{"id":55142,"date":"2026-07-21T15:34:57","date_gmt":"2026-07-21T21:34:57","guid":{"rendered":"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=55142"},"modified":"2026-07-21T15:40:14","modified_gmt":"2026-07-21T21:40:14","slug":"dia-1-encontro-guerra-contra-a-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=55142","title":{"rendered":"Dia 1: Encontro &#8220;Guerra contra a Humanidade&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-medium\"><a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/portada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"350\" height=\"211\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/portada-350x211.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55161\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/portada-350x211.jpg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/portada-768x464.jpg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/portada.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Um crime nos convoca&#8221;, disse o Capit\u00e3o Insurgente Marcos na inaugura\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/?page_id=55029\"><strong>Encontro &#8220;Guerra contra a Humanidade&#8221; (As popula\u00e7\u00f5es e a natureza sob cerco)<\/strong><\/a>, neste 20 de julho de 2026, no Cideci\/Universidade da Terra, em San Crist\u00f3bal de Las Casas, Chiapas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Marcos.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Marcos.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2026 <em>um crime transbordando sangue, lama e merda; uma hist\u00f3ria que come\u00e7a com a injusti\u00e7a entronizada, a dor democratizada, a destrui\u00e7\u00e3o que gera riqueza, prosperidade e desenvolvimento, a morte como programa de governo e s\u00edmbolo do progresso: quanto mais mortes, mais modernidade em uma civiliza\u00e7\u00e3o. Um crime nos convoca, o crime por excel\u00eancia, o crime transformado em sistema; um crime t\u00e3o transparente que a luz n\u00e3o o atravessa, mas o transforma em espelho, em um prisma que se desfaz em cores agrad\u00e1veis, desej\u00e1veis, atraentes, da moda, enfim; um crime t\u00e3o popular que acumula trilh\u00f5es de curtidas de suas pr\u00f3prias v\u00edtimas sacrificiais e, ainda assim, permanece insatisfeito.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O criminoso \u2014 o Estado capitalista \u2014 concentra-se agora em reprimir ou exterminar &#8220;os que sobram&#8221;, n\u00e3o apenas porque n\u00e3o s\u00e3o lucrativos, mas sobretudo porque representam o outro, o que n\u00e3o \u00e9 homog\u00eaneo e, portanto, com sua diferen\u00e7a, desafiam o sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este encontro \u2014 um <em>semillero<\/em> (viveiro) de pensamento cr\u00edtico \u2014 surge da necessidade urgente de refletir para compreender melhor o criminoso. Ao longo de cinco dias, pensadoras e pensadores refletir\u00e3o sobre a configura\u00e7\u00e3o atual do Estado capitalista, tanto no M\u00e9xico quanto no mundo; a devasta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica; a privatiza\u00e7\u00e3o de bens comuns, como a \u00e1gua; o fraturamento hidr\u00e1ulico (<em>fracking<\/em>); o ser humano como v\u00edtima, mas tamb\u00e9m como desafio ao sistema; a hist\u00f3ria como ferramenta de opress\u00e3o e as hist\u00f3rias dos de baixo como arma de luta; o horror vivido na Palestina e a dignidade da resist\u00eancia; as fam\u00edlias que buscam pessoas desaparecidas; a reorganiza\u00e7\u00e3o urbana; a luta das mulheres; e o terror da extrema direita.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Gilberto L\u00f3pez y Rivas \u2013 \u201cTerrorismo global de Estado, militariza\u00e7\u00e3o e recoloniza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/GilbertoLopezYRivas.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/GilbertoLopezYRivas.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a an\u00e1lise de L\u00f3pez y Rivas, o capitalismo contempor\u00e2neo atravessa uma nova etapa caracterizada pelo aprofundamento da viol\u00eancia, da militariza\u00e7\u00e3o e da recoloniza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios. Diferentemente de fases anteriores, nas quais o sistema mantinha certos mecanismos de media\u00e7\u00e3o social, hoje predominam a coer\u00e7\u00e3o, a guerra, a criminaliza\u00e7\u00e3o dos protestos e o desmonte dos direitos conquistados pela classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O capitalismo atual conduz, assim, a uma crise civilizat\u00f3ria que se manifesta naquilo que os zapatistas chamam de <strong>&#8220;a tempestade&#8221;<\/strong>: mudan\u00e7a clim\u00e1tica, esgotamento dos recursos naturais, destrui\u00e7\u00e3o da biodiversidade, pobreza, migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, guerras e aumento de diversas formas de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terrorismo global de Estado, liderado principalmente pelos Estados Unidos e respaldado por outras pot\u00eancias e organismos internacionais, constitui um instrumento fundamental para impor essa nova fase de acumula\u00e7\u00e3o capitalista por meio de interven\u00e7\u00f5es militares, ocupa\u00e7\u00f5es territoriais e da viola\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do direito internacional. &#8220;Os Estados Unidos, como pot\u00eancia hegem\u00f4nica, instauraram a barb\u00e1rie como um processo devastador para a humanidade e para a natureza&#8221;, afirmou L\u00f3pez y Rivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso do M\u00e9xico, os governos da chamada &#8220;Quarta Transforma\u00e7\u00e3o&#8221; (4T) deram continuidade a processos iniciados durante o per\u00edodo neoliberal. A expans\u00e3o dos megaprojetos, o fortalecimento do papel das For\u00e7as Armadas e a crescente participa\u00e7\u00e3o do crime organizado configuram uma estrat\u00e9gia de militariza\u00e7\u00e3o e controle territorial que afeta especialmente comunidades ind\u00edgenas, camponesas e movimentos sociais. Sob o governo da 4T, o pa\u00eds foi militarizado como nunca antes em sua hist\u00f3ria. &#8220;A institui\u00e7\u00e3o militar realiza atualmente mais de 200 fun\u00e7\u00f5es (&#8230;) que n\u00e3o est\u00e3o previstas na Constitui\u00e7\u00e3o nem em suas leis regulamentares&#8221;, afirma L\u00f3pez y Rivas. Ao mesmo tempo, ao paramilitarismo \u2014 instrumento encoberto do Estado para assediar, deslocar e enfraquecer organiza\u00e7\u00f5es populares sem assumir publicamente a responsabilidade pela viol\u00eancia, historicamente utilizado como mecanismo de contrainsurg\u00eancia \u2014 soma-se agora o narcoparamilitarismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse cen\u00e1rio, os povos maias zapatistas, o EZLN, o Congresso Nacional Ind\u00edgena e os diversos coletivos e organiza\u00e7\u00f5es que lutam pela vida constituem uma alternativa real. Uma alternativa que n\u00e3o passa pela disputa do poder estatal, mas pela organiza\u00e7\u00e3o desde baixo, pela autonomia, pelo autogoverno, pelo princ\u00edpio de &#8220;mandar obedecendo&#8221; e pela constru\u00e7\u00e3o cotidiana de formas comunit\u00e1rias de democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00f3pez y Rivas concluiu convocando a academia, os artistas, os meios de comunica\u00e7\u00e3o, o magist\u00e9rio, os estudantes e todos os setores comprometidos com o pensamento cr\u00edtico a acompanhar as lutas dos povos. Diante da crise do capitalismo e das m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia contempor\u00e2nea, torna-se indispens\u00e1vel fortalecer a organiza\u00e7\u00e3o coletiva, desenvolver um pensamento cr\u00edtico capaz de compreender as transforma\u00e7\u00f5es do mundo e manter viva a constru\u00e7\u00e3o de alternativas voltadas para a defesa da vida, da justi\u00e7a e da dignidade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Alicia Castellanos \u2013 \u201cRacismo y violencia contra los pueblos\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/AliciaCastellanos.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/AliciaCastellanos.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alicia Castellanos apresentou uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre a rela\u00e7\u00e3o entre racismo, viol\u00eancia e as formas contempor\u00e2neas de domina\u00e7\u00e3o que afetam povos e comunidades em diferentes regi\u00f5es do mundo. Sua reflex\u00e3o parte da ideia de que vivemos uma etapa de crise civilizat\u00f3ria marcada por uma profunda desigualdade, pela degrada\u00e7\u00e3o ambiental e pela expans\u00e3o de diversas formas de viol\u00eancia vinculadas ao capitalismo contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O racismo, explica Castellanos, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que surgiu e se consolidou durante a expans\u00e3o colonial europeia. Desde o s\u00e9culo XVIII, a ideia de &#8220;ra\u00e7a&#8221; foi utilizada para estabelecer hierarquias entre os povos e justificar processos de domina\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e espolia\u00e7\u00e3o. Embora hoje o conceito racial costume aparecer de maneira menos expl\u00edcita, seus mecanismos persistem por meio de novas formas de exclus\u00e3o baseadas em diferen\u00e7as culturais, nacionais, religiosas, econ\u00f4micas ou pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Castellanos, o racismo funciona como uma ferramenta de poder que permite construir o &#8220;outro&#8221; como uma amea\u00e7a: um inimigo que deve ser controlado, expulso ou eliminado. Essa l\u00f3gica esteve presente em diferentes processos hist\u00f3ricos de colonialismo, genoc\u00eddio, guerras e persegui\u00e7\u00f5es contra povos considerados inferiores ou perigosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa fun\u00e7\u00e3o do racismo tamb\u00e9m se aplica aos conflitos contempor\u00e2neos, especialmente ao genoc\u00eddio do povo palestino, \u00e0s pol\u00edticas migrat\u00f3rias dirigidas contra comunidades estrangeiras e ao crescimento de discursos nacionalistas e autorit\u00e1rios que transformam determinados grupos sociais em bodes expiat\u00f3rios durante per\u00edodos de crise. A normaliza\u00e7\u00e3o do \u00f3dio por parte das institui\u00e7\u00f5es e dos governos, adverte, abre caminho para formas extremas de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Castellanos lembra que o escritor liban\u00eas Amin Maalouf prop\u00f5e a ideia de &#8220;identidades assassinas&#8221;: &#8220;aquelas que reduzem a identidade de uma pessoa ou de um povo a uma \u00fanica perten\u00e7a&#8221;, servindo de fundamento para a viol\u00eancia contra os &#8220;outros&#8221; e para processos genocidas contempor\u00e2neos, como os ocorridos na Guatemala e, agora, na Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso do M\u00e9xico, os megaprojetos de desenvolvimento \u2014 especialmente o &#8220;Trem Maia&#8221; \u2014 constituem exemplos paradigm\u00e1ticos do racismo dirigido contra os povos origin\u00e1rios. Esses projetos implicaram processos de transforma\u00e7\u00e3o territorial, impactos ambientais, perda de biodiversidade, press\u00e3o sobre comunidades ind\u00edgenas e uma crescente participa\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas em atividades civis e econ\u00f4micas. Nesse contexto, a militariza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio modifica as rela\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e afeta os direitos coletivos dos povos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os povos maias, a terra n\u00e3o representa apenas um recurso econ\u00f4mico, mas um espa\u00e7o de mem\u00f3ria, identidade, cultura e reprodu\u00e7\u00e3o da vida. A destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas, cenotes, florestas e formas tradicionais de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria constitui, assim, uma amea\u00e7a n\u00e3o apenas ambiental, mas tamb\u00e9m cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resist\u00eancia e a organiza\u00e7\u00e3o desde baixo \u2014 especialmente aquelas impulsionadas pelos povos zapatistas e pelo Congresso Nacional Ind\u00edgena \u2014 constituem uma resposta a esse cen\u00e1rio: formas alternativas de exercer o poder baseadas na autonomia, na participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e no princ\u00edpio de &#8220;mandar obedecendo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como L\u00f3pez y Rivas, Castellanos conclamou ao fortalecimento do pensamento cr\u00edtico como ferramenta para compreender as transforma\u00e7\u00f5es do mundo atual e imaginar alternativas diante da viol\u00eancia, do racismo e da destrui\u00e7\u00e3o ambiental. A resposta \u00e0s chamadas &#8220;identidades assassinas&#8221; e \u00e0s estruturas de domina\u00e7\u00e3o deve ser a constru\u00e7\u00e3o de um &#8220;n\u00f3s&#8221; fundamentado na solidariedade, na justi\u00e7a, na igualdade e no respeito \u00e0 diversidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante das for\u00e7as que promovem a espolia\u00e7\u00e3o e a exclus\u00e3o, os povos organizados mant\u00eam viva a possibilidade de construir outros mundos sustentados na dignidade, na autonomia e na defesa da vida.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Wilfrido G\u00f3mez Arias &#8211; Nossa \u00e1gua, suas concess\u00f5es: a arquitetura jur\u00eddica da espolia\u00e7\u00e3o e da concentra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua no M\u00e9xico<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WilfridoGomezArias.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WilfridoGomezArias.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00e1gua \u00e9 um elemento essencial para a vida e encontra-se em constante movimento por meio do ciclo hidrol\u00f3gico. No entanto, sua distribui\u00e7\u00e3o no M\u00e9xico \u00e9 desigual. Enquanto algumas regi\u00f5es do sudeste concentram grandes volumes de precipita\u00e7\u00e3o e disponibilidade h\u00eddrica, extensas \u00e1reas do norte enfrentam condi\u00e7\u00f5es de escassez. Essa desigualdade natural foi agravada por um modelo de gest\u00e3o que permitiu a superexplora\u00e7\u00e3o, a contamina\u00e7\u00e3o e a concentra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir do per\u00edodo neoliberal, foram promovidas transforma\u00e7\u00f5es legais e institucionais que modificaram a rela\u00e7\u00e3o do Estado com a \u00e1gua. A cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da \u00c1gua (CONAGUA), em 1989, e a promulga\u00e7\u00e3o da Lei de \u00c1guas Nacionais, em 1992, estabeleceram um sistema baseado em concess\u00f5es, por meio do qual o Estado concedeu direitos administrativos para extrair, utilizar e explorar determinados volumes de \u00e1gua durante longos per\u00edodos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse modelo transformou o acesso \u00e0 \u00e1gua em um direito administrativo pass\u00edvel de acumula\u00e7\u00e3o, transfer\u00eancia e defesa jur\u00eddica. Embora a Constitui\u00e7\u00e3o estabele\u00e7a que a \u00e1gua pertence \u00e0 na\u00e7\u00e3o, o sistema de concess\u00f5es permitiu que grandes agentes econ\u00f4micos concentrassem volumes significativos, enquanto muitas comunidades e povos ficaram sem o reconhecimento formal de seus direitos hist\u00f3ricos sobre suas fontes de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aus\u00eancia de um planejamento h\u00eddrico adequado provocou um processo de superconcess\u00e3o. Em diversos aqu\u00edferos e bacias hidrogr\u00e1ficas passou-se a extrair mais \u00e1gua do que aquela dispon\u00edvel para sua recupera\u00e7\u00e3o natural. Como consequ\u00eancia, centenas de aqu\u00edferos apresentam redu\u00e7\u00e3o de suas reservas, e numerosas bacias mostram sinais de degrada\u00e7\u00e3o. A atual crise da \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 apenas um problema de disponibilidade natural, mas tamb\u00e9m o resultado de decis\u00f5es pol\u00edticas, jur\u00eddicas e econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os principais benefici\u00e1rios do modelo de concess\u00f5es foram grandes usu\u00e1rios p\u00fablicos e privados ligados a setores como o agroneg\u00f3cio, a minera\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, a ind\u00fastria de bebidas, o setor energ\u00e9tico, o mercado imobili\u00e1rio e grandes empreendimentos urbanos. Enquanto algumas empresas possuem concess\u00f5es para extrair enormes volumes de \u00e1gua, in\u00fameras comunidades enfrentam desabastecimento, distribui\u00e7\u00e3o irregular, depend\u00eancia de caminh\u00f5es-pipa e degrada\u00e7\u00e3o de suas fontes locais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os povos ind\u00edgenas e os sistemas comunit\u00e1rios de gest\u00e3o da \u00e1gua foram particularmente afetados. Embora historicamente tenham protegido nascentes, rios e \u00e1reas de recarga h\u00eddrica, suas formas tradicionais de administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram plenamente reconhecidas pelo marco jur\u00eddico. Em muitos casos, as fontes de \u00e1gua utilizadas pelas comunidades foram registradas em nome de munic\u00edpios, particulares ou empresas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2012, o direito humano \u00e0 \u00e1gua foi reconhecido constitucionalmente, estabelecendo que toda pessoa deve ter acesso \u00e0 \u00e1gua suficiente, salubre, aceit\u00e1vel e acess\u00edvel para suas necessidades pessoais e dom\u00e9sticas. No entanto, as reformas promovidas em 2025 n\u00e3o alteraram de forma substancial a estrutura do sistema de concess\u00f5es. Embora tenham introduzido algumas mudan\u00e7as administrativas, mantiveram a l\u00f3gica central que permitiu a concentra\u00e7\u00e3o da \u00e1gua nas m\u00e3os de poucos usu\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Garantir o direito humano \u00e0 \u00e1gua significa muito mais do que fornecer \u00e1gua por meio de caminh\u00f5es-pipa ou garrafas. Significa assegurar um acesso permanente, seguro e digno, com sistemas p\u00fablicos eficientes, participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 e reconhecimento das comunidades que historicamente cuidaram da \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A problem\u00e1tica da \u00e1gua no M\u00e9xico reflete uma disputa entre duas vis\u00f5es: uma que compreende a \u00e1gua como mercadoria e outra que a reconhece como um bem comum indispens\u00e1vel \u00e0 vida. Resolver a crise h\u00eddrica exige recuperar uma perspectiva baseada na justi\u00e7a social, ambiental e territorial, na qual a \u00e1gua seja administrada para garantir a vida das pessoas, dos ecossistemas e das gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Carlos Tornel \u2013 \u201cCapitalismo, guerra total e a rebeli\u00e3o do vivo\u201d<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/CarlosTornel.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/CarlosTornel.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As palavras de Carlos Tornel partiram da provoca\u00e7\u00e3o formulada pelo zapatismo h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas: a ideia de que vivemos uma <strong><a href=\"https:\/\/enlacezapatista.ezln.org.mx\/2003\/02\/01\/cuales-son-las-caracteristicas-fundamentales-de-la-iv-guerra-mundial\/\">Quarta Guerra Mundial<\/a><\/strong>, uma guerra que n\u00e3o se limita ao campo militar, mas atravessa a economia, a cultura, a informa\u00e7\u00e3o, os territ\u00f3rios, os corpos e todas as formas de vida. Seu objetivo n\u00e3o \u00e9 apenas derrotar inimigos, mas destruir, disciplinar ou reorganizar aquilo que n\u00e3o pode ser facilmente transformado em mercadoria: povos, mem\u00f3rias, autonomias, territ\u00f3rios comuns e formas distintas de se relacionar com a vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa guerra constitui um aspecto fundamental do funcionamento do capitalismo. Desde suas origens, a expans\u00e3o capitalista dependeu da espolia\u00e7\u00e3o, da apropria\u00e7\u00e3o dos bens comuns e da transforma\u00e7\u00e3o da natureza e das rela\u00e7\u00f5es sociais em mercadorias. Hoje, diante do esgotamento dos recursos, da crise clim\u00e1tica e das resist\u00eancias territoriais, o capitalismo n\u00e3o reduz sua expans\u00e3o; ao contr\u00e1rio, abre novas fronteiras de extra\u00e7\u00e3o: minera\u00e7\u00e3o, combust\u00edveis f\u00f3sseis, minerais cr\u00edticos e grandes infraestruturas energ\u00e9ticas e log\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise ecol\u00f3gica n\u00e3o afeta toda a humanidade da mesma maneira. N\u00e3o existe uma responsabilidade equivalente diante da degrada\u00e7\u00e3o ambiental: as classes sociais, o g\u00eanero, a geografia e as rela\u00e7\u00f5es coloniais determinam quem consome, quem decide e quem enfrenta as consequ\u00eancias. Por isso, a crise clim\u00e1tica n\u00e3o pode ser compreendida como resultado de uma humanidade abstrata, mas como consequ\u00eancia hist\u00f3rica de um sistema baseado na acumula\u00e7\u00e3o, no colonialismo, no patriarcado e na explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra contra a natureza nasce de uma separa\u00e7\u00e3o moderna entre a humanidade e o mundo vivo. A natureza foi transformada em objeto, recurso e propriedade, enquanto certos povos foram colocados do lado daquilo que seria &#8220;natural&#8221;, tendo sua autonomia e legitimidade negadas. Essa l\u00f3gica permitiu justificar a conquista, o &#8220;desenvolvimento&#8221; e o &#8220;progresso&#8221; como caminhos universais, ocultando a viol\u00eancia necess\u00e1ria para imp\u00f4-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na atualidade surge uma nova forma de <strong>colonialismo clim\u00e1tico<\/strong>. A crise ambiental j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas negada; ela tamb\u00e9m \u00e9 convertida em oportunidade de acumula\u00e7\u00e3o. Os mercados de carbono, as compensa\u00e7\u00f5es ambientais, a minera\u00e7\u00e3o &#8220;verde&#8221; e determinadas formas de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica podem reproduzir as mesmas l\u00f3gicas de espolia\u00e7\u00e3o sob uma nova linguagem de sustentabilidade. Os minerais necess\u00e1rios para as tecnologias digitais, energ\u00e9ticas e militares geram novas disputas territoriais, enquanto comunidades e ecossistemas s\u00e3o transformados em zonas de sacrif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tornel tamb\u00e9m criticou a <strong>&#8220;maldi\u00e7\u00e3o do ambientalismo&#8221;<\/strong>. Quando o cuidado da Terra se transforma em uma tarefa t\u00e9cnica administrada por especialistas, indicadores e mercados, a conserva\u00e7\u00e3o perde seu v\u00ednculo com os territ\u00f3rios e converte-se em uma forma de governan\u00e7a que mede, controla e administra a natureza sem modificar as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que produzem a devasta\u00e7\u00e3o. A crise ecol\u00f3gica acaba sendo transferida para o indiv\u00edduo por meio da figura do <strong>&#8220;sujeito clim\u00e1tico&#8221;<\/strong>, responsabilizado por mudar seus h\u00e1bitos, enquanto as grandes estruturas de poder permanecem intactas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, a proposta \u00e9 <strong>&#8220;a rebeli\u00e3o do vivo&#8221;<\/strong>. A Terra n\u00e3o deve ser entendida como um objeto externo que precisa ser salvo, mas como a trama de rela\u00e7\u00f5es da qual fazemos parte. Defender um rio, uma floresta, uma montanha ou um territ\u00f3rio significa defender comunidades, mem\u00f3rias, conhecimentos e modos de vida. A autonomia, o comum e as resist\u00eancias territoriais demonstram que existem outras maneiras de organizar a exist\u00eancia para al\u00e9m da l\u00f3gica da mercadoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de que <strong>somos a pr\u00f3pria natureza defendendo a si mesma<\/strong> implica recuperar os v\u00ednculos com os territ\u00f3rios, reconstruir capacidades coletivas e reconhecer que a transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o vir\u00e1 apenas dos Estados, das corpora\u00e7\u00f5es ou da tecnologia, mas das pr\u00e1ticas comunit\u00e1rias que j\u00e1 existem. A segunda tempestade n\u00e3o \u00e9 apenas a crise produzida pelo capitalismo, mas tamb\u00e9m a for\u00e7a dos povos, dos territ\u00f3rios e das formas de vida que se organizam para resistir a ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tornel concluiu com um convite para abandonar a espera por solu\u00e7\u00f5es externas e recuperar a capacidade coletiva de construir outros mundos: n\u00e3o utopias distantes, mas espa\u00e7os reais onde a autonomia, o cuidado e a vida em comum possam continuar florescendo diante da guerra contra a natureza.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Subcomandante Insurgente Mois\u00e9s<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro dia do encontro encerrou-se com um importante an\u00fancio feito pelo <a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=55128\">Subcomandante Insurgente Mois\u00e9s<\/a>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pr\u00f3ximo <strong>Encontro de Resist\u00eancias e Rebeldias<\/strong> e o <strong>Encontro de Artes<\/strong>, previstos para dezembro de 2026, ser\u00e3o realizados na <strong>Cidade do M\u00e9xico<\/strong>, na sede da <strong>Casa dos Povos e Comunidades Ind\u00edgenas Samir Flores Soberanes<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/SupMoi.mp3\">Baixe o \u00e1udio aqui<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/SupMoi.mp3\"><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong><a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=55128\">Aqui o comunicado completo<\/a><\/strong>.<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-medium\"><a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pozol11.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"350\" height=\"263\" data-id=\"55155\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pozol11-350x263.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55155\" srcset=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pozol11-350x263.jpeg 350w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pozol11-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pozol11-768x576.jpeg 768w, https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pozol11.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" data-id=\"55154\" src=\"https:\/\/radiozapatista.org\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/pozol5-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-55154\" 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