{"id":44792,"date":"2023-04-29T10:05:15","date_gmt":"2023-04-29T16:05:15","guid":{"rendered":"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=44792"},"modified":"2023-04-29T10:12:24","modified_gmt":"2023-04-29T16:12:24","slug":"reflexoes-rumo-a-despatriarcalizacao-e-deshierarquizacao-da-academia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=44792","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es rumo \u00e0 despatriarcaliza\u00e7\u00e3o e deshierarquiza\u00e7\u00e3o da academia"},"content":{"rendered":"<p>[:es]<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=44790\">Espa\u00f1ol<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=44790&amp;lang=en\">English<\/a><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Manifestamo-nos por mundos despatriarcais e deshier\u00e1rquizantes.<\/h3>\n<p>Diante da publica\u00e7\u00e3o da entrevista com a Weychafe, camarada e intelectual Moira Mill\u00e1n, no jornal <u><a href=\"https:\/\/www.elsaltodiario.com\/violencia-machista\/tengo-denunciar-bonaventura-sousa-santos-hombre-presumiblemente-izquierdas\">El Salto<\/a><\/u>, assim como o cap\u00edtulo intitulado \u201c<em>The walls spoke when no one else would: Autoethnographic notes on sexual-power gatekeeping within avant-garde academia<\/em>\u201d \u2013 As paredes falaram quando ningu\u00e9m mais faria: Notas auto etnogr\u00e1ficas sobre o poder-sexual como controle de acesso na academia progressista (<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/368860052_The_walls_spoke_when_no_one_else_would_Autoethnographic_notes_on_sexual-power_gatekeeping_within_avant-garde_academia\">Viaene, Laranjeiro e Tom<\/a>)\u2013, n\u00e3o somente n\u00e3o podemos permanecer em sil\u00eancio, mas devemos ressaltar que, h\u00e1 algum tempo, temos levantado nossas vozes e a\u00e7\u00f5es pessoais e coletivas concretas, em nossos pr\u00f3prios espa\u00e7os acad\u00eamicos, universit\u00e1rios, ativistas, organizacionais. Para, portanto, em nossas coletivas, redes e movimentos denunciar, combater as hierarquias de conhecimento\/poder intr\u00ednsecas \u00e0 academia, bem como a viol\u00eancia de g\u00eanero, o ass\u00e9dio e o abuso sexual. No entanto, reconhecemos que tudo o que conseguimos fazer e encaminhar ainda \u00e9 insuficiente e exige n\u00e3o parar, redobrar nossos esfor\u00e7os, tecer mais e mais lutas, sintonizar-nos melhor para parar\/transformar radicalmente as guerras e viol\u00eancias atuais contra as mulheres, a M\u00e3e Terra, outres, ni\u00f1es e os povos do mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que o patriarcado \u00e9 a forma mais antiga de domina\u00e7\u00e3o. A humanidade aprendeu a dominar no corpo das mulheres, como afirmam os diversos feminismos de Afro\/Abya-Yala\/Am\u00e9rica Latina. O patriarcado \u00e9 uma configura\u00e7\u00e3o onto-epist\u00eamica que privilegia a hierarquia, a apropria\u00e7\u00e3o, a nega\u00e7\u00e3o dxs outrxs, o controle, o fetichismo das coisas, a reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e das guerras. Ele molda profundamente as subjetividades e afeta a vida de todes. A Academia foi um de seus pilares mais eficazes, pois tem participado ativamente na cria\u00e7\u00e3o de tal vis\u00e3o de mundo instrumental, objetificante, competitiva e hier\u00e1rquica, atrav\u00e9s de suas pr\u00e1ticas naturalizadas de saber\/poder.<\/p>\n<p>A crise civilizat\u00f3ria pela qual transita o planeta Terra \u00e9 o resultado do cis-heteropatriarcado em sua conex\u00e3o hist\u00f3rica com o capitalismo, os colonialismos, o antropocentrismo e as hierarquiza\u00e7\u00f5es raciais, sexuais e capacitistas. Este \u00e9 o contexto complexo que invocamos ao denunciar as m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia contra as mulheres, que t\u00eam sido uma constante na hist\u00f3ria. \u00c9 a mesma origem que desencadeou o Terric\u00eddio (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=C3-gma_shEk\">Moira Mill\u00e1n<\/a>), uma poderosa cosmopol\u00edtica conceitual cunhada pelo Movimento de Mulheres Ind\u00edgenas e Diversidades pelo Bem Viver, que teve origem no Puelmapu Mapuche h\u00e1 j\u00e1 uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Diante da intensifica\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie cis-heteropatriarcal com as crises polic\u00eantricas, reafirmamos nossa determina\u00e7\u00e3o de fazer o que j\u00e1 temos feito e n\u00e3o apenas dizendo ou subscrevendo: continuar a lutar encarnada, di\u00e1ria e situacionalmente para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de sociedades verdadeiramente p\u00f3s-patriarcais, pluriversas, centradas no cuidado, na coopera\u00e7\u00e3o, na liberdade e erradica\u00e7\u00e3o de todas as formas de hierarquia subordinante &#8211; sociedades nas quais todas, todos e todes, junto com os demais seres vivos, possam coexistir \u201cnos\u00f3tricamente\u201d (em radical alteridade), em m\u00fatua cria\u00e7\u00e3o e, como nos diz a ecofeminista venezuelana Liliana Buitrago, no exerc\u00edcio amoroso da interdepend\u00eancia (\u201cchat\u201d do \u201cPacto Ecosocial del Sur\u201d). Nosso compromisso com este projeto coletivo em constru\u00e7\u00e3o tem sido \u2013e \u00e9\u2013 de nosso trabalho di\u00e1rio. Mas sabemos que ele ainda requer a cria\u00e7\u00e3o sustentada de sociedades e academias (portanto, com um \u201ca\u201d min\u00fasculo e no plural) muito diferente das atuais.<\/p>\n<p><strong>A Academia: um campo de disputa<\/strong><\/p>\n<p>A Academia (com A mai\u00fascula e no singular) \u00e9 para n\u00f3s um campo de disputa e a\u00ed estamos, sem d\u00favida, posicionadas(os) todos e todas n\u00f3s que ousamos entrar nele, dialogar com ele, desafi\u00e1-lo, habit\u00e1-lo e\/ou co-constru\u00ed-lo a partir da pr\u00e1tica cotidiana. Muitas(os) de n\u00f3s ocupamos este espa\u00e7o por decis\u00e3o e convic\u00e7\u00e3o e sabemos minuto a minuto o que estamos enfrentando. \u00c9 por isso que o manifesto \u201c<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/04\/14\/sociedade\/noticia\/sabemos-2046156\">Todos sabemos<\/a>\u201d nos ressoa e interpela quando afirma que o extrativismo epist\u00eamico \u00e9 estrutural e n\u00e3o apenas um evento isolado na academia. Quando afirma que a Academia \u00e9 hier\u00e1rquica e hierarquizadora e que promove a acumula\u00e7\u00e3o de poder por aqueles que est\u00e3o no topo. Muitos deles, nos \u00faltimos tempos, t\u00eam sido acusados de abuso e ass\u00e9dio moral e sexual. Neste contexto, as mulheres que denunciam s\u00e3o questionadas, enquanto o denunciado se apresenta, ent\u00e3o, como uma \u201cv\u00edtima\u201d.<\/p>\n<p>Vale acrescentar que, em geral, os sistemas de den\u00fancia de ass\u00e9dio sexual e moral, bem como o extrativismo epist\u00eamico, longe de abordar e reparar os danos, muitas vezes resultam em meras declara\u00e7\u00f5es que d\u00e3o a impress\u00e3o de que algo ser\u00e1 feito, mas no fundo \u201cservem como movimentos performativos que validam o n\u00e3o fazer realmente nada\u201d (por exemplo, <a href=\"https:\/\/www.theparisreview.org\/blog\/2022\/01\/14\/you-pose-a-problem-a-conversation-with-sara-ahmed\/\">Sara Ahmed<\/a>). De igual maneira deve-se ter em conta que, tanto a forma que toma o ass\u00e9dio como as respostas institucionais, s\u00e3o frequentemente diferenciadas, especialmente quando se trata de acad\u00eamicas, ativistas e intelectuais de grupos subalternizados e racializados. Quem se importa com elas? (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/100000112618001\/posts\/pfbid02Ao8r7SqthAoPH1RGqAwziC4zFud3LyoD9ZfR1J7BLZduc5SFRapEjvDaUL6niLoml\/?sfnsn=mo&amp;mibextid=VhDh1V\">Yu Derkys<\/a>) Quem est\u00e1 disposto a ouvir estas queixas? Quantas mulheres racializadas e subalternizadas n\u00e3o est\u00e3o cansadas de falar e falar e de que ningu\u00e9m as escute? Quem est\u00e1 disposto a arranjar tempo para ouvir e ser interlocutor no meio do n\u00e3o-tempo-violento-e-sist\u00eamico em que vivemos?<\/p>\n<p>A Academia n\u00e3o deixa de ser um reflexo de uma sociedade semeada de opress\u00f5es e rebeli\u00f5es, com a diferen\u00e7a de uma autonomia reconhecida para proteger o pensamento cr\u00edtico. Isto \u00e9, muitas vezes, instrumentalizado para proteger aqueles que ocupam posi\u00e7\u00f5es de poder. Os abusos sexuais, tal e como acontece no resto da sociedade, s\u00e3o a parte vis\u00edvel de um sem-fim de pr\u00e1ticas cis-heteropatriarcais e machistas que v\u00e3o desde a cumplicidade entre acad\u00eamicos(as) ao publicar e recircular cita\u00e7\u00f5es, at\u00e9 os abusos e ass\u00e9dios sexuais que tem sido e est\u00e3o sendo constantemente denunciados.<\/p>\n<p><strong>Mulheres ind\u00edgenas e a Academia<\/strong><\/p>\n<p>Em novembro de 2018, em Buenos Aires, em um jantar informal para compartilhar nossas vidas e lutas, a companheira Moira Mill\u00e1n compartilhou com v\u00e1rios de n\u00f3s o que agora foi publicado no jornal <a href=\"https:\/\/www.elsaltodiario.com\/violencia-machista\/tengo-denunciar-bonaventura-sousa-santos-hombre-presumiblemente-izquierdas\">El Salto<\/a>. \u00c0 dist\u00e2ncia, pode-se perguntar: por que Moira o compartilhou apenas em um espa\u00e7o privado? Por que ela n\u00e3o havia apresentado a correspondente den\u00fancia legal? Em sua entrevista, Moira menciona suas raz\u00f5es. Se somos severamente autocr\u00edticos, podemos nos perguntar: por que n\u00f3s \u2013seus ouvintes\u2013 n\u00e3o agimos contundentemente e, naquele exato momento, a instamos e acompanhamos a apresentar a den\u00fancia correspondente junto \u00e0s institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas \u00e0s quais o denunciado pertencia ou com as quais colaborava, em um claro papel de lideran\u00e7a intelectual transnacional? Diante do que ouvimos, o que fizemos? 1) Apoiar Moira e o movimento do qual ela faz parte, nos espa\u00e7os acad\u00eamicos para os quais a t\u00ednhamos convidado. 2) Articular incansavelmente \u2013v\u00e1rios de n\u00f3s\u2013 com ela e com o movimento, assim como com outras companheiras e movimentos, para buscar melhores maneiras de enfrentar as viol\u00eancias e expropria\u00e7\u00f5es. 3) Fortalecer o tecido transnacional de alternativas auton\u00f4micas <em>de facto<\/em> e sem pedir permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Vale acrescentar que no dia seguinte ao mencionado jantar, come\u00e7ou o painel para o qual t\u00ednhamos convidado Moira Mill\u00e1n e as compa\u00f1eras do Movimiento de Mujeres e Diversidades Ind\u00edgenas pelo Bem Viver, tudo no marco do \u201cPrimeiro F\u00f3rum Mundial do Pensamento Cr\u00edtico\u201d e da 8\u00aa Confer\u00eancia Latino-Americana e Caribenha de Ci\u00eancias Sociais da CLACSO. L\u00e1 tivemos a oportunidade de fazer, com Moira, nossas outras convidadas e a plateia, o primeiro ato pol\u00edtico-acad\u00eamico para exigir um lugar decente para realizar nosso painel. Em seguida, procedemos a uma ocupa\u00e7\u00e3o coletiva para ter acesso a um dos audit\u00f3rios maiores. A gota d\u00b4\u00e1gua para este levante foi a acomoda\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel da cadeira de rodas na qual se transportava a colega feminista Mercedes Olivera (que em paz descanse), que era nossa comentarista. A cadeira de Mercedes n\u00e3o podia sequer caber no min\u00fasculo espa\u00e7o que nosso painel havia merecido. Ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 no audit\u00f3rio grande, continuou a participa\u00e7\u00e3o de Moira e de todas as mulheres ind\u00edgenas convidadas por nosso Grupo de Trabalho &#8220;Corpos, Territ\u00f3rios, Resist\u00eancias&#8221; (GT CUTER).<\/p>\n<p>Um audit\u00f3rio lotado encorpou contundentemente o painel e a palavra das convidadas. De certa forma, o ato de rebeldia que protagonizamos \u2013convidadas, anfitri\u00e3s e p\u00fablico\u2013, se traduziu em algo como: N\u00e3o passar\u00e1 um \u00fanico tratamento indigno para as mulheres racializadas, subalternizadas! Estes eram tempos em que a CLACSO aprovava a entrada de mais e mais grupos de trabalho que inclu\u00edam mulheres l\u00edderes, intelectuais e s\u00e1bias(os) de territ\u00f3rios comunais. Portanto, acreditamos que nossa \u201crevolta coletiva\u201d estabeleceu um precedente importante.<\/p>\n<p>As palavras e a\u00e7\u00f5es de Moira estavam em sintonia com as nossas e nos ajudaram a ratificar o caminho \u2013pessoal e coletivo\u2013 que trazemos durante d\u00e9cadas, antes de 2016, quando come\u00e7amos a ser o Grupo de Trabalho CUTER: habitar as institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e universit\u00e1rias das quais fazemos parte, as institui\u00e7\u00f5es alternativas que estamos construindo com mulheres, as\/os outres, povos em resist\u00eancia, de forma digna e respeitosa, procurando n\u00e3o cair no ventriloquismo e no extrativismo. Abrir espa\u00e7os dentro e fora das academias para ir posicionando o tipo de trabalho\/vida\/luta que elas e n\u00f3s (\u201cnosotras(os)\u201d) praticamos.<\/p>\n<p>Cotidianamente, nos diferentes territ\u00f3rios que habitamos (incluindo o territ\u00f3rio acad\u00eamico), minuto a minuto, caminhamos com nossa corpa e senti-pensamentos, a\u00e7\u00f5es concretas para enfrentar as viol\u00eancias, opress\u00f5es e guerras. Esta \u00e9 a maneira pela qual diferentes membras do Grupo de Trabalho CUTER abra\u00e7amos, encorpamos e retecemos \u201ca rede da vida\u201d (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4frGU4qOnpU\">Lorena Cabnal e a Rede de Curandeiros Ancestrais do Feminismo Comunit\u00e1rio Territorial<\/a>) de m\u00e3os dadas com as mulheres ind\u00edgenas, afrodescendentes, afrodiasp\u00f3ricas, camponesas, populares, alter-urbanas, assim como de diversidades sexuais, em diferentes tempos e geografias.<\/p>\n<p><strong>As sa\u00eddas do labirinto: insuficientes e perigosas<\/strong><\/p>\n<p>Respeitamos e compreendemos os diversos caminhos que as denunciantes de abuso e ass\u00e9dio sexual tomam na busca de justi\u00e7a, repara\u00e7\u00e3o dos danos, assim como para conseguir a cura de toda a sociedade. Acreditamos que no centro de nossas reflex\u00f5es e den\u00fancias de ass\u00e9dio sexual e o extrativismo epist\u00eamico deve estar o cuidado. \u00c9 importante levar em conta o tempo daquelas(es) que, tendo sido violentadxs, compartilham suas experi\u00eancias em confidencialidade. Respeitar o tempo para curar \u00e9 uma forma de cuidado. Isto significa n\u00e3o tomar o direito de expor publicamente uma experi\u00eancia de ass\u00e9dio sexual e extrativismo epist\u00eamico sem o consentimento expl\u00edcito e o acompanhamento da pessoa que foi violada. Fazer isso revitimiza e promove o punitivismo ao inv\u00e9s da repara\u00e7\u00e3o. Em poucas palavras, no centro est\u00e3o as v\u00edtimas, seus tempos e momentos.<\/p>\n<p>Em muitos casos, as denunciantes seguem a via legal ou jur\u00eddica. De fato, hoje, os movimentos de mulheres e movimentos de povos em resist\u00eancia est\u00e3o simultaneamente nos tribunais e nas ruas se mobilizando. Surge obrigatoriamente, ent\u00e3o, a pergunta: de que tipo de justi\u00e7a estamos falando? Como podemos alcan\u00e7\u00e1-la? Qual via \u2013das muitas poss\u00edveis\u2013 tomar? Quem nos sentimos chamadas(os) a acompanh\u00e1-las? E tudo isso sabendo que, mesmo nos pa\u00edses ditos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d, a justi\u00e7a dispensada pelo Estado \u00e9 comprada e em pa\u00edses n\u00e3o democr\u00e1ticos, mais de 95% da viol\u00eancia de g\u00eanero fica impune. Dito isto, n\u00e3o \u00e9 estranho dizer que n\u00e3o podemos esperar muito da justi\u00e7a cis-heteropatriarcal oferecida pelas institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas ou pelo Estado.<\/p>\n<p>Sabemos que o aparelho punitivo e a cultura do castigo s\u00e3o parte essencial da estrutura do Estado e das sociedades modernas e que, atrav\u00e9s delas, se perpetuam as sociedades carcer\u00e1rias articuladas \u00e0 extra\u00e7\u00e3o e a acumula\u00e7\u00e3o, com sistemas de justi\u00e7a que afirmam manter a \u201cseguran\u00e7a e a ordem\u201d, ao mesmo tempo em que se enfurecem contra popula\u00e7\u00f5es empobrecidas, marginalizadas e racializadas.<\/p>\n<p>Como aponta um texto recente sobre o anti-punitivismo feminista, nenhuma sa\u00edda est\u00e1 livre de contradi\u00e7\u00f5es e complexidades. Al\u00e9m disso, estamos conscientes da import\u00e2ncia de reconhecer que \u201co debate sobre o anti-punitivismo n\u00e3o pode cair na f\u00e1cil tenta\u00e7\u00e3o de acomodar-se com o te\u00f3rico&#8221; (<a href=\"https:\/\/www.pikaramagazine.com\/2021\/12\/reflexiones-sobre-antipunitivismo-en-tiempos-de-violencias\/\">Laila Serra<\/a>). Esta \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o institucional e academicista. Para o anti-punitivismo feminista, \u00e9 necess\u00e1rio entrar na \u201ctempestade pol\u00edtica do p\u00f4r em pr\u00e1tica\u201d das justi\u00e7as, embora o horizonte te\u00f3rico-pol\u00edtico possa\/deva ser a autogest\u00e3o feminista das viol\u00eancias e a vis\u00e3o abolicionista da sociedade e da justi\u00e7a. Como bem dizem as autoras: \u201ca autogest\u00e3o coletiva das viol\u00eancias \u00e0 margem do Estado [do aparato da lei e do aparato punitivo que lhe est\u00e1 subjacente] \u00e9 uma alternativa que ainda est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o\u201d e, acrescentamos, apresenta outros riscos e desafios.<\/p>\n<p>Somos testemunhas da digna rabia que Moira expressa em sua den\u00fancia e com ela, muitas mulheres que n\u00e3o receberam a aten\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e que seguem padecendo a viol\u00eancia do sistema cis-heteropatriarcal, acad\u00eamico e de despossess\u00e3o em diferentes territ\u00f3rios. Como trabalhadoras(es) das Ci\u00eancias Sociais, membros do GT CUTER, resistimos <em>com<\/em> <em>e entre<\/em> os povos \u2013mulheres, homens, crian\u00e7as, jovens e comunidades enraizadas na terra. As den\u00fancias que vamos acompanhando ou encorpando em processos, trajet\u00f3rias de pesquisas colaborativas, e pesquisas a partir de a\u00e7\u00f5es coletivas nos permitem afirmar que o subconsciente cis-heteropatriarcal tamb\u00e9m se reproduz em muitos coletivos e coletivas, organiza\u00e7\u00f5es e movimentos alter-nativos. Quebrar as mulheres, por via sexual, \u00e9 parte da despossess\u00e3o e do dom\u00ednio imperialista-capitalista-homoc\u00eantrico que busca aniquilar a dignidade pessoal e as subjetividades coletivas e comunais.<\/p>\n<p>N\u00f3s nos convocamos e lhes convocamos a seguir criando lugares concretos de des-hierarquiza\u00e7\u00e3o do poder e lugares de cura diante da impunidade institucionalizada e sancionada pelo Estado. Como trabalhadoras e trabalhadores das Ci\u00eancias Sociais em interse\u00e7\u00e3o com artistas, ativistas e feministas territoriais e comunais, continuaremos desmascarando e combatendo, pessoal e coletivamente, qualquer forma de humilha\u00e7\u00e3o, exterm\u00ednio e coopta\u00e7\u00e3o de mulheres nos territ\u00f3rios, e persistiremos em seguir nos curando do sistema cis-heteropatriarcal nos diferentes lugares onde estivermos, do g\u00eanero que sejamos, dos territ\u00f3rios que habitemos e das hist\u00f3rias que escrevemos e caminhamos.<\/p>\n<p>Os movimentos de v\u00edtimas de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos enfatizam quatro crit\u00e9rios que nos parecem eminentemente aplic\u00e1veis aos casos de abuso e ass\u00e9dio sexual: o direito \u00e0 verdade, \u00e0 repara\u00e7\u00e3o, \u00e0 n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o e \u00e0 justi\u00e7a. Neste sentido, instamos as diversas institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas (nacionais, latino-americanas, caribenhas e transnacionais) envolvidas \u2013de uma forma ou de outra\u2013 em casos de abuso e ass\u00e9dio sexual e extrativismo epist\u00eamico a reverem seus protocolos e comit\u00eas de \u00e9tica e viol\u00eancia epist\u00eamica e de g\u00eanero. \u00c9, sem d\u00favida, importante declarar \u201ctoler\u00e2ncia zero e rejei\u00e7\u00e3o ao ass\u00e9dio sexual\u201d (<a href=\"https:\/\/www.clacso.org\/tolerancia-cero-y-rechazo-absoluto-al-acoso-sexual\/\">CLACSO<\/a>), mas acreditamos que isto \u00e9 insuficiente.<\/p>\n<p>Acreditamos que em todos os espa\u00e7os onde nos movemos e atuamos como trabalhadoras(es), ativistas e feministas devemos continuar trabalhando coletivamente e em conjunto com as autoridades institucionais na implementa\u00e7\u00e3o de protocolos, comit\u00eas e pol\u00edticas internas (explicitamente acess\u00edveis) para promover mecanismos apropriados e expeditos para prevenir, denunciar, debater e agir contra atos de abuso e ass\u00e9dio sexual, contra atos de viol\u00eancia de g\u00eanero e epist\u00eamica. Cada institui\u00e7\u00e3o acad\u00eamica nacional geralmente tem comiss\u00f5es e c\u00f3digos <em>ad hoc<\/em>; as coordenadorias acad\u00eamicas supranacionais devem ter, revisar e atualizar tais inst\u00e2ncias permanentemente. E se n\u00e3o as t\u00eam, devem cri\u00e1-las. N\u00e3o \u00e9 suficiente \u2013pelo que j\u00e1 argumentamos acima\u2013 deixar o trabalho para as \u201ccomiss\u00f5es independentes\u201d. Repetimos, \u00e9 insuficiente, e at\u00e9 mesmo perigoso, pelas raz\u00f5es j\u00e1 argumentadas.<\/p>\n<p>Nos deixa sem f\u00f4lego e nos indigna a resposta de Boaventura de Sousa Santos reduzida \u00e0 \u201cvingan\u00e7a\u201d diante das ex-estudantes denunciantes via auto-etnografia. \u201cA pr\u00f3pria teoria social feminista nos indica que n\u00e3o h\u00e1 lugar, nenhum sujeito intocado pelas rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e suas interse\u00e7\u00f5es&#8221;. Para nos emanciparmos delas, para empurr\u00e1-las para tr\u00e1s, temos que olh\u00e1-las no rosto, reconhec\u00ea-las em n\u00f3s, n\u00e3o tentar esconder em que partes de n\u00f3s elas habitam&#8230; \u00c9 trazendo-as \u00e0 tona, debatendo-as, que nasce a possibilidade de mudan\u00e7a&#8221; (<a href=\"https:\/\/luchadoras.mx\/justicia-feminista-ante-el-estado-ausente-un-debate-urgente-reflexiones-sobre-estrategias-frente-a-la-violencia-patriarcal\">Lang e Segato<\/a>).<\/p>\n<p>Sabemos tamb\u00e9m que precisamos de comunidades acad\u00eamicas e sociais dispostas a debater em profundidade, a aprender permanentemente, a expandir nossa imagina\u00e7\u00e3o e a (re)criar coletiva e permanentemente processos emancipat\u00f3rios \u2013pr\u00e1xis libertadoras\u2013 diante das omiss\u00f5es, indiferen\u00e7as e qualquer express\u00e3o de revitimiza\u00e7\u00e3o das mulheres violentadas e das diversas comunidades afetadas. Acreditamos que o que tamb\u00e9m est\u00e1 em jogo \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o coletiva de sociedades justas, relacionais e curativas; outros mundos poss\u00edveis aqui e agora, como dizem e fazem as, os, oas zapatistas.[:en]<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=44790\">Espa\u00f1ol<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/radiozapatista.org\/?p=44790&amp;lang=en\">English<\/a><\/p>\n<h3 style=\"text-align: center;\">Manifestamo-nos por mundos despatriarcais e deshier\u00e1rquizantes.<\/h3>\n<p>Diante da publica\u00e7\u00e3o da entrevista com a Weychafe, camarada e intelectual Moira Mill\u00e1n, no jornal <u><a href=\"https:\/\/www.elsaltodiario.com\/violencia-machista\/tengo-denunciar-bonaventura-sousa-santos-hombre-presumiblemente-izquierdas\">El Salto<\/a><\/u>, assim como o cap\u00edtulo intitulado \u201c<em>The walls spoke when no one else would: Autoethnographic notes on sexual-power gatekeeping within avant-garde academia<\/em>\u201d \u2013 As paredes falaram quando ningu\u00e9m mais faria: Notas auto etnogr\u00e1ficas sobre o poder-sexual como controle de acesso na academia progressista (<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/368860052_The_walls_spoke_when_no_one_else_would_Autoethnographic_notes_on_sexual-power_gatekeeping_within_avant-garde_academia\">Viaene, Laranjeiro e Tom<\/a>)\u2013, n\u00e3o somente n\u00e3o podemos permanecer em sil\u00eancio, mas devemos ressaltar que, h\u00e1 algum tempo, temos levantado nossas vozes e a\u00e7\u00f5es pessoais e coletivas concretas, em nossos pr\u00f3prios espa\u00e7os acad\u00eamicos, universit\u00e1rios, ativistas, organizacionais. Para, portanto, em nossas coletivas, redes e movimentos denunciar, combater as hierarquias de conhecimento\/poder intr\u00ednsecas \u00e0 academia, bem como a viol\u00eancia de g\u00eanero, o ass\u00e9dio e o abuso sexual. No entanto, reconhecemos que tudo o que conseguimos fazer e encaminhar ainda \u00e9 insuficiente e exige n\u00e3o parar, redobrar nossos esfor\u00e7os, tecer mais e mais lutas, sintonizar-nos melhor para parar\/transformar radicalmente as guerras e viol\u00eancias atuais contra as mulheres, a M\u00e3e Terra, outres, ni\u00f1es e os povos do mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que o patriarcado \u00e9 a forma mais antiga de domina\u00e7\u00e3o. A humanidade aprendeu a dominar no corpo das mulheres, como afirmam os diversos feminismos de Afro\/Abya-Yala\/Am\u00e9rica Latina. O patriarcado \u00e9 uma configura\u00e7\u00e3o onto-epist\u00eamica que privilegia a hierarquia, a apropria\u00e7\u00e3o, a nega\u00e7\u00e3o dxs outrxs, o controle, o fetichismo das coisas, a reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia e das guerras. Ele molda profundamente as subjetividades e afeta a vida de todes. A Academia foi um de seus pilares mais eficazes, pois tem participado ativamente na cria\u00e7\u00e3o de tal vis\u00e3o de mundo instrumental, objetificante, competitiva e hier\u00e1rquica, atrav\u00e9s de suas pr\u00e1ticas naturalizadas de saber\/poder.<\/p>\n<p>A crise civilizat\u00f3ria pela qual transita o planeta Terra \u00e9 o resultado do cis-heteropatriarcado em sua conex\u00e3o hist\u00f3rica com o capitalismo, os colonialismos, o antropocentrismo e as hierarquiza\u00e7\u00f5es raciais, sexuais e capacitistas. Este \u00e9 o contexto complexo que invocamos ao denunciar as m\u00faltiplas formas de viol\u00eancia contra as mulheres, que t\u00eam sido uma constante na hist\u00f3ria. \u00c9 a mesma origem que desencadeou o Terric\u00eddio (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=C3-gma_shEk\">Moira Mill\u00e1n<\/a>), uma poderosa cosmopol\u00edtica conceitual cunhada pelo Movimento de Mulheres Ind\u00edgenas e Diversidades pelo Bem Viver, que teve origem no Puelmapu Mapuche h\u00e1 j\u00e1 uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Diante da intensifica\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie cis-heteropatriarcal com as crises polic\u00eantricas, reafirmamos nossa determina\u00e7\u00e3o de fazer o que j\u00e1 temos feito e n\u00e3o apenas dizendo ou subscrevendo: continuar a lutar encarnada, di\u00e1ria e situacionalmente para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de sociedades verdadeiramente p\u00f3s-patriarcais, pluriversas, centradas no cuidado, na coopera\u00e7\u00e3o, na liberdade e erradica\u00e7\u00e3o de todas as formas de hierarquia subordinante &#8211; sociedades nas quais todas, todos e todes, junto com os demais seres vivos, possam coexistir \u201cnos\u00f3tricamente\u201d (em radical alteridade), em m\u00fatua cria\u00e7\u00e3o e, como nos diz a ecofeminista venezuelana Liliana Buitrago, no exerc\u00edcio amoroso da interdepend\u00eancia (\u201cchat\u201d do \u201cPacto Ecosocial del Sur\u201d). Nosso compromisso com este projeto coletivo em constru\u00e7\u00e3o tem sido \u2013e \u00e9\u2013 de nosso trabalho di\u00e1rio. Mas sabemos que ele ainda requer a cria\u00e7\u00e3o sustentada de sociedades e academias (portanto, com um \u201ca\u201d min\u00fasculo e no plural) muito diferente das atuais.<\/p>\n<p><strong>A Academia: um campo de disputa<\/strong><\/p>\n<p>A Academia (com A mai\u00fascula e no singular) \u00e9 para n\u00f3s um campo de disputa e a\u00ed estamos, sem d\u00favida, posicionadas(os) todos e todas n\u00f3s que ousamos entrar nele, dialogar com ele, desafi\u00e1-lo, habit\u00e1-lo e\/ou co-constru\u00ed-lo a partir da pr\u00e1tica cotidiana. Muitas(os) de n\u00f3s ocupamos este espa\u00e7o por decis\u00e3o e convic\u00e7\u00e3o e sabemos minuto a minuto o que estamos enfrentando. \u00c9 por isso que o manifesto \u201c<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/04\/14\/sociedade\/noticia\/sabemos-2046156\">Todos sabemos<\/a>\u201d nos ressoa e interpela quando afirma que o extrativismo epist\u00eamico \u00e9 estrutural e n\u00e3o apenas um evento isolado na academia. Quando afirma que a Academia \u00e9 hier\u00e1rquica e hierarquizadora e que promove a acumula\u00e7\u00e3o de poder por aqueles que est\u00e3o no topo. Muitos deles, nos \u00faltimos tempos, t\u00eam sido acusados de abuso e ass\u00e9dio moral e sexual. Neste contexto, as mulheres que denunciam s\u00e3o questionadas, enquanto o denunciado se apresenta, ent\u00e3o, como uma \u201cv\u00edtima\u201d.<\/p>\n<p>Vale acrescentar que, em geral, os sistemas de den\u00fancia de ass\u00e9dio sexual e moral, bem como o extrativismo epist\u00eamico, longe de abordar e reparar os danos, muitas vezes resultam em meras declara\u00e7\u00f5es que d\u00e3o a impress\u00e3o de que algo ser\u00e1 feito, mas no fundo \u201cservem como movimentos performativos que validam o n\u00e3o fazer realmente nada\u201d (por exemplo, <a href=\"https:\/\/www.theparisreview.org\/blog\/2022\/01\/14\/you-pose-a-problem-a-conversation-with-sara-ahmed\/\">Sara Ahmed<\/a>). De igual maneira deve-se ter em conta que, tanto a forma que toma o ass\u00e9dio como as respostas institucionais, s\u00e3o frequentemente diferenciadas, especialmente quando se trata de acad\u00eamicas, ativistas e intelectuais de grupos subalternizados e racializados. Quem se importa com elas? (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/100000112618001\/posts\/pfbid02Ao8r7SqthAoPH1RGqAwziC4zFud3LyoD9ZfR1J7BLZduc5SFRapEjvDaUL6niLoml\/?sfnsn=mo&amp;mibextid=VhDh1V\">Yu Derkys<\/a>) Quem est\u00e1 disposto a ouvir estas queixas? Quantas mulheres racializadas e subalternizadas n\u00e3o est\u00e3o cansadas de falar e falar e de que ningu\u00e9m as escute? Quem est\u00e1 disposto a arranjar tempo para ouvir e ser interlocutor no meio do n\u00e3o-tempo-violento-e-sist\u00eamico em que vivemos?<\/p>\n<p>A Academia n\u00e3o deixa de ser um reflexo de uma sociedade semeada de opress\u00f5es e rebeli\u00f5es, com a diferen\u00e7a de uma autonomia reconhecida para proteger o pensamento cr\u00edtico. Isto \u00e9, muitas vezes, instrumentalizado para proteger aqueles que ocupam posi\u00e7\u00f5es de poder. Os abusos sexuais, tal e como acontece no resto da sociedade, s\u00e3o a parte vis\u00edvel de um sem-fim de pr\u00e1ticas cis-heteropatriarcais e machistas que v\u00e3o desde a cumplicidade entre acad\u00eamicos(as) ao publicar e recircular cita\u00e7\u00f5es, at\u00e9 os abusos e ass\u00e9dios sexuais que tem sido e est\u00e3o sendo constantemente denunciados.<\/p>\n<p><strong>Mulheres ind\u00edgenas e a Academia<\/strong><\/p>\n<p>Em novembro de 2018, em Buenos Aires, em um jantar informal para compartilhar nossas vidas e lutas, a companheira Moira Mill\u00e1n compartilhou com v\u00e1rios de n\u00f3s o que agora foi publicado no jornal <a href=\"https:\/\/www.elsaltodiario.com\/violencia-machista\/tengo-denunciar-bonaventura-sousa-santos-hombre-presumiblemente-izquierdas\">El Salto<\/a>. \u00c0 dist\u00e2ncia, pode-se perguntar: por que Moira o compartilhou apenas em um espa\u00e7o privado? Por que ela n\u00e3o havia apresentado a correspondente den\u00fancia legal? Em sua entrevista, Moira menciona suas raz\u00f5es. Se somos severamente autocr\u00edticos, podemos nos perguntar: por que n\u00f3s \u2013seus ouvintes\u2013 n\u00e3o agimos contundentemente e, naquele exato momento, a instamos e acompanhamos a apresentar a den\u00fancia correspondente junto \u00e0s institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas \u00e0s quais o denunciado pertencia ou com as quais colaborava, em um claro papel de lideran\u00e7a intelectual transnacional? Diante do que ouvimos, o que fizemos? 1) Apoiar Moira e o movimento do qual ela faz parte, nos espa\u00e7os acad\u00eamicos para os quais a t\u00ednhamos convidado. 2) Articular incansavelmente \u2013v\u00e1rios de n\u00f3s\u2013 com ela e com o movimento, assim como com outras companheiras e movimentos, para buscar melhores maneiras de enfrentar as viol\u00eancias e expropria\u00e7\u00f5es. 3) Fortalecer o tecido transnacional de alternativas auton\u00f4micas <em>de facto<\/em> e sem pedir permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Vale acrescentar que no dia seguinte ao mencionado jantar, come\u00e7ou o painel para o qual t\u00ednhamos convidado Moira Mill\u00e1n e as compa\u00f1eras do Movimiento de Mujeres e Diversidades Ind\u00edgenas pelo Bem Viver, tudo no marco do \u201cPrimeiro F\u00f3rum Mundial do Pensamento Cr\u00edtico\u201d e da 8\u00aa Confer\u00eancia Latino-Americana e Caribenha de Ci\u00eancias Sociais da CLACSO. L\u00e1 tivemos a oportunidade de fazer, com Moira, nossas outras convidadas e a plateia, o primeiro ato pol\u00edtico-acad\u00eamico para exigir um lugar decente para realizar nosso painel. Em seguida, procedemos a uma ocupa\u00e7\u00e3o coletiva para ter acesso a um dos audit\u00f3rios maiores. A gota d\u00b4\u00e1gua para este levante foi a acomoda\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel da cadeira de rodas na qual se transportava a colega feminista Mercedes Olivera (que em paz descanse), que era nossa comentarista. A cadeira de Mercedes n\u00e3o podia sequer caber no min\u00fasculo espa\u00e7o que nosso painel havia merecido. Ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 no audit\u00f3rio grande, continuou a participa\u00e7\u00e3o de Moira e de todas as mulheres ind\u00edgenas convidadas por nosso Grupo de Trabalho &#8220;Corpos, Territ\u00f3rios, Resist\u00eancias&#8221; (GT CUTER).<\/p>\n<p>Um audit\u00f3rio lotado encorpou contundentemente o painel e a palavra das convidadas. De certa forma, o ato de rebeldia que protagonizamos \u2013convidadas, anfitri\u00e3s e p\u00fablico\u2013, se traduziu em algo como: N\u00e3o passar\u00e1 um \u00fanico tratamento indigno para as mulheres racializadas, subalternizadas! Estes eram tempos em que a CLACSO aprovava a entrada de mais e mais grupos de trabalho que inclu\u00edam mulheres l\u00edderes, intelectuais e s\u00e1bias(os) de territ\u00f3rios comunais. Portanto, acreditamos que nossa \u201crevolta coletiva\u201d estabeleceu um precedente importante.<\/p>\n<p>As palavras e a\u00e7\u00f5es de Moira estavam em sintonia com as nossas e nos ajudaram a ratificar o caminho \u2013pessoal e coletivo\u2013 que trazemos durante d\u00e9cadas, antes de 2016, quando come\u00e7amos a ser o Grupo de Trabalho CUTER: habitar as institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e universit\u00e1rias das quais fazemos parte, as institui\u00e7\u00f5es alternativas que estamos construindo com mulheres, as\/os outres, povos em resist\u00eancia, de forma digna e respeitosa, procurando n\u00e3o cair no ventriloquismo e no extrativismo. Abrir espa\u00e7os dentro e fora das academias para ir posicionando o tipo de trabalho\/vida\/luta que elas e n\u00f3s (\u201cnosotras(os)\u201d) praticamos.<\/p>\n<p>Cotidianamente, nos diferentes territ\u00f3rios que habitamos (incluindo o territ\u00f3rio acad\u00eamico), minuto a minuto, caminhamos com nossa corpa e senti-pensamentos, a\u00e7\u00f5es concretas para enfrentar as viol\u00eancias, opress\u00f5es e guerras. Esta \u00e9 a maneira pela qual diferentes membras do Grupo de Trabalho CUTER abra\u00e7amos, encorpamos e retecemos \u201ca rede da vida\u201d (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4frGU4qOnpU\">Lorena Cabnal e a Rede de Curandeiros Ancestrais do Feminismo Comunit\u00e1rio Territorial<\/a>) de m\u00e3os dadas com as mulheres ind\u00edgenas, afrodescendentes, afrodiasp\u00f3ricas, camponesas, populares, alter-urbanas, assim como de diversidades sexuais, em diferentes tempos e geografias.<\/p>\n<p><strong>As sa\u00eddas do labirinto: insuficientes e perigosas<\/strong><\/p>\n<p>Respeitamos e compreendemos os diversos caminhos que as denunciantes de abuso e ass\u00e9dio sexual tomam na busca de justi\u00e7a, repara\u00e7\u00e3o dos danos, assim como para conseguir a cura de toda a sociedade. Acreditamos que no centro de nossas reflex\u00f5es e den\u00fancias de ass\u00e9dio sexual e o extrativismo epist\u00eamico deve estar o cuidado. \u00c9 importante levar em conta o tempo daquelas(es) que, tendo sido violentadxs, compartilham suas experi\u00eancias em confidencialidade. Respeitar o tempo para curar \u00e9 uma forma de cuidado. Isto significa n\u00e3o tomar o direito de expor publicamente uma experi\u00eancia de ass\u00e9dio sexual e extrativismo epist\u00eamico sem o consentimento expl\u00edcito e o acompanhamento da pessoa que foi violada. Fazer isso revitimiza e promove o punitivismo ao inv\u00e9s da repara\u00e7\u00e3o. Em poucas palavras, no centro est\u00e3o as v\u00edtimas, seus tempos e momentos.<\/p>\n<p>Em muitos casos, as denunciantes seguem a via legal ou jur\u00eddica. De fato, hoje, os movimentos de mulheres e movimentos de povos em resist\u00eancia est\u00e3o simultaneamente nos tribunais e nas ruas se mobilizando. Surge obrigatoriamente, ent\u00e3o, a pergunta: de que tipo de justi\u00e7a estamos falando? Como podemos alcan\u00e7\u00e1-la? Qual via \u2013das muitas poss\u00edveis\u2013 tomar? Quem nos sentimos chamadas(os) a acompanh\u00e1-las? E tudo isso sabendo que, mesmo nos pa\u00edses ditos \u201cdemocr\u00e1ticos\u201d, a justi\u00e7a dispensada pelo Estado \u00e9 comprada e em pa\u00edses n\u00e3o democr\u00e1ticos, mais de 95% da viol\u00eancia de g\u00eanero fica impune. Dito isto, n\u00e3o \u00e9 estranho dizer que n\u00e3o podemos esperar muito da justi\u00e7a cis-heteropatriarcal oferecida pelas institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas ou pelo Estado.<\/p>\n<p>Sabemos que o aparelho punitivo e a cultura do castigo s\u00e3o parte essencial da estrutura do Estado e das sociedades modernas e que, atrav\u00e9s delas, se perpetuam as sociedades carcer\u00e1rias articuladas \u00e0 extra\u00e7\u00e3o e a acumula\u00e7\u00e3o, com sistemas de justi\u00e7a que afirmam manter a \u201cseguran\u00e7a e a ordem\u201d, ao mesmo tempo em que se enfurecem contra popula\u00e7\u00f5es empobrecidas, marginalizadas e racializadas.<\/p>\n<p>Como aponta um texto recente sobre o anti-punitivismo feminista, nenhuma sa\u00edda est\u00e1 livre de contradi\u00e7\u00f5es e complexidades. Al\u00e9m disso, estamos conscientes da import\u00e2ncia de reconhecer que \u201co debate sobre o anti-punitivismo n\u00e3o pode cair na f\u00e1cil tenta\u00e7\u00e3o de acomodar-se com o te\u00f3rico&#8221; (<a href=\"https:\/\/www.pikaramagazine.com\/2021\/12\/reflexiones-sobre-antipunitivismo-en-tiempos-de-violencias\/\">Laila Serra<\/a>). Esta \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o institucional e academicista. Para o anti-punitivismo feminista, \u00e9 necess\u00e1rio entrar na \u201ctempestade pol\u00edtica do p\u00f4r em pr\u00e1tica\u201d das justi\u00e7as, embora o horizonte te\u00f3rico-pol\u00edtico possa\/deva ser a autogest\u00e3o feminista das viol\u00eancias e a vis\u00e3o abolicionista da sociedade e da justi\u00e7a. Como bem dizem as autoras: \u201ca autogest\u00e3o coletiva das viol\u00eancias \u00e0 margem do Estado [do aparato da lei e do aparato punitivo que lhe est\u00e1 subjacente] \u00e9 uma alternativa que ainda est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o\u201d e, acrescentamos, apresenta outros riscos e desafios.<\/p>\n<p>Somos testemunhas da digna rabia que Moira expressa em sua den\u00fancia e com ela, muitas mulheres que n\u00e3o receberam a aten\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e que seguem padecendo a viol\u00eancia do sistema cis-heteropatriarcal, acad\u00eamico e de despossess\u00e3o em diferentes territ\u00f3rios. Como trabalhadoras(es) das Ci\u00eancias Sociais, membros do GT CUTER, resistimos <em>com<\/em> <em>e entre<\/em> os povos \u2013mulheres, homens, crian\u00e7as, jovens e comunidades enraizadas na terra. As den\u00fancias que vamos acompanhando ou encorpando em processos, trajet\u00f3rias de pesquisas colaborativas, e pesquisas a partir de a\u00e7\u00f5es coletivas nos permitem afirmar que o subconsciente cis-heteropatriarcal tamb\u00e9m se reproduz em muitos coletivos e coletivas, organiza\u00e7\u00f5es e movimentos alter-nativos. Quebrar as mulheres, por via sexual, \u00e9 parte da despossess\u00e3o e do dom\u00ednio imperialista-capitalista-homoc\u00eantrico que busca aniquilar a dignidade pessoal e as subjetividades coletivas e comunais.<\/p>\n<p>N\u00f3s nos convocamos e lhes convocamos a seguir criando lugares concretos de des-hierarquiza\u00e7\u00e3o do poder e lugares de cura diante da impunidade institucionalizada e sancionada pelo Estado. Como trabalhadoras e trabalhadores das Ci\u00eancias Sociais em interse\u00e7\u00e3o com artistas, ativistas e feministas territoriais e comunais, continuaremos desmascarando e combatendo, pessoal e coletivamente, qualquer forma de humilha\u00e7\u00e3o, exterm\u00ednio e coopta\u00e7\u00e3o de mulheres nos territ\u00f3rios, e persistiremos em seguir nos curando do sistema cis-heteropatriarcal nos diferentes lugares onde estivermos, do g\u00eanero que sejamos, dos territ\u00f3rios que habitemos e das hist\u00f3rias que escrevemos e caminhamos.<\/p>\n<p>Os movimentos de v\u00edtimas de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos enfatizam quatro crit\u00e9rios que nos parecem eminentemente aplic\u00e1veis aos casos de abuso e ass\u00e9dio sexual: o direito \u00e0 verdade, \u00e0 repara\u00e7\u00e3o, \u00e0 n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o e \u00e0 justi\u00e7a. Neste sentido, instamos as diversas institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas (nacionais, latino-americanas, caribenhas e transnacionais) envolvidas \u2013de uma forma ou de outra\u2013 em casos de abuso e ass\u00e9dio sexual e extrativismo epist\u00eamico a reverem seus protocolos e comit\u00eas de \u00e9tica e viol\u00eancia epist\u00eamica e de g\u00eanero. \u00c9, sem d\u00favida, importante declarar \u201ctoler\u00e2ncia zero e rejei\u00e7\u00e3o ao ass\u00e9dio sexual\u201d (<a href=\"https:\/\/www.clacso.org\/tolerancia-cero-y-rechazo-absoluto-al-acoso-sexual\/\">CLACSO<\/a>), mas acreditamos que isto \u00e9 insuficiente.<\/p>\n<p>Acreditamos que em todos os espa\u00e7os onde nos movemos e atuamos como trabalhadoras(es), ativistas e feministas devemos continuar trabalhando coletivamente e em conjunto com as autoridades institucionais na implementa\u00e7\u00e3o de protocolos, comit\u00eas e pol\u00edticas internas (explicitamente acess\u00edveis) para promover mecanismos apropriados e expeditos para prevenir, denunciar, debater e agir contra atos de abuso e ass\u00e9dio sexual, contra atos de viol\u00eancia de g\u00eanero e epist\u00eamica. Cada institui\u00e7\u00e3o acad\u00eamica nacional geralmente tem comiss\u00f5es e c\u00f3digos <em>ad hoc<\/em>; as coordenadorias acad\u00eamicas supranacionais devem ter, revisar e atualizar tais inst\u00e2ncias permanentemente. E se n\u00e3o as t\u00eam, devem cri\u00e1-las. N\u00e3o \u00e9 suficiente \u2013pelo que j\u00e1 argumentamos acima\u2013 deixar o trabalho para as \u201ccomiss\u00f5es independentes\u201d. Repetimos, \u00e9 insuficiente, e at\u00e9 mesmo perigoso, pelas raz\u00f5es j\u00e1 argumentadas.<\/p>\n<p>Nos deixa sem f\u00f4lego e nos indigna a resposta de Boaventura de Sousa Santos reduzida \u00e0 \u201cvingan\u00e7a\u201d diante das ex-estudantes denunciantes via auto-etnografia. \u201cA pr\u00f3pria teoria social feminista nos indica que n\u00e3o h\u00e1 lugar, nenhum sujeito intocado pelas rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e suas interse\u00e7\u00f5es&#8221;. Para nos emanciparmos delas, para empurr\u00e1-las para tr\u00e1s, temos que olh\u00e1-las no rosto, reconhec\u00ea-las em n\u00f3s, n\u00e3o tentar esconder em que partes de n\u00f3s elas habitam&#8230; \u00c9 trazendo-as \u00e0 tona, debatendo-as, que nasce a possibilidade de mudan\u00e7a&#8221; (<a href=\"https:\/\/luchadoras.mx\/justicia-feminista-ante-el-estado-ausente-un-debate-urgente-reflexiones-sobre-estrategias-frente-a-la-violencia-patriarcal\">Lang e Segato<\/a>).<\/p>\n<p>Sabemos tamb\u00e9m que precisamos de comunidades acad\u00eamicas e sociais dispostas a debater em profundidade, a aprender permanentemente, a expandir nossa imagina\u00e7\u00e3o e a (re)criar coletiva e permanentemente processos emancipat\u00f3rios \u2013pr\u00e1xis libertadoras\u2013 diante das omiss\u00f5es, indiferen\u00e7as e qualquer express\u00e3o de revitimiza\u00e7\u00e3o das mulheres violentadas e das diversas comunidades afetadas. Acreditamos que o que tamb\u00e9m est\u00e1 em jogo \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o coletiva de sociedades justas, relacionais e curativas; outros mundos poss\u00edveis aqui e agora, como dizem e fazem as, os, oas zapatistas.<\/p>\n<h4>Assinam:<\/h4>\n<p>Xochitl Leyva Solano (Chiapas, M\u00e9xico)<br \/>\nArturo Escobar (Colombia\/EE.UU.)<br \/>\nRosalba Icaza (Pa\u00edses Bajos\/M\u00e9xico)<br \/>\nPatricia Botero (Colombia)<br \/>\nValent\u00edn Val (Chiapas, M\u00e9xico\/Argentina)<br \/>\nJorge Alonso (Guadalajara, M\u00e9xico)<br \/>\nFerm\u00edn Ledesma (Chiapas, M\u00e9xico)<br \/>\nMaydi Estrada Bayona (GT CUTER)<br \/>\nAline De Moura (Brasil)<br \/>\nLola Cubells Aguilar (Pa\u00eds Valenciano, Espa\u00f1a)<br \/>\nAlain Basail Rodr\u00edguez (Chiapas, M\u00e9xico\/Cuba)<br \/>\nAxel K\u00f6hler (Chiapas, M\u00e9xico\/Alemania)<br \/>\nAlberto C. Vel\u00e1zquez Sol\u00eds (Yucat\u00e1n, M\u00e9xico)<br \/>\nLeandro Bonecini de Almeida (Brasil)<br \/>\nCarmen Ventura (M\u00e9xico)<br \/>\nJes\u00fas Gonz\u00e1lez Pazos (Euskal Herria-Pa\u00eds Vasco)<br \/>\nLuiza Dias Flores (Amazonas, Brasil)<br \/>\nHu\u00e1scar Salazar Lohaman (Cochabamba, Bolivia)<br \/>\nRosa Claudia Lora Krstulovic (Ciudad de M\u00e9xico, M\u00e9xico)<br \/>\nWendy Harcourt (Pa\u00edses Bajos)[:]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[:es]Espa\u00f1ol English Manifestamo-nos por mundos despatriarcais e deshier\u00e1rquizantes. Diante da publica\u00e7\u00e3o da entrevista com a Weychafe, camarada e intelectual Moira Mill\u00e1n, no jornal El Salto, assim como o cap\u00edtulo intitulado \u201cThe walls spoke when no one else would: Autoethnographic notes on sexual-power gatekeeping within avant-garde academia\u201d \u2013 As paredes falaram quando ningu\u00e9m mais faria: Notas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[961,953,183],"tags":[1412,41,1390],"class_list":["post-44792","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mujeres","category-mundo","category-blog","tag-academia","tag-mujeres","tag-patriarcado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44792","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=44792"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44792\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44795,"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44792\/revisions\/44795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=44792"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=44792"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiozapatista.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=44792"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}