazem parte de um mesmo processo de espoliação. Diante disso, afirma que os ensinamentos das mães buscadoras e dos povos organizados mostram que ainda existem fissuras de resistência. O desafio é impedir que continuem o recrutamento e o desaparecimento de mais pessoas, fortalecer a defesa comunitária do território e evitar que a violência tenha a última palavra.


Ilán Semo – “A queda da antiga ordem e as novas formas da guerra”

Texto completo da fala aqui.

(Baixe o áudio aqui)

O historiador Ilán Semo iniciou sua fala celebrando a próxima chegada dos zapatistas à Cidade do México, em dezembro deste ano, mas observou que a capital perdeu grande parte de sua tradição de organização social e participação política. Descreveu uma cidade marcada pelo isolamento, pelo uso excessivo das telas, pela predominância do automóvel e pelo medo decorrente da violência, elementos que considera parte de uma estratégia de controle social.

Para desenvolver seu argumento, recorreu a uma antiga lenda persa na qual um pretendente escolhe um brasão de cobre em vez de ouro ou prata, porque ele representa o pertencimento a uma comunidade e a um território. A partir dessa história, explicou as ideias de Pufendorf e Clausewitz sobre a guerra: o objetivo principal não é apenas conquistar territórios, mas destruir o sentido de comunidade do adversário para, posteriormente, impor uma nova ordem ou hegemonia. Relacionou essa interpretação a diversos processos históricos, como a conquista da América, a Independência do México, o colonialismo europeu e as duas guerras mundiais.

Semo sustenta que as guerras contemporâneas mudaram profundamente. Já não buscam apenas derrotar militarmente o inimigo, mas fragmentar as sociedades mediante a destruição de seus vínculos comunitários. Como exemplos, menciona conflitos recentes na Palestina, Síria, Líbia e Ucrânia, onde predominam ataques aéreos, uso de drones, vigilância digital e a chamada “guerra cognitiva”, cujo objetivo é semear dúvidas, desinformação e desconfiança entre a população. Destaca também a importância da disputa pelas narrativas, pois quem controla o relato pode influenciar a percepção da realidade e fortalecer seu poder.

No âmbito internacional, interpreta conflitos como o do Irã a partir de uma perspectiva geopolítica e econômica, argumentando que estão ligados à defesa da hegemonia do dólar e ao surgimento de novos equilíbrios econômicos na Ásia. Também alerta para o crescente risco de um confronto entre grandes potências e para a possibilidade de uma escalada nuclear.

Por fim, aplica essa análise ao caso mexicano. Afirma que o narcotráfico tem sido utilizado como técnica de governo que gera medo, limita a vida comunitária e facilita o avanço de interesses econômicos e políticos. Concluiu ampliando sua reflexão para a crise ambiental e os maus-tratos aos animais, assinalando que a destruição da natureza e dos ecossistemas implica também a destruição das comunidades humanas. Por isso, defende a proteção do território, da vida e de todas as espécies como elementos indispensáveis para construir um futuro comum.


Capitán Insurgente Marcos – “O amor e o desamor segundo Sombra, o guerreiro”

Texto completo aqui.

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O Capitão Insurgente Marcos leu o conto “O amor e o desamor segundo Sombra, o guerreiro”, que, segundo explicou, é dirigido aos 200 ouvintes zapatistas sentados ao fundo do auditório, bem como a todas as bases de apoio que acompanhavam a transmissão nos diferentes caracóis.

Com humor, o conto reflete sobre a figura do guerreiro a partir da cosmovisão maia e zapatista. Por meio de um diálogo com um personagem que vive “entre as sombras”, recupera um ensinamento do Popol Vuh: os primeiros seres humanos eram capazes de compreender simultaneamente o todo e as partes, capacidade que os deuses limitaram, mas cuja lembrança permanece fragmentada na memória dos povos.

Segundo o narrador, as comunidades maias não foram derrotadas apenas pelos conquistadores, mas também pela divisão, pela inveja e pela adoção dos valores do opressor, como a ambição, a competição e o individualismo. Diante disso, a principal tarefa do guerreiro é reconstruir a memória coletiva, buscar os conhecimentos dispersos, aprender com outros povos e fortalecer o sentido de comunidade sem perder a própria identidade.

A terra, a água, a natureza e a memória não são mercadorias nem propriedade de ninguém, mas bens comuns que devem ser protegidos. Por isso, o verdadeiro inimigo não é uma pessoa em particular, mas o sistema que transforma a vida em objeto de exploração e destrói culturas, territórios e povos.

O guerreiro não se distingue pela força física, mas pela capacidade de estudar, questionar, aprender e olhar além do presente. Deve compreender tanto o passado quanto o futuro, reconhecer que precisa dos outros e construir alianças com aqueles que também lutam pela vida e pela justiça. Sua missão não é conquistar nem dominar, mas defender a liberdade, a dignidade e a Mãe Terra.

O conto conclui afirmando que o guerreiro é aquele capaz de imaginar um mundo que ainda não existe e trabalhar coletivamente para torná-lo realidade. A essa capacidade de sonhar um futuro diferente, os povos zapatistas chamam de lutar.


Mauricio González González – “A guerra por outros meios: fracking em territórios insubmissos”

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Mauricio González iniciou recordando sua participação na apresentação do relatório sobre os impactos psicossociais do caso Ayotzinapa e expressou sua indignação diante da recente recomendação da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, que, segundo ele, revitimiza as famílias e inocenta o Exército.

A partir disso, introduziu o tema central de sua exposição: o fracking como forma de guerra contra os territórios e as comunidades. Explicou que o fracking, ou fraturamento hidráulico, é uma técnica de extração de gás e petróleo por meio de perfurações profundas e da injeção de grandes volumes de água, areia e substâncias químicas. Com base em pesquisas científicas e testemunhos reunidos ao longo de mais de quinze anos, afirma que essa prática provoca contaminação da água e do ar, perda de biodiversidade, danos à agricultura, impactos sobre a saúde, conflitos sociais e deterioração dos modos de vida dos povos indígenas.

O impulso ao fracking responde ao esgotamento das jazidas convencionais de hidrocarbonetos e à dependência energética do México em relação ao gás importado dos Estados Unidos. Apesar das promessas de proibir essa técnica, o governo promove o chamado “fracking sustentável”. González advertiu que sua expansão coloca em risco milhões de pessoas, comunidades indígenas, ejidos e territórios já marcados por graves problemas de disponibilidade de água, enquanto os benefícios energéticos seriam limitados e de curta duração.

Diante desse cenário, destacou a resistência organizada de comunidades, assembleias e organizações que se declararam livres do fracking e promoveram ações judiciais para impedir sua expansão. Ressaltou que esses povos não apenas defendem seus territórios, mas também preservam formas de produção e de cuidado com a natureza que geram biodiversidade e fortalecem a vida comunitária.

González concluiu argumentando que o modelo energético baseado nos combustíveis fósseis é inseparável do capitalismo e da exploração dos territórios. Em vez de uma simples transição energética, propõe uma transformação socioenergética baseada em relações comunitárias, antipatriarcais, anticapitalistas e respeitosas da natureza. O zapatismo, afirmou, é uma fonte de inspiração para imaginar e construir alternativas que defendam a vida e os territórios.


Pablo Montaño – “A palavra esperança diante da Guerra contra a Natureza”

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Pablo Montaño discutiu a guerra contra a natureza como consequência do modelo capitalista baseado na extração de recursos e no uso de combustíveis fósseis. O caso das escolas de Paraíso, no estado de Tabasco, localizadas ao lado da refinaria de Dos Bocas, demonstra como o chamado “desenvolvimento” afeta diretamente a saúde, o meio ambiente e a vida cotidiana das comunidades.

Montaño explicou que a mudança climática representa a expressão mais grave dessa crise. O aumento da temperatura global, provocado pelas emissões de dióxido de carbono, já produz fenômenos como secas, incêndios, furacões e inundações, além de acelerar uma sexta extinção em massa de espécies. Segundo ele, as grandes empresas petrolíferas conheciam esses riscos desde a década de 1970, mas ocultaram as informações e promoveram campanhas de desinformação para proteger seus interesses.

Um elemento central de sua reflexão é a batalha pelas narrativas. Empresas e governos impuseram conceitos como “gás natural”, “progresso” ou “desenvolvimento” para justificar projetos extrativistas, semeando dúvidas sobre seus impactos ambientais. Diante disso, considera necessário construir novas narrativas que fortaleçam a organização social e permitam imaginar alternativas ao modelo atual.

A esperança, afirmou Montaño, não vem dos governos nem das grandes corporações, mas das comunidades organizadas que defendem seus territórios. Compartilhou exemplos de resistências bem-sucedidas, como a oposição à instalação de plantas industriais, portos e megaprojetos, bem como a defesa de rios e ecossistemas, onde a comunicação, a solidariedade e a participação de coletivos urbanos fortaleceram as lutas locais.

Por fim, concluiu que a esperança não consiste em ignorar a gravidade da crise, mas em reconhecer que já existem experiências que demonstram ser possível deter a espoliação e proteger a vida. A defesa do território nasce do vínculo com os lugares que habitamos e da organização coletiva para construir futuros mais justos e sustentáveis.


Capitan Marcos – Perguntas aos palestrantes

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Por fim, o Capitão Marcos dirigiu aos palestrantes — e, de passagem, a todos nós — uma pergunta provocadora, irônica e bem-humorada, mas nem por isso menos séria:

Se vocês mesmos me dizem que é na comunidade que estão a salvação, a esperança, a possível saída deste pesadelo, então, com toda fraternidade, que diabos vocês estão fazendo?

Fotos: Radio Pozol

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Radio Zapatista

Dia 1: Encontro “Guerra contra a Humanidade”

“Um crime nos convoca”, disse o Capitão Insurgente Marcos na inauguração do Encontro “Guerra contra a Humanidade” (As populações e a natureza sob cerco), neste 20 de julho de 2026, no Cideci/Universidade da Terra, em San Cristóbal de Las Casas, Chiapas

(Baixe o áudio aqui)

um crime transbordando sangue, lama e merda; uma história que começa com a injustiça entronizada, a dor democratizada, a destruição que gera riqueza, prosperidade e desenvolvimento, a morte como programa de governo e símbolo do progresso: quanto mais mortes, mais modernidade em uma civilização. Um crime nos convoca, o crime por excelência, o crime transformado em sistema; um crime tão transparente que a luz não o atravessa, mas o transforma em espelho, em um prisma que se desfaz em cores agradáveis, desejáveis, atraentes, da moda, enfim; um crime tão popular que acumula trilhões de curtidas de suas próprias vítimas sacrificiais e, ainda assim, permanece insatisfeito.

O criminoso — o Estado capitalista — concentra-se agora em reprimir ou exterminar “os que sobram”, não apenas porque não são lucrativos, mas sobretudo porque representam o outro, o que não é homogêneo e, portanto, com sua diferença, desafiam o sistema.

Este encontro — um semillero (viveiro) de pensamento crítico — surge da necessidade urgente de refletir para compreender melhor o criminoso. Ao longo de cinco dias, pensadoras e pensadores refletirão sobre a configuração atual do Estado capitalista, tanto no México quanto no mundo; a devastação ecológica; a privatização de bens comuns, como a água; o fraturamento hidráulico (fracking); o ser humano como vítima, mas também como desafio ao sistema; a história como ferramenta de opressão e as histórias dos de baixo como arma de luta; o horror vivido na Palestina e a dignidade da resistência; as famílias que buscam pessoas desaparecidas; a reorganização urbana; a luta das mulheres; e o terror da extrema direita.


Gilberto López y Rivas – “Terrorismo global de Estado, militarização e recolonização dos territórios”

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Segundo a análise de López y Rivas, o capitalismo contemporâneo atravessa uma nova etapa caracterizada pelo aprofundamento da violência, da militarização e da recolonização dos territórios. Diferentemente de fases anteriores, nas quais o sistema mantinha certos mecanismos de mediação social, hoje predominam a coerção, a guerra, a criminalização dos protestos e o desmonte dos direitos conquistados pela classe trabalhadora.

O capitalismo atual conduz, assim, a uma crise civilizatória que se manifesta naquilo que os zapatistas chamam de “a tempestade”: mudança climática, esgotamento dos recursos naturais, destruição da biodiversidade, pobreza, migrações forçadas, guerras e aumento de diversas formas de violência.

O terrorismo global de Estado, liderado principalmente pelos Estados Unidos e respaldado por outras potências e organismos internacionais, constitui um instrumento fundamental para impor essa nova fase de acumulação capitalista por meio de intervenções militares, ocupações territoriais e da violação sistemática do direito internacional. “Os Estados Unidos, como potência hegemônica, instauraram a barbárie como um processo devastador para a humanidade e para a natureza”, afirmou López y Rivas.

No caso do México, os governos da chamada “Quarta Transformação” (4T) deram continuidade a processos iniciados durante o período neoliberal. A expansão dos megaprojetos, o fortalecimento do papel das Forças Armadas e a crescente participação do crime organizado configuram uma estratégia de militarização e controle territorial que afeta especialmente comunidades indígenas, camponesas e movimentos sociais. Sob o governo da 4T, o país foi militarizado como nunca antes em sua história. “A instituição militar realiza atualmente mais de 200 funções (…) que não estão previstas na Constituição nem em suas leis regulamentares”, afirma López y Rivas. Ao mesmo tempo, ao paramilitarismo — instrumento encoberto do Estado para assediar, deslocar e enfraquecer organizações populares sem assumir publicamente a responsabilidade pela violência, historicamente utilizado como mecanismo de contrainsurgência — soma-se agora o narcoparamilitarismo.

Diante desse cenário, os povos maias zapatistas, o EZLN, o Congresso Nacional Indígena e os diversos coletivos e organizações que lutam pela vida constituem uma alternativa real. Uma alternativa que não passa pela disputa do poder estatal, mas pela organização desde baixo, pela autonomia, pelo autogoverno, pelo princípio de “mandar obedecendo” e pela construção cotidiana de formas comunitárias de democracia.

López y Rivas concluiu convocando a academia, os artistas, os meios de comunicação, o magistério, os estudantes e todos os setores comprometidos com o pensamento crítico a acompanhar as lutas dos povos. Diante da crise do capitalismo e das múltiplas formas de violência contemporânea, torna-se indispensável fortalecer a organização coletiva, desenvolver um pensamento crítico capaz de compreender as transformações do mundo e manter viva a construção de alternativas voltadas para a defesa da vida, da justiça e da dignidade.


Alicia Castellanos – “Racismo y violencia contra los pueblos”

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Alicia Castellanos apresentou uma reflexão crítica sobre a relação entre racismo, violência e as formas contemporâneas de dominação que afetam povos e comunidades em diferentes regiões do mundo. Sua reflexão parte da ideia de que vivemos uma etapa de crise civilizatória marcada por uma profunda desigualdade, pela degradação ambiental e pela expansão de diversas formas de violência vinculadas ao capitalismo contemporâneo.

O racismo, explica Castellanos, é uma construção histórica que surgiu e se consolidou durante a expansão colonial europeia. Desde o século XVIII, a ideia de “raça” foi utilizada para estabelecer hierarquias entre os povos e justificar processos de dominação, exploração e espoliação. Embora hoje o conceito racial costume aparecer de maneira menos explícita, seus mecanismos persistem por meio de novas formas de exclusão baseadas em diferenças culturais, nacionais, religiosas, econômicas ou políticas.

Para Castellanos, o racismo funciona como uma ferramenta de poder que permite construir o “outro” como uma ameaça: um inimigo que deve ser controlado, expulso ou eliminado. Essa lógica esteve presente em diferentes processos históricos de colonialismo, genocídio, guerras e perseguições contra povos considerados inferiores ou perigosos.

Essa função do racismo também se aplica aos conflitos contemporâneos, especialmente ao genocídio do povo palestino, às políticas migratórias dirigidas contra comunidades estrangeiras e ao crescimento de discursos nacionalistas e autoritários que transformam determinados grupos sociais em bodes expiatórios durante períodos de crise. A normalização do ódio por parte das instituições e dos governos, adverte, abre caminho para formas extremas de violência.

Castellanos lembra que o escritor libanês Amin Maalouf propõe a ideia de “identidades assassinas”: “aquelas que reduzem a identidade de uma pessoa ou de um povo a uma única pertença”, servindo de fundamento para a violência contra os “outros” e para processos genocidas contemporâneos, como os ocorridos na Guatemala e, agora, na Palestina.

No caso do México, os megaprojetos de desenvolvimento — especialmente o “Trem Maia” — constituem exemplos paradigmáticos do racismo dirigido contra os povos originários. Esses projetos implicaram processos de transformação territorial, impactos ambientais, perda de biodiversidade, pressão sobre comunidades indígenas e uma crescente participação das Forças Armadas em atividades civis e econômicas. Nesse contexto, a militarização do território modifica as relações comunitárias e afeta os direitos coletivos dos povos.

Para os povos maias, a terra não representa apenas um recurso econômico, mas um espaço de memória, identidade, cultura e reprodução da vida. A destruição de ecossistemas, cenotes, florestas e formas tradicionais de organização comunitária constitui, assim, uma ameaça não apenas ambiental, mas também cultural.

A resistência e a organização desde baixo — especialmente aquelas impulsionadas pelos povos zapatistas e pelo Congresso Nacional Indígena — constituem uma resposta a esse cenário: formas alternativas de exercer o poder baseadas na autonomia, na participação comunitária e no princípio de “mandar obedecendo”.

Assim como López y Rivas, Castellanos conclamou ao fortalecimento do pensamento crítico como ferramenta para compreender as transformações do mundo atual e imaginar alternativas diante da violência, do racismo e da destruição ambiental. A resposta às chamadas “identidades assassinas” e às estruturas de dominação deve ser a construção de um “nós” fundamentado na solidariedade, na justiça, na igualdade e no respeito à diversidade.

Diante das forças que promovem a espoliação e a exclusão, os povos organizados mantêm viva a possibilidade de construir outros mundos sustentados na dignidade, na autonomia e na defesa da vida.


Wilfrido Gómez Arias – Nossa água, suas concessões: a arquitetura jurídica da espoliação e da concentração da água no México

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A água é um elemento essencial para a vida e encontra-se em constante movimento por meio do ciclo hidrológico. No entanto, sua distribuição no México é desigual. Enquanto algumas regiões do sudeste concentram grandes volumes de precipitação e disponibilidade hídrica, extensas áreas do norte enfrentam condições de escassez. Essa desigualdade natural foi agravada por um modelo de gestão que permitiu a superexploração, a contaminação e a concentração da água.

A partir do período neoliberal, foram promovidas transformações legais e institucionais que modificaram a relação do Estado com a água. A criação da Comissão Nacional da Água (CONAGUA), em 1989, e a promulgação da Lei de Águas Nacionais, em 1992, estabeleceram um sistema baseado em concessões, por meio do qual o Estado concedeu direitos administrativos para extrair, utilizar e explorar determinados volumes de água durante longos períodos.

Esse modelo transformou o acesso à água em um direito administrativo passível de acumulação, transferência e defesa jurídica. Embora a Constituição estabeleça que a água pertence à nação, o sistema de concessões permitiu que grandes agentes econômicos concentrassem volumes significativos, enquanto muitas comunidades e povos ficaram sem o reconhecimento formal de seus direitos históricos sobre suas fontes de água.

A ausência de um planejamento hídrico adequado provocou um processo de superconcessão. Em diversos aquíferos e bacias hidrográficas passou-se a extrair mais água do que aquela disponível para sua recuperação natural. Como consequência, centenas de aquíferos apresentam redução de suas reservas, e numerosas bacias mostram sinais de degradação. A atual crise da água não é apenas um problema de disponibilidade natural, mas também o resultado de decisões políticas, jurídicas e econômicas.

Os principais beneficiários do modelo de concessões foram grandes usuários públicos e privados ligados a setores como o agronegócio, a mineração, a indústria de transformação, a indústria de bebidas, o setor energético, o mercado imobiliário e grandes empreendimentos urbanos. Enquanto algumas empresas possuem concessões para extrair enormes volumes de água, inúmeras comunidades enfrentam desabastecimento, distribuição irregular, dependência de caminhões-pipa e degradação de suas fontes locais.

Os povos indígenas e os sistemas comunitários de gestão da água foram particularmente afetados. Embora historicamente tenham protegido nascentes, rios e áreas de recarga hídrica, suas formas tradicionais de administração não foram plenamente reconhecidas pelo marco jurídico. Em muitos casos, as fontes de água utilizadas pelas comunidades foram registradas em nome de municípios, particulares ou empresas.

Em 2012, o direito humano à água foi reconhecido constitucionalmente, estabelecendo que toda pessoa deve ter acesso à água suficiente, salubre, aceitável e acessível para suas necessidades pessoais e domésticas. No entanto, as reformas promovidas em 2025 não alteraram de forma substancial a estrutura do sistema de concessões. Embora tenham introduzido algumas mudanças administrativas, mantiveram a lógica central que permitiu a concentração da água nas mãos de poucos usuários.

Garantir o direito humano à água significa muito mais do que fornecer água por meio de caminhões-pipa ou garrafas. Significa assegurar um acesso permanente, seguro e digno, com sistemas públicos eficientes, participação cidadã e reconhecimento das comunidades que historicamente cuidaram da água.

A problemática da água no México reflete uma disputa entre duas visões: uma que compreende a água como mercadoria e outra que a reconhece como um bem comum indispensável à vida. Resolver a crise hídrica exige recuperar uma perspectiva baseada na justiça social, ambiental e territorial, na qual a água seja administrada para garantir a vida das pessoas, dos ecossistemas e das gerações futuras.


Carlos Tornel – “Capitalismo, guerra total e a rebelião do vivo”

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As palavras de Carlos Tornel partiram da provocação formulada pelo zapatismo há mais de duas décadas: a ideia de que vivemos uma Quarta Guerra Mundial, uma guerra que não se limita ao campo militar, mas atravessa a economia, a cultura, a informação, os territórios, os corpos e todas as formas de vida. Seu objetivo não é apenas derrotar inimigos, mas destruir, disciplinar ou reorganizar aquilo que não pode ser facilmente transformado em mercadoria: povos, memórias, autonomias, territórios comuns e formas distintas de se relacionar com a vida.

Essa guerra constitui um aspecto fundamental do funcionamento do capitalismo. Desde suas origens, a expansão capitalista dependeu da espoliação, da apropriação dos bens comuns e da transformação da natureza e das relações sociais em mercadorias. Hoje, diante do esgotamento dos recursos, da crise climática e das resistências territoriais, o capitalismo não reduz sua expansão; ao contrário, abre novas fronteiras de extração: mineração, combustíveis fósseis, minerais críticos e grandes infraestruturas energéticas e logísticas.

A crise ecológica não afeta toda a humanidade da mesma maneira. Não existe uma responsabilidade equivalente diante da degradação ambiental: as classes sociais, o gênero, a geografia e as relações coloniais determinam quem consome, quem decide e quem enfrenta as consequências. Por isso, a crise climática não pode ser compreendida como resultado de uma humanidade abstrata, mas como consequência histórica de um sistema baseado na acumulação, no colonialismo, no patriarcado e na exploração.

A guerra contra a natureza nasce de uma separação moderna entre a humanidade e o mundo vivo. A natureza foi transformada em objeto, recurso e propriedade, enquanto certos povos foram colocados do lado daquilo que seria “natural”, tendo sua autonomia e legitimidade negadas. Essa lógica permitiu justificar a conquista, o “desenvolvimento” e o “progresso” como caminhos universais, ocultando a violência necessária para impô-los.

Na atualidade surge uma nova forma de colonialismo climático. A crise ambiental já não é apenas negada; ela também é convertida em oportunidade de acumulação. Os mercados de carbono, as compensações ambientais, a mineração “verde” e determinadas formas de transição energética podem reproduzir as mesmas lógicas de espoliação sob uma nova linguagem de sustentabilidade. Os minerais necessários para as tecnologias digitais, energéticas e militares geram novas disputas territoriais, enquanto comunidades e ecossistemas são transformados em zonas de sacrifício.

Tornel também criticou a “maldição do ambientalismo”. Quando o cuidado da Terra se transforma em uma tarefa técnica administrada por especialistas, indicadores e mercados, a conservação perde seu vínculo com os territórios e converte-se em uma forma de governança que mede, controla e administra a natureza sem modificar as relações econômicas que produzem a devastação. A crise ecológica acaba sendo transferida para o indivíduo por meio da figura do “sujeito climático”, responsabilizado por mudar seus hábitos, enquanto as grandes estruturas de poder permanecem intactas.

Diante dessa situação, a proposta é “a rebelião do vivo”. A Terra não deve ser entendida como um objeto externo que precisa ser salvo, mas como a trama de relações da qual fazemos parte. Defender um rio, uma floresta, uma montanha ou um território significa defender comunidades, memórias, conhecimentos e modos de vida. A autonomia, o comum e as resistências territoriais demonstram que existem outras maneiras de organizar a existência para além da lógica da mercadoria.

A ideia de que somos a própria natureza defendendo a si mesma implica recuperar os vínculos com os territórios, reconstruir capacidades coletivas e reconhecer que a transformação não virá apenas dos Estados, das corporações ou da tecnologia, mas das práticas comunitárias que já existem. A segunda tempestade não é apenas a crise produzida pelo capitalismo, mas também a força dos povos, dos territórios e das formas de vida que se organizam para resistir a ela.

Tornel concluiu com um convite para abandonar a espera por soluções externas e recuperar a capacidade coletiva de construir outros mundos: não utopias distantes, mas espaços reais onde a autonomia, o cuidado e a vida em comum possam continuar florescendo diante da guerra contra a natureza.


Subcomandante Insurgente Moisés

O primeiro dia do encontro encerrou-se com um importante anúncio feito pelo Subcomandante Insurgente Moisés:

O próximo Encontro de Resistências e Rebeldias e o Encontro de Artes, previstos para dezembro de 2026, serão realizados na Cidade do México, na sede da Casa dos Povos e Comunidades Indígenas Samir Flores Soberanes.

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Aqui o comunicado completo.

Fotos: Radio Pozol