{"id":55870,"date":"2026-08-21T08:25:57","date_gmt":"2026-08-21T14:25:57","guid":{"rendered":"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=55870"},"modified":"2026-08-21T08:25:58","modified_gmt":"2026-08-21T14:25:58","slug":"expandir-nos-cinema-comum-e-artes-sob-assedio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=55870","title":{"rendered":"Expandir-nos: cinema, Comum e artes sob ass\u00e9dio"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55838\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221.jpg 1000w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221-350x233.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221-768x512.jpg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221-700x466.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma casa de La Paz, Baja California Sur, um quarto podia ficar completamente escuro durante o dia. Bastava fechar as janelas e deixar que um pequeno orif\u00edcio permitisse a passagem da luz. Don Amado ent\u00e3o estendia algumas esteiras no ch\u00e3o, e seus dez filhos se deitavam para olhar a parede.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do lado de fora, algu\u00e9m podia passar de bicicleta, uma mulher carregando o p\u00e3o ou qualquer fragmento da vida cotidiana. L\u00e1 dentro, essas mesmas presen\u00e7as apareciam invertidas e transformadas pela luz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era uma c\u00e2mera escura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D\u00e9cadas depois, Dolores Heredia relembrou aquela cena diante de centenas de pessoas reunidas no CIDECI-Unitierra, em San Crist\u00f3bal de Las Casas, Chiapas, M\u00e9xico. Contou que era muito mais emocionante olhar para aquela pessoa projetada na parede do que simplesmente espiar pela janela. A hist\u00f3ria era o que havia de interessante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez o cinema come\u00e7asse ali: um grupo de pessoas deitadas juntas no ch\u00e3o, uma imagem do mundo entrando por um pequeno buraco e algu\u00e9m anunciando o que estava prestes a aparecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na noite de 19 de agosto, a segunda jornada do <a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/?page_id=55782\">Semillero Las artes bajo acoso<\/a> foi dedicada precisamente ao cinema. O encontro reuniu Dolores Heredia, Natalia Beristain, Diego del R\u00edo, Alberto Dom\u00ednguez Ramos, do Kinoki, e a Comiss\u00e3o Sexta do EZLN; \u00e0s interven\u00e7\u00f5es somou-se tamb\u00e9m Salvador Rodr\u00edguez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da mesa dedicada ao cinema, um audit\u00f3rio lotado permaneceu durante horas ouvindo falar de telas, algoritmos, espectadores, l\u00ednguas, precariedade, comunidades, mem\u00f3ria e daquilo que ainda pode acontecer quando v\u00e1rias pessoas decidem se encontrar em torno de uma imagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conversa havia come\u00e7ado, no entanto, em outro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um centro cir\u00fargico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong> O qu\u00ea n\u00e3o ser\u00e3o capazes de fazer?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Capit\u00e3o Marcos voltou a 1\u00ba de janeiro de 1994 para falar de um n\u00famero que, durante d\u00e9cadas, foi reduzido por boa parte da imprensa e da intelectualidade mexicana. Segundo as listas das unidades insurgentes que sa\u00edram para combater naquela madrugada, cerca de 4.500 ind\u00edgenas de origem maia participaram das a\u00e7\u00f5es militares, distribu\u00eddos em regimentos, batalh\u00f5es, servi\u00e7os de sa\u00fade, comunica\u00e7\u00f5es e outras tarefas. A eles seria preciso acrescentar fam\u00edlias e comunidades inteiras envolvidas em uma organiza\u00e7\u00e3o que havia permanecido clandestina durante anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marcos relacionou essa redu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a um olhar racista: se aqueles que se organizavam eram ind\u00edgenas, tornava-se mais f\u00e1cil diminuir sua capacidade pol\u00edtica, militar e organizativa. A partir da\u00ed, deslocou a pergunta. Trinta e dois anos depois, a quest\u00e3o assume outra dire\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que n\u00e3o poder\u00e3o fazer aqueles que foram capazes de fazer aquilo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma resposta concreta est\u00e1 tomando forma atualmente na Selva Lacandona.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O centro cir\u00fargico \u201cCompanheiras e companheiros ca\u00eddos e ca\u00eddas do mundo\u201d foi concebido a partir da l\u00f3gica do Comum, e em sua constru\u00e7\u00e3o convergem trabalho, conhecimentos e apoios provenientes de diferentes geografias. Participam comunidades zapatistas, coletivos solid\u00e1rios, organiza\u00e7\u00f5es internacionais e popula\u00e7\u00f5es vizinhas, incluindo pessoas ligadas a partidos e antigos antizapatistas, que discutem conjuntamente os usos e as necessidades futuras do espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mem\u00f3ria que acompanhou esse relato foi muito mais dura. Marcos relembrou os anos em que meninas, meninos e pessoas idosas morriam nas comunidades por causa de uma febre ou de doen\u00e7as trat\u00e1veis, e essas vidas mal chegavam aos registros do Estado. Seus apontamentos da sess\u00e3o registraram o paradoxo daqueles que, por n\u00e3o possu\u00edrem sequer um registro oficial de nascimento, tamb\u00e9m podiam desaparecer das estat\u00edsticas de morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Capit\u00e3o Insurgente Marcos (<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-01-CapitanMarcos.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-01-CapitanMarcos.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_003.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55839\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_003.jpg 1000w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_003-350x233.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_003-768x512.jpg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_003-700x466.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1994, milhares de pessoas se organizaram para se levantar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2026, outras m\u00e3os erguem paredes, instalam portas, carregam materiais e discutem como sustentar um espa\u00e7o destinado a cuidar de corpos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dois momentos hist\u00f3ricos e duas materialidades distintas de uma capacidade coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais adiante, entre uma palestra e outra, Marcos acrescentaria outra lembran\u00e7a. Quando o zapatismo ainda era um pequeno grupo perseguido nas montanhas, disse ele, \u201co primeiro \u00f4nibus que chegou para nos salvar do tigre foi de artistas\u201d. Depois chegaram as diferentes vanguardas pol\u00edticas, convencidas de que aqueles ind\u00edgenas precisavam de dire\u00e7\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o ou condu\u00e7\u00e3o. Os artistas, lembrou, chegaram de outra maneira: perguntando quem eram, o que queriam e o que estava acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Capit\u00e3o Insurgente Marcos<\/em> (<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-03-CapitanMarcos.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-03-CapitanMarcos.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Marcos, essa rela\u00e7\u00e3o faz parte da raz\u00e3o pela qual, d\u00e9cadas depois, as comunidades continuam convocando encontros de artes, ci\u00eancias e pensamento cr\u00edtico. A mesa de cinema foi colocada, al\u00e9m disso, deliberadamente entre a dan\u00e7a e o teatro: tr\u00eas linguagens diferentes e uma pergunta compartilhada sobre como transmitir, olhar e compreender atravessando l\u00ednguas, geografias e experi\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quem decidiu o que era arte?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Salvador Rodr\u00edguez enveredou ent\u00e3o por um longo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Salvador Rodr\u00edguez<\/em> (<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-02-SalvadorRodriguez.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-02-SalvadorRodriguez.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele percorreu mais de dois mil\u00eanios da filosofia e da est\u00e9tica ocidentais para rastrear os deslocamentos da palavra <em>arte<\/em>: da <em>t\u00e9chne<\/em> grega, associada \u00e0 capacidade de fazer algo de acordo com determinadas regras, \u00e0s artes liberais medievais; da\u00ed \u00e0s chamadas belas-artes e, posteriormente, \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o da fotografia, do cinema e de outras linguagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A extens\u00e3o desse percurso tinha uma finalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A categoria que hoje utilizamos como se designasse naturalmente uma dimens\u00e3o universal da experi\u00eancia humana possui sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Ela surgiu em determinadas sociedades, acumulou hierarquias e acabou sendo projetada sobre outras culturas como crit\u00e9rio para decidir quais objetos, pr\u00e1ticas e express\u00f5es mereciam entrar no territ\u00f3rio do \u201cart\u00edstico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rodr\u00edguez formulou ent\u00e3o uma pergunta: o que acontecia com a enorme produ\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, simb\u00f3lica, ritual, ornamental e utilit\u00e1ria da \u00c1sia, da \u00c1frica e dos povos que habitavam este continente, do Alasca \u00e0 Patag\u00f4nia, antes que a palavra ocidental <em>arte<\/em> pretendesse classific\u00e1-las?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o tamb\u00e9m alcan\u00e7ou os museus. Uma panela, uma m\u00e1scara ou um objeto cerimonial podem abandonar a trama de rela\u00e7\u00f5es que lhes dava sentido e reaparecer dentro de uma vitrine, transformados em \u201cobra de arte\u201d. A mudan\u00e7a preserva o objeto e desloca sua fun\u00e7\u00e3o, sua rela\u00e7\u00e3o com a comunidade e os mundos que tornaram sua exist\u00eancia poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Rodr\u00edguez, essa opera\u00e7\u00e3o faz parte de uma hist\u00f3ria mais ampla de apropria\u00e7\u00e3o cultural e eurocentrismo. As antigas cidades e centros cerimoniais mesoamericanos transformados em espa\u00e7os tur\u00edsticos oferecem uma express\u00e3o monumental dessa transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema se torna ainda mais evidente na hist\u00f3ria mexicana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o s\u00e9culo XIX e boa parte do s\u00e9culo XX, o Estado p\u00f4de celebrar um passado ind\u00edgena monumental enquanto as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas vivas continuavam enfrentando racismo, explora\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o. O indigenismo transformou corpos, pir\u00e2mides, vestimentas e motivos origin\u00e1rios em emblemas da na\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que mantinha uma profunda dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o aos povos contempor\u00e2neos que produziam e reproduziam essas culturas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_004.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55840\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_004.jpg 1000w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_004-350x233.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_004-768x512.jpg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_004-700x466.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A contradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m alcan\u00e7ou o muralismo e diversos projetos culturais p\u00f3s-revolucion\u00e1rios: pintar ind\u00edgenas podia se transformar em s\u00edmbolo nacional, enquanto a vida concreta dos povos continuava ocupando um lugar subordinado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta sobre as artes sob ass\u00e9dio adquiria, assim, uma temporalidade muito mais longa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m existe ass\u00e9dio quando um olhar se atribui o direito de nomear, classificar, separar de seu contexto e administrar a representa\u00e7\u00e3o de outras culturas.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Quando a c\u00e2mera mudou de m\u00e3os<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alberto Dom\u00ednguez Ramos, \u201cel Beto\u201d, come\u00e7ou do outro lado da tela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Alberto Dom\u00ednguez Ramos<\/em> (<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-04-AlbertoDominguezRamos.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-04-AlbertoDominguezRamos.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele se apresentou como parte daqueles que projetam e exibem filmes, esses <em>c\u00e1caros<\/em> (projetoristas) que trabalham para que o cinema finalmente chegue \u00e0queles que o assistem. De uma cabine de proje\u00e7\u00e3o, disse, observam-se dois filmes simultaneamente: aquele que acontece na tela e aquele que aparece nas poltronas, feito de sil\u00eancios, risos, desconfortos, l\u00e1grimas ou f\u00faria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ele, \u00e9 a\u00ed que come\u00e7a a outra metade da experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua interven\u00e7\u00e3o tinha um t\u00edtulo: <em>Afluentes, apuntes sobre el cine que naci\u00f3 de un estallido<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 pouco mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, explicou, Chiapas tinha uma presen\u00e7a muito reduzida dentro da produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica mexicana. As c\u00e2meras chegavam principalmente de fora. Algumas o faziam com curiosidade respeitosa; outras transformavam selvas, povoados e pessoas em paisagens dispon\u00edveis para olhares externos. Filmava-se Chiapas e, depois, as imagens partiam para outro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A met\u00e1fora utilizada ao longo de toda a sua interven\u00e7\u00e3o foi a \u00e1gua: uma chuva passageira, ainda incapaz de formar seu pr\u00f3prio curso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O levante zapatista de 1994 tamb\u00e9m modificou essa paisagem visual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A necessidade de romper o cerco informativo levou diferentes pessoas e comunidades a pegar c\u00e2meras para registrar, denunciar e comunicar. Esse primeiro movimento foi crescendo. Do videoativismo urgente surgiram outros aprendizados, linguagens e narrativas. Junto ao registro da conjuntura, come\u00e7ou a se desenvolver tamb\u00e9m a possibilidade de contar hist\u00f3rias pr\u00f3prias, com ritmos e buscas pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dom\u00ednguez prop\u00f4s interpretar o crescimento da comunidade cinematogr\u00e1fica chiapaneca contempor\u00e2nea a partir desse acontecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqueles que chegaram de outras geografias para compartilhar conhecimentos tamb\u00e9m tiveram que aprender. As t\u00e9cnicas precisavam se encontrar com tempos, necessidades e formas organizativas diferentes. A rela\u00e7\u00e3o transformou tanto aqueles que aprendiam quanto os que originalmente chegavam acreditando que vinham ensinar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse processo surgiram m\u00faltiplas experi\u00eancias e tamb\u00e9m Los Tercios Compas, comunicadoras e comunicadores zapatistas que produzem imagens a partir das pr\u00f3prias comunidades e elaboram um olhar capaz de registrar criticamente sua realidade sem depender de intermedi\u00e1rios externos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria continuou com os festivais zapatistas de cinema. Em uma primeira etapa, o objetivo consistia em levar filmes at\u00e9 as comunidades. Depois, come\u00e7aram a circular tamb\u00e9m materiais realizados pelos zapatistas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_007.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55841\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_007.jpg 1000w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_007-350x233.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_007-768x512.jpg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_007-700x466.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, o circuito mudou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A c\u00e2mera, a tela e o p\u00fablico come\u00e7aram a fazer parte de um mesmo movimento: produzir, olhar, conversar e voltar a produzir.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A outra metade come\u00e7a quando o projetor se apaga<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alberto levou essa experi\u00eancia para as salas independentes de San Crist\u00f3bal de Las Casas e para os espa\u00e7os que, durante d\u00e9cadas, constru\u00edram lugares para um cinema que dificilmente encontra espa\u00e7o nos grandes complexos comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a\u00ed que surgiu uma cr\u00edtica especialmente contundente \u00e0s plataformas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dom\u00ednguez chamou de \u201c<em>mainstreaming<\/em>\u201d essa enorme corrente formada pelas ind\u00fastrias audiovisuais, plataformas e algoritmos capazes de intervir simultaneamente na produ\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o, exibi\u00e7\u00e3o e conversa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A met\u00e1fora continuou sendo aqu\u00e1tica: diversos rios entram em uma enorme nuvem digital e depois retornam transformados em conte\u00fados cada vez mais parecidos entre si. Ritmos semelhantes. Dura\u00e7\u00f5es semelhantes. Formas semelhantes de produzir emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diversidade de rostos pode ser mantida enquanto as estruturas narrativas, as solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e as formas de imaginar o mundo permanecem surpreendentemente uniformes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O algoritmo completa a opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele nos oferece aquilo de que supostamente gostamos e repete a f\u00f3rmula at\u00e9 estreitar nossa curiosidade. Alberto comparou a opera\u00e7\u00e3o a uma granja onde uma m\u00e1quina descobre de qual milho cada galinha gosta e, a partir desse momento, passa a aliment\u00e1-la repetidamente com a mesma semente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Telas infinitas e horizontes cada vez mais estreitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante dessa l\u00f3gica, os pequenos cinemas, festivais e espa\u00e7os culturais de Chiapas constru\u00edram, ao longo dos anos, outra rela\u00e7\u00e3o entre filme e espectador. Quem chega a uma sess\u00e3o traz consigo uma hist\u00f3ria e uma palavra pr\u00f3prias. A conversa posterior modifica aquilo que acabou de ser visto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cinema termina ent\u00e3o onde outra coisa come\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o projetor se apaga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da\u00ed uma das afirma\u00e7\u00f5es mais importantes de sua interven\u00e7\u00e3o: produzir um filme constitui apenas uma parte do processo; a outra come\u00e7a na exibi\u00e7\u00e3o, na apropria\u00e7\u00e3o pelo p\u00fablico e naquilo que as pessoas fazem com as imagens depois de receb\u00ea-las.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As telas independentes se tornam, assim, afluentes capazes de conectar experi\u00eancias sem obrig\u00e1-las a desembocar em uma \u00fanica corrente. O cinema entendido como rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">O mic\u00e9lio que sustenta o filme<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Natalia Beristain chegou a uma ideia semelhante a partir de sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Natalia Beristain<\/em> (<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-05-NataliaBeristain.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-05-NataliaBeristain.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela cresceu entre pessoas do teatro e, antes de dirigir filmes, foi espectadora. Naqueles palcos, descobriu mulheres que podiam ocupar o centro, falar e fazer com que o restante permanecesse em sil\u00eancio para ouvi-las. Mulheres de diferentes idades, corpos, origens, desejos e formas de habitar o mundo. A fic\u00e7\u00e3o lhe permitiu reconhecer possibilidades de exist\u00eancia que outros espa\u00e7os sociais estreitavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da\u00ed uma convic\u00e7\u00e3o que atravessou sua interven\u00e7\u00e3o: o cinema \u00e9 comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 espelho, refer\u00eancia, imagin\u00e1rio e ponte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para explic\u00e1-lo, recorreu a outra imagem org\u00e2nica. Um filme pode se parecer com uma \u00e1rvore: finalmente vemos o tronco, os galhos e a folhagem. Debaixo dela existe, no entanto, um enorme mic\u00e9lio que a sustenta. Atua\u00e7\u00e3o, fotografia, roteiro, som, m\u00fasica, arquitetura, figurino, produ\u00e7\u00e3o, montagem e uma infinidade de trabalhos e rela\u00e7\u00f5es tornam poss\u00edvel a imagem que finalmente chega \u00e0 tela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua pr\u00f3pria experi\u00eancia dentro do cinema mexicano \u00e9 atravessada por essa tens\u00e3o entre cria\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es materiais. Quando estudava no Centro de Capacitaci\u00f3n Cinematogr\u00e1fica, o governo de Vicente Fox prop\u00f4s extinguir ou transformar institui\u00e7\u00f5es centrais da cinematografia nacional. Uma pequena organiza\u00e7\u00e3o estudantil acabou se articulando com uma comunidade mais ampla at\u00e9 impedir aquele projeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois viriam outros cercos: empregos intermitentes, aus\u00eancia de seguridade social, or\u00e7amentos prec\u00e1rios, circuitos de exibi\u00e7\u00e3o cada vez mais dif\u00edceis, salas caras e plataformas com capacidade crescente de decidir quais hist\u00f3rias encontram recursos, telas e p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_008.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55842\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_008.jpg 1000w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_008-350x233.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_008-768x512.jpg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_008-700x466.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Beristain, o ataque a universidades, bibliotecas, teatros e espa\u00e7os culturais tamb\u00e9m possui uma dimens\u00e3o pol\u00edtica, porque todos eles permitem algo que \u00e9 inc\u00f4modo para os poderes que precisam de popula\u00e7\u00f5es isoladas: reunir-se e pensar coletivamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais uma vez, a pergunta ia al\u00e9m do filme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Importava tamb\u00e9m quais rela\u00e7\u00f5es permitem que um filme exista.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Criar espa\u00e7o<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diego del R\u00edo colocou essa quest\u00e3o diretamente sobre o corpo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Diego del R\u00edo<\/em> (<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-06-DiegoDelRio.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-06-DiegoDelRio.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando pensa no ass\u00e9dio, explicou, sente que o espa\u00e7o diminui, a respira\u00e7\u00e3o fica mais curta e o tempo se torna insuficiente. O telefone condensa essa experi\u00eancia: uma imagem, outra, uma guerra, um an\u00fancio, outro rosto, e o dedo continua deslizando at\u00e9 transformar o mundo em uma sucess\u00e3o de est\u00edmulos descart\u00e1veis. O ass\u00e9dio tamb\u00e9m atua sobre nossa capacidade de permanecer.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_014.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55843\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_014.jpg 1000w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_014-350x233.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_014-768x512.jpg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_014-700x466.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das poss\u00edveis pot\u00eancias do teatro e do cinema aparece justamente a\u00ed: criar tempo para permanecer diante de algo, suportar uma pergunta, olhar de novo e permitir que outro corpo nos afete. Del R\u00edo levou essa discuss\u00e3o para a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o do trabalho art\u00edstico. Uma obra pode falar de justi\u00e7a, emancipa\u00e7\u00e3o ou dignidade e ter sido produzida por meio de hierarquias violentas. Da\u00ed que a pergunta pol\u00edtica de um filme ou de uma encena\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m alcance seu processo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem podia falar? Quem podia errar? Quem era pago? Quem cuidava?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem podia interromper o ensaio? Quem tinha a possibilidade de dizer n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma obra sobre dignidade humana constru\u00edda por meio de rela\u00e7\u00f5es indignas carrega uma contradi\u00e7\u00e3o que dificilmente \u00e9 resolvida pela encena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ensaio adquire, ent\u00e3o, outra pot\u00eancia: pode se transformar em um espa\u00e7o onde se praticam formas diferentes de estar juntos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escutar. Discordar. Estabelecer limites. Cuidar. Deixar-se afetar. Errar. Tentar novamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um sistema obcecado em medir produtividade, desempenho e resultados imediatos, defender o tempo necess\u00e1rio para uma busca tamb\u00e9m se transforma em uma disputa pol\u00edtica. Ensaiar, lembrou Diego, significa tentar.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Roubar um momento ao medo<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em meio a essa reflex\u00e3o surgiu Gaza. Del R\u00edo relembrou a experi\u00eancia de um artista palestino dedicado aos fantoches que, em meio \u00e0 guerra, perdeu acesso a ferramentas, tintas, eletricidade e materiais. Come\u00e7ou a construir com latas, peda\u00e7os de madeira e aquilo que encontrava ao seu redor. Queria fabricar pelo menos um fantoche para seus filhos e para si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Roubar alguns momentos ao medo. Um fantoche ocupa muito pouco espa\u00e7o. No entanto, ao seu redor podem surgir, durante alguns minutos, brincadeira, imagina\u00e7\u00e3o, conversa e risada. Foi a\u00ed que Diego introduziu uma palavra que adquire um peso particular quando o horizonte \u00e9 atravessado por guerras, desaparecimentos e despojos: <em>gozo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia anterior, durante a mesa dedicada \u00e0 dan\u00e7a, algo semelhante havia surgido quando Hugo Molina defendeu a pot\u00eancia pol\u00edtica de dan\u00e7ar uma cumbia depois de uma marcha ou de uma assembleia. Agora, o cinema e o teatro voltavam ao mesmo territ\u00f3rio. O gozo como uma parte da vida que o poder tamb\u00e9m n\u00e3o deveria administrar.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Para que fazemos cinema se depois n\u00e3o o vemos?<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dolores Heredia encerrou a mesa voltando justamente ao problema das telas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Dolores Heredia<\/em> (<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-07-DoloresHeredia.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/artesbajoacoso-dia2-07-DoloresHeredia.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela confessou um desejo que a acompanha h\u00e1 anos: encher o pa\u00eds de salas onde possam ser projetados nossos pr\u00f3prios filmes. E formulou uma pergunta elementar: para que fazemos cinema se depois n\u00e3o o vemos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Heredia trabalha h\u00e1 d\u00e9cadas como atriz e, ao mesmo tempo, atua na gest\u00e3o para ampliar a circula\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. Contou que provavelmente recusou mais filmes do que realizou, porque muitas hist\u00f3rias simplesmente n\u00e3o a interpelavam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi a\u00ed que situou uma das formas do ass\u00e9dio contempor\u00e2neo. O horizonte pode se estreitar a ponto de nos fazer acreditar que escolhemos livremente as hist\u00f3rias que contamos, enquanto circuitos de produ\u00e7\u00e3o, tend\u00eancias, ind\u00fastrias e mercados delimitam de antem\u00e3o quais parecem poss\u00edveis, pertinentes ou financi\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, voltou repetidamente \u00e0 honestidade. Estamos contando as hist\u00f3rias que realmente nos atravessam? Sua resposta nasceu menos de uma teoria cinematogr\u00e1fica do que de suas lembran\u00e7as. A c\u00e2mera escura constru\u00edda por seu pai. Os dez irm\u00e3os deitados no ch\u00e3o. As casas emprestadas de uma fam\u00edlia numerosa de La Paz. As discuss\u00f5es sobre quem se lembra corretamente de uma hist\u00f3ria que cada irm\u00e3o reconstr\u00f3i de maneira diferente. \u201c\u00c9 disso que sou feita\u201d, disse. De hist\u00f3rias simples.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_016.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55844\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_016.jpg 1000w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_016-350x233.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_016-768x512.jpg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_016-700x466.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes do cinema, houve tamb\u00e9m o teatro. Heredia fez parte durante anos de uma companhia de cria\u00e7\u00e3o coletiva, na qual cada obra era constru\u00edda a partir da conversa entre os participantes: texto, atua\u00e7\u00e3o, ilumina\u00e7\u00e3o, cenografia e decis\u00f5es c\u00eanicas surgiam do processo comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali, lembrou, encontrou uma maneira de se expandir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra dialogava involuntariamente com tudo o que havia sido dito durante a noite. Diante do algoritmo que reduz op\u00e7\u00f5es, expandir-se. Diante do ass\u00e9dio que reduz o tempo, expandir-se. Diante de uma categoria ocidental que delimita o que merece ser chamado de arte, expandir-se. Diante dos circuitos que determinam quais hist\u00f3rias merecem chegar \u00e0s telas, expandir-se.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Contamos a partir de muitos lugares<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dolores levou ent\u00e3o a conversa para outra fronteira: a linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cresceu ao lado de uma irm\u00e3 com s\u00edndrome de Down, cuja rela\u00e7\u00e3o com a fala foi se transformando ao longo dos anos. As duas trabalharam juntas no teatro e descobriram maneiras de construir sentido por meio do movimento, do ritmo, do olhar e da presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Posteriormente, seu pai sofreu um acidente vascular cerebral que imobilizou parte de seu corpo e afetou profundamente sua fala. Mas ele continuou contando hist\u00f3rias. Nos olhos, nos gestos e nos sons ainda apareciam barcos, tempestades e aventuras completas. \u201cNunca desistiu\u201d, lembrou Dolores. A experi\u00eancia lhe deixou uma certeza: contamos a partir de muitos lugares. Um filme, uma obra, uma dan\u00e7a ou uma conversa encontram linguagens que v\u00e3o al\u00e9m das palavras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tamb\u00e9m havia acontecido anos antes nos encontros zapatistas. Heredia lembrou como, depois de uma sess\u00e3o, um grupo de insurgentas a levou para um canto para perguntar diretamente sobre cenas, beijos, corpos, rela\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es de atua\u00e7\u00e3o. A tela havia sido apenas o come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois tinha come\u00e7ado a conversa. Justamente aquela outra metade do cinema de que Alberto tinha falado horas antes. Um filme deixa de pertencer inteiramente \u00e0queles que o fizeram quando encontra os olhos de outras pessoas. Ali come\u00e7a uma nova hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Expandir-nos<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No in\u00edcio da noite, o Capit\u00e3o Marcos havia falado de um centro cir\u00fargico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final, Dolores Heredia falava de pequenas salas de cinema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre essas duas imagens transcorreram v\u00e1rias horas dedicadas a discutir categorias est\u00e9ticas, c\u00e2meras tomadas pelas comunidades, salas independentes, plataformas, processos coletivos, precariza\u00e7\u00e3o, algoritmos, corpos, espectadores, l\u00ednguas e relatos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um centro cir\u00fargico e uma sala de cinema cumprem fun\u00e7\u00f5es radicalmente diferentes. Seu encontro naquela noite apareceu em outra dimens\u00e3o: ambos exigem a constru\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es para que algo possa acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Espa\u00e7o. Tempo. Conhecimento. Trabalho. Organiza\u00e7\u00e3o. Pessoas capazes de se encontrar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Comum de que Marcos falou adquire sentido quando m\u00e3os diferentes erguem uma infraestrutura para cuidar da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cinema tamb\u00e9m adquire materialidade quando uma comunidade produz imagens, outra prepara uma tela, algu\u00e9m abre uma porta, v\u00e1rias pessoas ocupam as cadeiras e depois permanecem ali para conversar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso Alberto insistia que o cinema continua quando a proje\u00e7\u00e3o termina. Natalia falava do mic\u00e9lio. Diego defendia o tempo do ensaio. Dolores quer encher o pa\u00eds de salas. E talvez por isso Salvador tenha obrigado todos a olhar muito mais para tr\u00e1s, para os poderes que historicamente decidiram quais express\u00f5es merecem existir dentro daquilo que chamamos de arte.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_009.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55845\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_009.jpg 1000w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_009-350x233.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_009-768x512.jpg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_009-700x466.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ass\u00e9dio trabalha fechando possibilidades. Reduz as linguagens dispon\u00edveis. Administra nossa aten\u00e7\u00e3o. Hierarquiza as imagens. Mercantiliza o tempo. Uniformiza os relatos. Transforma espectadores em dados. Encerra o futuro dentro daquilo que o algoritmo calcula que j\u00e1 gostamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante disso, naquela noite surgiram outras pr\u00e1ticas: pegar a c\u00e2mera, abrir uma sala, escutar uma comunidade, fazer um filme, sustentar um ensaio, construir uma conversa, contar a partir do pr\u00f3prio lugar, deixar-se afetar por quem est\u00e1 diante de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dolores encerrou com uma formula\u00e7\u00e3o simples.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria que algu\u00e9m conta \u201ctem que ser a sua hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando isso acontece, uma imagem pode atravessar o pequeno orif\u00edcio de um quarto escuro e chegar at\u00e9 uma parede onde v\u00e1rias pessoas esperam juntas para v\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois algu\u00e9m pergunta. Algu\u00e9m se lembra de outra coisa. Algu\u00e9m contradiz. Algu\u00e9m ri. A hist\u00f3ria muda. E o espa\u00e7o volta a crescer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Expandir-nos\u2026<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_015.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" data-id=\"55848\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_015.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55848\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_015.jpg 1000w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_015-350x233.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/signal-2026-08-20-18-57-54-221_015-768x512.jpg 768w, 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